sábado, 16 de dezembro de 2023

Súplica

Os clarões do Natal que se aproxima trazem-nos à lembrança a imagem tão conhecida da família de nosso Mestre Jesus, reunida ao redor da manjedoura, recebendo o carinho e a visita daqueles que vieram saudá-Lo. Dirigindo nosso olhar à Mãe Santíssima de todos nós, ofertamos a prece sempre atual de Bezerra de Menezes [1], intitulada Súplica:

Carl Heinrich Bloch – The birth of Jesus - Detalhe

“Eis-nos, Senhora, ajoelhados aos teus pés, saudando-te na aurora do terceiro milênio que vem próximo.

Sentimos o desvelo de teu coração de mãe, arrebanhando os espíritos das trevas dos sofrimentos e preparando-os para uma era diferente.

Ouves o clamor das vozes que se atropelam em gritos de angústia e dor; confrange-se o teu coração de luz, aberto aos tormentos dos filhos que ainda não conseguiram sobreviver às próprias iniquidades.

Farol divino, acendes o lume nos caminhos dos infelizes e envias, em teu nome santíssimo, equipes de mensageiros, portadores de tua palavra cariciosa, de conforto, paz e energia, convidando-os para os sacros trilhos traçados por teu excelso Jesus.

Acalentas no teu regaço de mãe amorosa os filhos do calvário e, lenindo-lhes as chagas, pouco a pouco, alcançam os planos de desenvolvimento superior.

Sol divino, irradias a tua força e o teu calor por todo o orbe terrestre e, mesmo nas esferas espirituais, tua santa presença se faz sentir nas tarefas assistenciais, junto aos que perambulam nas sombras.

Teu tempo é luz que derramas como bálsamo nos corações aflitos e tuas mãos afagam os pequeninos deserdados do entendimento maior, conduzindo-os aos núcleos de amor cristão, onde aprendem a pronunciar com respeito e amor o nome altíssimo do Cristo de Deus.

Senhora nossa, o cântico de amor que te enviamos parte, também, da opressão que sentimos por vermos tantos corações desolados, quantas almas empobrecidas de consolo, inúmeros perturbados e aflitos que não conseguem pronunciar uma prece!

Pranteamos os lares desolados, os dramas dos tugúrios onde a humildade se acasala com o sofrimento, e buscamos em Ti, Mãe da Humanidade, a força, o poder da palavra consoladora, os recursos espirituais necessários a aliviar tão grandes torturas, tão tremendas misérias, tanta luta inglória.

Mãe, genuflexos como servos teus que se postam no labor da boa vontade, rogamos-te que nos possamos constituir, também, obreiros de teu amor, junto aos que padecem o frio do desencanto, a tortura da prova, a indigência da fé.

Saudamos-te, Mãe Santíssima, agradecidos por tua generosa bênção e agraciados por teu amor, desejamos seguir as veredas dos carenciados, como fiéis colaboradores de tua caridade inigualável, preparando, sob tua égide, os caminhos do porvir.

O último dos teus servos

Bezerra”


Feliz Natal!
Que 2024 seja um ano de crescimento espiritual e renovação de esperanças!

Bons estudos!!
Carla e Hendrio


[1] PAIVA, Maria Cecília. “Garimpeiros do Além”. Pelo Espírito Bezerra de Menezes e outros. Instituto Maria, 1ª edição, Juiz de Fora, MG, 1985, p. 120-121.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Oferta de Natal

Nossa mensagem de Natal, nas palavras de Emmanuel.



Senhor!

Enquanto as melodias do Natal nos enternecem, recordamos também, ante o céu iluminado, a estrela divina que te assinalou o berço na palha singela!...

*

De novo, alcançam-nos os ouvidos as vozes angélicas:

– Glória a Deus nas Alturas, paz na Terra, boa vontade para com os homens!...

E lembramo-nos do tópico inesquecível da narrativa de Lucas (Lc 2:8-11):

“Havia na região da manjedoura pastores que viviam nos campos e velavam pelos rebanhos durante a noite; e um anjo do Senhor desceu onde eles se achavam e a glória do Senhor brilhou ao redor deles, pelo que se fizeram tomados de assombro... O anjo, porém, lhes disse: não temais! eis que vos trago boas novas de grande alegria, que serão para todo o povo... É que hoje vos nasceu, na cidade de David, o Salvador, que é o Cristo, o Senhor”.

Foto: Carla Engel

Desde o momento em que os pastores maravilhados se movimentaram para ver-te, na hora da alva, começaste, por misericórdia tua, a receber os testemunhos de afeição dos filhos da Terra.

Todavia, muito antes que te homenageassem com o ouro, o incenso e a mirra, expressando a admiração e a reverência do mundo, o teu cetro invisível se dignou acolher, em primeiro lugar, as pequeninas dádivas dos últimos!

Só tu sabes, Senhor, os nomes daqueles que algo te ofertaram, em nome do amor puro, nos instantes da estrebaria:

A primeira frase de bênção...

A luz da candeia que principiou a brilhar quando se apagaram as irradiações do firmamento...

Os panos que te livraram do frio...

A manta humilde que te garantiu o leito improvisado...

Os primeiros braços que te enlaçaram ao colo para que José e Maria repousassem...

A primeira tigela de leite...

O socorro aos pais cansados...

Os utensílios de empréstimo para que te não faltasse assistência...

A bondade que manteve a ordem, ao redor da manjedoura, preservando-a de possíveis assaltos...

O feno para o animal que devia transportar-te...

*

Hoje, Senhor, que quase vinte séculos transcorreram sobre o teu nascimento, nós, os pequeninos obreiros desencarnados, com a honra de cooperar em teu Evangelho Redivivo, pedimos vênia para algo ofertar-te... Nada possuindo de nós, trazemos-te as páginas simples que tu mesmo nos inspiraste, os pensamentos de gratidão e de amor que nos saíram do coração, em forma de letras, em louvor de tua infinita bondade!

Recebe-os, ó Divino Benfeitor! com a benevolência com que acolheste as primeiras palavras de respeito e os primeiros gestos de carinho com que as criaturas rudes e anônimas te afagaram na gloriosa descida à Terra!... E que nós – espíritos milenários fatigados do erro, mas renovados na esperança – possamos rever-te a figura sublime, nos recessos do coração, e repetir, como o velho Simeão, após acariciar-te na longa vigília do Templo:

– “Agora, Senhor, despede em paz os teus servos, segundo a tua palavra, porque os nossos olhos viram a salvação!...”.



XAVIER, Francisco Cândido. "Antologia Mediúnica do Natal". Por Diversos Espíritos. 3.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1990, Prefácio.

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Cartão de Natal

Ao clarão do Natal, que em ti acorda a música da esperança, escuta a voz de alguém que te busca o ninho da própria alma!... Alguém que te acende a estrela da generosidade nos olhos e te adoça o sentimento, qual se trouxesses uma harpa de ternura esconda no peito.

Sim, é Jesus, o amigo fiel, que volta.

Ainda que não quisesses, lembrar-lhe-ias hoje os dons inefáveis, ao recordares as canções maternas que te embalaram o berço, o carinho de teu pai, ao recolher-te nos braços enternecidos, a paciência dos mestres que te guiaram na escola e o amor puro de velhas afeições que te parecem distantes.

Contemplas a rua, onde luminárias e cânticos lhe reverenciam a glória; entretanto, vergas-te ao peso das lágrimas que te desafogam o coração... É que ele te fala no íntimo, rogando perdão para os erram, socorro aos que sofrem, agasalho aos que tremem na vastidão da noite, consolação aos que gemem desanimados e luz para os que jazem nas trevas.

Foto: Carla e Hendrio

Não hesites! Ouve-lhe a petição e faze algo!... Sorri de novo para os que te ofenderam; abençoa os que feriram; divide o farnel com os irmãos em necessidade; entrega um minuto de reconforto ao doente; oferece uma fatia de bolo aos que oram, sozinhos, sob ruínas e pontes abandonadas; estende um lençol macio aos que esperam a morte, sem aconchego do lar; cede pequenina parte de tua bolsa no auxílio às mães fatigadas, que se afligem ao pé dos filhinhos que enlanguescem de fome, ou improvisa a felicidade de uma criança esquecida.

Não importa se diga que cultivas a bondade somente hoje quando o Natal te deslumbra!... Comecemos a viver com Jesus, ainda que seja por algumas horas, de quando em quando, e aprenderemos, pouco a pouco, a estar com ele, em todos os instantes, tanto quanto ele permanece conosco, tornando diariamente ao nosso convívio e sustentando-nos para sempre.


Meimei



XAVIER, Francisco Cândido. "Antologia Mediúnica do Natal". Por Diversos Espíritos. 3.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1990, cap. 5.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Uma prece

Deus, Sabedoria Suprema do Universo, Tu sabes, Senhor o que é melhor para cada um de nós e temos certeza do Teu Amor infinito e Tua Sabedoria...

Te agradecemos a oportunidade de estarmos juntos em oração, nós e aqueles que nos leem, elevando nossos pensamentos e sentimentos a Ti.

Pai de Infinita Bondade, de Ti tudo recebemos: a dádiva da vida, que não perece; as experiências da vida física, a possibilidade de aprender e evoluir. O amparo e conforto nas horas difíceis. As energias necessárias para harmonização do corpo, dos pensamentos e emoções... E a Ti agradecemos toda essas graças que derramas incessantemente sobre nós...

Pai, nesses dias, em que tantos irmãos têm deixado o corpo físico, pedimos a Ti por eles... Que sejam bem recebidos no plano espiritual, continuando seu tratamento de saúde em clima de paz e tranquilidade... Que os Bons Amigos Espirituais possam continuar amparando a cada um destes nossos irmãos, testemunhando para eles a nossa afeição, nosso carinho, nossa saudade...

Foto: Carla Engel

Pedimos, Senhor, também por nós. Que a nossa saudade seja suave acalento, uma canção de gratidão pelos momentos que convivemos, sorrisos e alegrias que relembramos como ânimo novo para nossas lutas. Tranquiliza em nós qualquer revolta contra Tuas Sábias Leis.

Ajuda-nos, Senhor, a ajudarmos nossos amados, enviando para eles energias de paz, lembrando-nos deles com pensamentos serenos, saudades sim, mas a certeza de que os laços de amor e ternura permanecem. Ajuda-nos a respeitarmos essa pausa para refazimento de nossos amados. Que seja tranquilo seu despertar na Espiritualidade.

Que todos possam receber essas flores perfumadas da Tua Misericórdia!

Graças sempre, Senhor!


terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Finalidade da Existência

A proximidade da virada do calendário terreno, ao iniciar um novo ano, nos convida a considerar como foi vivenciado o tempo até aqui e quais as perspectivas, objetivos e sonhos para o próximo período de tempo.

O que norteia nosso planejamento?


Visão materialista e espiritualista da vida

Em “O Evangelho Segundo o Espiritismo” [1], há uma mensagem assinada por Um Espírito Protetor que é finalizada com a pergunta: “Seria essa a finalidade da existência que Deus vos outorgou?”

Nessa mensagem, o Espírito Protetor questiona nossas prioridades.
“Quando considero a brevidade da vida, dolorosamente me impressiona a incessante preocupação de que é para vós objeto o bem-estar material, ao passo que tão pouca importância dais ao vosso aperfeiçoamento moral, a que pouco ou nenhum tempo consagrais e que, no entanto, é o que importa para a eternidade.”
A brevidade da vida neste contexto refere-se a nossa encarnação atual. O que é o período de uma encarnação, ainda que longeva, de 70, 80, 100 anos, frente a todos os muitos e muitos anos que temos pela frente em nossa vida de espíritos imortais? Um período muito breve, muito rápido. Podemos traçar um paralelo com o iniciar de mais um ano letivo na escola... Ao vermos os livros, os cadernos ainda vazios, parece que há muita coisa para estudarmos, mas quando nos damos conta, já se passaram vários anos e já vamos sair da escola. É tão rápido...

Continuando sua análise, o Espírito Protetor diz que fica dolorosamente impressionado observando a nossa opção – enquanto Humanidade, no grau evolutivo que em média nos encontramos na Terra –, ao dedicarmos mais tempo ao bem-estar material em detrimento do aperfeiçoamento moral.

Do ponto de vista materialista, ou seja, considerando a não existência da alma e da continuidade da vida após a morte do corpo físico, é natural agir conforme diz o Espírito Protetor, preocupando-nos incessantemente com o bem-estar material.

Mas e do ponto de vista espiritualista? Considerando que existe alma e que esta continua sua jornada após a morte do corpo físico, que tempo estamos dedicando ao aperfeiçoamento moral? Como estamos nos alimentando, enquanto almas encarnadas, seja no exercício da prece, pelo menos no início e fim do dia, na leitura/estudo de obras edificantes? Como estamos nos aprimorando moralmente, a partir da observação de nós mesmos (o autoconhecimento) e de propostas de mudança interior? Quanto tempo dedicamos a essas atividades? Estamos vivendo como materialistas ou espiritualistas? São reflexões que somos convidados a fazer, porque, de acordo com o modo como estamos vivendo, estamos definindo qual é, para nós, a finalidade da existência.

Natural que não vamos nos ausentar do mundo material. Temos as nossas responsabilidades enquanto encarnados, que também nos auxiliam em nosso progresso, tanto material quanto espiritual, tanto individual quanto coletivo. E vale lembrar que o nosso planeta Terra é também uma escola, e como escola, oferece várias oportunidades de aprendizado, mesmo nas atividades materiais (nosso aprimoramento intelectual, nossa atitude com o meio ambiente, o modo como realizamos nossos trabalhos/estudos). Como estamos vivenciando essas aulas do dia-a-dia? Como materialistas ou como espiritualistas? Essas oportunidades que vivenciamos no mundo material são um fim em si mesmas ou meios, instrumentos para que possamos nos observar e nos melhorar?

Continua o Espírito Protetor:
“Dir-se-ia, diante da atividade que desenvolveis, tratar-se de uma questão do mais alto interesse para a Humanidade, quando não se trata, na maioria dos casos, senão de vos pordes em condições de satisfazer a necessidades exageradas, à vaidade, ou de vos entregardes a excessos.”
O convite é para descobrirmos as razões de nossas atitudes. Segundo o Espírito Protetor, algumas atividades nas quais estamos nos esforçando muito, aparentemente por uma razão muito positiva, pode não ter uma motivação tão louvável: necessidades exageradas, vaidade e excessos demonstram que estamos sendo egoístas. E, o que é mais preocupante, gerando a ilusão de que estamos contribuindo para a Humanidade...
“Credes, então, realmente, que vos serão levados em conta os cuidados e os esforços que despendeis movidos pelo egoísmo, pela cupidez ou pelo orgulho, enquanto negligenciais do vosso futuro, bem como dos deveres que a solidariedade fraterna impõe a todos os que gozam das vantagens da vida social?”
O Espírito Protetor que assina a mensagem multiplica questionamentos nos convidando à reflexão: estamos nos dedicando e esforçando muito, mas pelo quê? Quando motivados pelo egoísmo, pela cupidez (ambição, desejo excessivo por riqueza) ou pelo orgulho, nos esforçamos na direção equivocada, e descuidamos do futuro e do presente, pois não cumprimos “os deveres que a solidariedade fraterna impõe a todos os que gozam das vantagens da vida social”. Que será isso? Imaginemos uma pessoa muito famosa, muito influente. Esta visibilidade que a pessoa tem, ainda que ela não tenha recursos financeiros, pode ser usada em benefício de alguma causa positiva. E a pessoa nem precisa ser muito famosa, porque hoje quase todos podemos utilizar rede social, e ali somos vistos e influenciamos. O que estamos curtindo/compartilhando está servindo a alguma finalidade útil? Há várias outras situações em que podemos agir com “solidariedade fraterna”, ainda que não seja nas redes sociais. A pergunta do Espírito Protetor tem como objetivo nos levar a pensar sobre como e com que finalidade estamos vivendo esta encarnação.


Visão espírita da vida

No Dicionário [2], as definições de finalidade e existência são:
  • Finalidade: Aquilo que se pretende alcançar, obter; propósito, fim. Intenção para o desenvolvimento de algo: objetivo; 
  • Existência: A vida; a ação de permanecer vivo, de viver.

Finalidade da existência refere-se, portanto, ao objetivo da vida, já esclarecido que “existência”, neste contexto, refere-se à encarnação atual.

Em termos individuais, cada um tem a sua finalidade de vida. Cada um tem o seu planejamento espiritual, os seus desafios e, voltando ao exemplo da escola, as matérias que escolheu fazer nesse ano letivo, que seria a sua encarnação atual. Mas há algo comum a todos. Segundo o pensamento do escritor Victor Hugo (Espírito), na obra Árdua Ascensão:
“O homem (...) necessita despertar para as responsabilidades mais altas, adquirindo conhecimento, consciência da finalidade da sua existência na Terra, passo inicial para a aquisição do progresso real, que é o intelecto-moral, propiciador da legítima felicidade, afinal, meta e aspiração maior de todas as criaturas, embora os diferentes e, normalmente equivocados meios de que a maioria se utiliza para alcançar o mister.” [3]
Victor Hugo faz-nos repensar alguns conceitos corriqueiros sobre a finalidade da existência. A ideia do despertamento para responsabilidades mais altas não é compatível com simplesmente “gozar a vida”. Consciência da finalidade de sua existência se contrapõe ao pensamento de que “não pedimos para nascer”, ou ainda que tudo é fruto do acaso. O estudo da Doutrina Espírita demonstra que, ao atingir determinado nível evolutivo, o Espírito pede para reencarnar e planeja sua encarnação, com a orientação de seu Espírito Protetor. E por fim, ao entender que não “está aqui por acaso”, pode focar melhor o seu progresso intelecto-moral, extraindo de cada situação aquilo que realmente importa. E, com o progresso, conquista a legítima felicidade.

E o que a Doutrina Espírita nos esclarece acerca do objetivo da encarnação? Busquemos essas informações em “O Livro dos Espíritos” [4], primeira obra da Codificação (a qual abreviaremos como LE em trechos do presente estudo).

A questão referente a esse tema pode ser encontrada no capítulo II da segunda parte de “O Livro dos Espíritos”, subtítulo “Objetivo da encarnação”, qual seja:
132. Qual o objetivo da encarnação dos Espíritos?
“Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição.”
Quando estudamos em sequência “O Livro dos Espíritos”, temos mais facilidade de entendimento porque algumas questões já foram esclarecidas anteriormente. Esse é um caso. Na questão 115, os Espíritos revelaram que:
“Deus criou todos os Espíritos simples e ignorantes, isto é, sem saber. A cada um deu determinada missão, com o fim de esclarecê-los e de os fazer chegar progressivamente à perfeição, pelo conhecimento da verdade, para aproximá-los de si.” 
Desta forma, não é por acaso que encarnamos. Temos pelo menos uma missão: o aprimoramento de nós mesmos. Lembrando a escola, temos alguns trabalhos a realizar, exercícios a fazer, para adquirirmos esse conhecimento.

Ainda na questão 115, os Espíritos esclareceram que nessa perfeição, que sabemos ser uma perfeição relativa, já que a perfeição absoluta é de Deus, vamos encontrar a felicidade pura. Aquela felicidade legítima citada por Victor Hugo.

E os Espíritos Superiores continuam (LE q. 115):
“(...) Passando pelas provas que Deus lhes impõe é que os Espíritos adquirem aquele conhecimento. Uns aceitam submissos essas provas e chegam mais depressa à meta que lhes foi assinada. Outros, só a suportam murmurando e, pela falta em que desse modo incorrem, permanecem afastados da perfeição e da prometida felicidade.”
O termo prova lembra também aquele momento escolar em que vamos testar o que aprendemos. Os Espíritos destacam a finalidade da prova: adquirir conhecimento.

E se não adquirimos o conhecimento suficiente? Se não “passarmos na prova”? Vamos recomeçar. Pedir uma nova oportunidade, preparar-nos bem, e passar pela prova novamente, até conseguirmos atravessá-la. 
Voltemos então à resposta à questão 132:
“Para uns, é expiação; para outros, missão. Mas, para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal (...)”
Vicissitude significa sequência de mudanças ou transformações; variação. Não é necessariamente algo negativo. Sobre expiação, missão e prova, podemos entendê-las, de modo resumido, como:
  • Missão – é uma tarefa que o Espírito se propõe a fazer (LE questão 572) e tem sempre por finalidade o bem.
  • Expiação – resultado de uma falta cometida; relacionada ao passado do Espírito.
  • Prova – relacionada ao futuro do Espírito.

Em certos casos, a prova se confunde com a expiação, isto é, a expiação pode servir de prova, e reciprocamente. 
“As misérias da Terra são, pois, expiação, por seu lado efetivo e material, e provas, por suas consequências morais. Seja qual for o nome que se lhes dê, o resultado deve ser o mesmo: o melhoramento. Em presença de um objetivo tão importante, seria pueril fazer de um jogo de palavras uma questão de princípio. Isto provaria que se dá mais importância às palavras que à coisa.” [5]
Passamos por situações, vivências, que podem ser categorizadas como provas ou expiações, mas o nome que se dá não é o essencial. O importante é o resultado, o conhecimento adquirido, o progresso.

Retornando à resposta à questão 132, os Espíritos Superiores acrescentam: 
“(...) Visa ainda outro fim a encarnação: o de pôr o Espírito em condições de suportar a parte que lhe toca na obra da criação.”
Portanto, observa-se que à primeira finalidade, que é chegar à perfeição, soma-se a segunda finalidade, que é preparar-nos para bem realizar a parte sob nossa responsabilidade na obra da criação. Podemos buscar como exemplo o nosso Mestre Jesus. Temos a informação, no livro “A Caminho da Luz”, que Jesus é o governador da Terra e que a presidiu desde a sua formação, quando se desprendeu do Sol... Imaginemos o quanto de conhecimento precisamos ter para coordenar a formação de um planeta! 

Joanna de Ângelis, no livro “Filho de Deus” [6], faz-nos uma pergunta:
“Considerando-se a tua ascendência divina, já te deste conta de que és herdeiro de Deus?”
E o que é a herança de Deus? O Universo e todas as almas que estão progredindo nele... A encarnação serve para nos preparar para assumirmos essa herança divina e geri-la bem.

Os Espíritos Superiores finalizam a resposta à questão 132:
“Para executá-la é que, em cada mundo, toma o Espírito um instrumento, de harmonia com a matéria essencial desse mundo, a fim de aí cumprir, daquele ponto de vista, as ordens de Deus. É assim que, concorrendo para a obra geral, ele próprio se adianta.”
Além do progresso individual, concorremos para o progresso coletivo. Além do progresso material, realizamos progresso espiritual, se estivermos atentos às atividades desenvolvidas. Não é lógico considerarmos que o desenvolvimento material dependa apenas dos Espíritos Superiores. Considerando que temos o instrumento adequado (o corpo físico), cabe-nos a responsabilidade de realizar a parte material relativa a este progresso. Um exemplo muito simples: nossos Espíritos Protetores não vão separar o lixo em reciclável e orgânico, não vão cuidar da limpeza física da rua... Essa é a parte de responsabilidade dos encarnados. 

Em relação à finalidade da encarnação, vale considerar ainda a questão que Kardec apresentou aos Espíritos Superiores sob número 573 (LE):
573. Em que consiste a missão dos Espíritos encarnados?
“Em instruir os homens, em lhes auxiliar o progresso; em lhes melhorar as instituições, por meios diretos e materiais. As missões, porém, são mais ou menos gerais e importantes. O que cultiva a terra desempenha tão nobre missão, como o que governa, ou o que instrui. Tudo em a Natureza se encadeia. Ao mesmo tempo que o Espírito se depura pela encarnação, concorre, dessa forma, para a execução dos desígnios da Providência. Cada um tem neste mundo a sua missão, porque todos podem ter alguma utilidade.
(grifo nosso).
Os Espíritos Superiores reforçam a ideia de que, quando nós estamos encarnados, além da responsabilidade relativa ao nosso melhoramento pessoal, temos responsabilidades em relação ao mundo físico. E não importa em qual posição social estejamos, seja como lavrador, governador, educador, todas são oportunidades, tanto de melhoria pessoal quanto de melhoria do mundo que nos cerca. Além disso, não importa em qual grau da escala evolutiva estejamos, pouco evoluído ou muito evoluído, cada um pode ser útil do jeito que se encontra (LE q. 559). Não há ninguém que não tenha algo para fazer ou ensinar; há algo que está sob sua responsabilidade, é a sua missão. E naturalmente, como vimos antes, as missões estão sempre relacionadas ao bem, pois ninguém tem a missão de fazer algo errado ou mau. 

Resumindo as análises apresentadas até o momento, verificamos pelo menos 3 finalidades para a existência:
  • Finalidade 1 – chegar à perfeição (LE q. 132).
  • Finalidade 2 – preparar-nos para a parte que nos toca na obra da criação (LE q. 132), já que somos herdeiros de Deus e precisamos nos preparar para gerir essa herança.
  • Finalidade 3 – instruir os homens, auxiliar o progresso; melhorar as instituições, por meios diretos e materiais (LE q. 573).



Jesus e a finalidade da existência

Como a Doutrina Espírita é o Cristianismo redivivo, ou seja, o Cristianismo trazido de novo em sua pureza, esta nos relembra os ensinamentos de Jesus, nosso Mestre, Professor amigo, guia e modelo. Sobre este tema, há diversas passagens que poderiam ilustrar o estudo sobre a finalidade da existência.

Pintura de Simon Dewey

Escolhemos a passagem narrada pelo Evangelista Lucas, no capítulo 10, versículos 38 a 42:
“Caminhando Jesus e os seus discípulos, chegaram a um povoado onde certa mulher chamada Marta o recebeu em sua casa.
Maria, sua irmã, ficou sentada aos pés do Senhor, ouvindo a sua palavra.
Marta, porém, estava ocupada com muito serviço. E, aproximando-se dele, perguntou: ‘Senhor, não te importas que minha irmã tenha me deixado sozinha com o serviço? Dize-lhe que me ajude!’
E respondendo Jesus, disse-lhe: ‘Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisas, mas uma só é necessária;
E Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada.’”
A passagem de Jesus em casa de Marta e Maria apresenta muitos ensinamentos... Relacionando-a com a finalidade da existência, consideremos a situação das duas irmãs: a agitação e inquietação de Marta e a serenidade de Maria. Observamos que Marta vivia ansiosa e afadigada. Podemos associar esse comportamento de Marta àquele que vimos na mensagem inicial de Um Espírito Protetor, com referência aos trabalhos penosos, à existência de sacrifício... Jesus esclarece: mas só uma coisa é necessária.

Imaginemos um estudante que se prepara para receber um diploma e exercer determinada profissão. Em sua formação, utiliza livros, cadernos, tudo que é útil para aquele momento de aprendizado, todavia, no exercício de sua profissão, precisará da lição aprendida, não mais do material escolar. Da mesma forma, enquanto Espíritos em evolução, todas as situações que vivenciamos são nossos materiais didáticos. Eles são meios para adquirirmos conhecimento e experiência, mas não fins em si mesmos. 

Marta, em seu comportamento ansioso, demonstrava priorizar o caderno, o livro, a caneta e não a lição.

A capacidade de realização no mundo físico, representada pela ação de Marta, precisa da ligação com a parte espiritual, representada por Maria, que escuta as orientações de Jesus, para atingir sua finalidade plena. Segundo o dizer de Haroldo Dutra Dias,  precisamos desenvolver o coração de Maria e as mãos de Marta.


O calendário amigo, na virada de mais um ano, convida a pensar.
O que tem norteado seu planejamento? O que é realmente importante?
Quais as suas perspectivas, objetivos e sonhos para o próximo período de tempo?


Leia também, neste Blog, as postagens “Por que Deus criou a nós e o Universo?” e “Vigiai e Orai”.


Bons estudos, com nossos votos de um Feliz 2020!
Carla e Hendrio


Referências Bibliográficas

[1] KARDEC, Allan. “O Evangelho Segundo do Espiritismo”, 97ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 1987, cap. XVI, item 12.
[2] “Dicionário On Line de Português”. Disponível em: https://www.dicio.com.br/finalidade/ e https://www.dicio.com.br/existencia/ Acesso em 31.12.2019.
[3]  FRANCO, Divaldo P. “Árdua Ascensão”, Pelo Espírito Victor Hugo, 6ª ed, Salvador: LEAL, 1999, cap. 4, 2ª parte, trecho.
[4] KARDEC, Allan. “O Livro dos Espíritos”, 66ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 1987, questões 115, 132, 572, 573, 559.
[5] KARDEC, Allan. “Revista Espírita. Setembro de 1863”, Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Questões e Problemas Sobre a Expiação e a Prova. Disponível em: https://www.febnet.org.br/blog/geral/pesquisas/downloads-material-completo/ Acesso em 31.12.2019.
[6] FRANCO, Divaldo P. “Filho de Deus”, Pelo Espírito Joanna de Ângelis, 1ª ed. Salvador: LEAL, 1986, cap. 11.

sábado, 15 de dezembro de 2018

Natal Simbólico

Harmonias cariciosas atravessavam a paisagem, quando o lúcido mensageiro continuou:
– Cada Espírito é um mundo onde o Cristo deve nascer...
Fora loucura esperar a reforma do mundo, sem o homem reformado. Jamais conheceremos povos cristãos, sem edificarmos a alma cristã...
Eis por que o Natal do Senhor se reveste de profunda importância para cada um de nós em particular. 
Temos conosco oceanos de bênçãos divinas, maravilhosos continentes de possibilidades, florestas de sentimentos por educar, desertos de ignorância por corrigir, inumeráveis tribos de pensamentos que nos povoam a infinita extensão do mundo interior. De quando em quando, tempestades renovadoras varrem-nos o íntimo, furacões implacáveis atingem nossos ídolos mentirosos.
Quantas vezes, o interesse egoístico foi o nosso perverso inspirador?
Examinando a movimentação de nossas ideias próprias, verificamos que todo princípio nobre serviu de precursor ao conhecimento inicial do Cristo.
Verificou-se a vinda de Jesus numa época de recenseamento.
Alcançamos a transformação essencial justamente em fase de contas espirituais com a nossa própria consciência, seja pela dor ou pela madureza de raciocínio.
Não havia lugar para o Senhor.
Nunca possuímos espaço mental para a inspiração divina, absorvidos de ansiedades do coração ou limitados pela ignorância.
A única estalagem ao Hóspede Sublime foi a Manjedoura.
Não oferecemos ao pensamento evangélico senão algumas palhas misérrimas de nossa boa vontade, no lugar mais escuro de nossa mente.
Surge o Infante Celestial, dentro da noite.
Quase sempre, não sentimos a Bondade do Senhor senão no ápice das sombras de nossas inquietações e falências.
A estrela prodigiosa rompe as trevas no grande silêncio.
Quando o gérmen do Cristo desponta em nossas almas, a estrela da divina esperança desafia nossas trevas interiores, obscurecendo o passado, clareando o presente e indicando o porvir.
Animais em bando são as primeiras visitas ao Enviado Celeste.
Na soledade de nossa transformação moral, em face da alvorada nova, os sentimentos animalizados de nosso ser são os primeiros a defrontar o ideal do Mestre.
Chegam pastores que se envolvem na intensa luz dos anjos que velam o berço divino.
Nossos pensamentos mais simples e mais puros aproximam-se da ideia nova, contagiando-se da claridade sublime, oriunda dos gênios superiores que nos presidem aos destinos e que se acercam de nós, afugentando a incompreensão e o temor.


Cantam milícias celestiais.
No instante de nossa renovação em Cristo, velhos companheiros nossos, já redimidos, exultam de contentamento na esfera superior, dando glória a Deus e bendizendo os espíritos de boa vontade.
Divulgam os pastores a notícia maravilhosa.
Nossos pensamentos, felicitados pelo impulso criador de Jesus, comunicam-se entre si, organizando-se para a vida nova.
Surge a visita inesperada dos magos.
Sentindo-nos a modificação, o mundo observa-nos de modo especial.
Os servos fiéis, como Simeão, expressam grande júbilo, mas revelam apreensões justas, declarando que o Menino surgira para a queda e elevação de muitos em Israel.
Acalentamos o pensamento renovador, no recesso dalma, para a destruição de nossos ídolos de barro e desenvolvimento dos germens de espiritualidade superior.
Ferido na vaidade e na ambição, Herodes determina a morte do Pequenino Emissário.
A ignorância que nos governa, desde muitos milênios, trabalha contra a ideia redentora, movimentando todas as possibilidades ao seu alcance.
Conserva-se Jesus na casa simples de Nazaré.
Nunca poderemos fornecer testemunho à Humanidade, antes de fazê-lo junto aos nossos, elevando o espírito do grupo a que Deus nos conduziu.
Trabalha o Pequeno Embaixador numa carpintaria.
Em toda realização superior, não poderemos desdenhar o esforço próprio.
Mais tarde, o Celeste Menino surpreende os velhos doutores.
O pensamento cristão entra em choque, desde cedo, com todas as nossas antigas convenções relativas à riqueza e à pobreza, ao prazer e ao sofrimento, à obediência e à mordomia, à filosofia e à instrução, à fé e à ciência.
Trava-se, então, dentro de nosso mundo individual, a grande batalha.
A essa altura, o mensageiro fez longa pausa.
Flores de luz choviam de mais alto, como alegrias do Natal, banhando-nos a fronte. Os demais companheiros e eu aguardávamos, ansiosos, a continuação da mensagem sublime; entretanto, o missionário generoso sorriu paternalmente e rematou:
– Aqui termino minhas humildes lembranças do Natal simbólico. Segundo observais, o Evangelho de Nosso Senhor não é livro para os museus, mas roteiro palpitante da vida.

Irmão X



XAVIER, Francisco Cândido. “Antologia Mediúnica do Natal”. Espíritos Diversos. 3ª Ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1990, Capítulo 19.

Fonte da imagem: https://en.wikipedia.org/wiki/Gerard_van_Honthorst#/media/File:Gherardo_delle_Notti_o_Gheritt_van_Hontorst_-_Adorazione_del_Bambino_-_Google_Art_Project.jpg

sábado, 22 de outubro de 2016

Toque de fé

Ergue-te e caminha.
 
Enxuga as lágrimas e fita os Céus.

Deus, que te sustentou até ontem, sustentará hoje e sempre.

A sombra vale para destacar a luz. Surge a dor para aumentar a alegria.


Foto Carla Engel

Se provações te feriram, esquece.

Se desenganos te amargaram a existência, não esmoreças.

Escuta a esperança, no silêncio da própria alma, a falar-te de futuro e de amor, de beleza e eternidade, e transforma a bênção das horas em riqueza de trabalho.

Olvida toda sombra, à procura de mais luz e perceberás que Deus está contigo, em teu próprio coração, a estender-te os braços abertos.


Meimei

XAVIER, Francisco Cândido. "Amizade". Pelo Espírito Meimei. São Paulo: Ideal, 1987, capítulo 3.

Bons estudos
Carla e  Hendrio

sábado, 14 de março de 2015

Ambiente espiritual

O que é o ambiente espiritual? Como ele pode ser influenciado e como ele nos influencia?

Allan Kardec nos esclarece em “A Gênese”:
“O pensamento do encarnado atua sobre os fluidos espirituais, como o dos desencarnados, e se transmite de Espírito a Espírito pelas mesmas vias e, conforme seja bom ou mau, saneia ou vicia os fluidos ambientes.”[1]

Assim, o pensamento é a forma de atuação no ambiente espiritual. Influem nele tanto os encarnados quanto os desencarnados, havendo transmissão de um a outro (Espírito a Espírito), através do fluido cósmico. E, conforme a sua natureza, de responsabilidade do Espírito (encarnado ou desencarnado) que emite esses pensamentos, pode sanear ou viciar o ambiente fluídico.

Sentimos isso no dia a dia. Um ambiente pesado, ainda que fisicamente se apresente asseado e organizado, e um ambiente salutar, que nos enche de alegria e bem estar, independente de como se apresenta o ambiente físico. Esse ambiente é criado e mantido pelos Espíritos que ali emitem seus pensamentos, dos dois lados da vida.

André Luiz, na obra “Missionários da Luz” [2], nos traz a orientação de Alexandre (grifos nossos):
“Primeiramente a semeadura, depois a colheita; e, tanto as sementes de trigo como de escalracho, encontrando terra propícia, produzirão a seu modo e na mesma pauta de multiplicação. Nessa resposta da Natureza ao esforço do lavrador, temos simplesmente a lei. Você está observando o setor das larvas com justificável admiração. Não tenha dúvida. Nas moléstias da alma, como nas enfermidades do corpo físico, antes da afecção existe o ambiente. As ações produzem efeitos, os sentimentos geram criações, os pensamentos dão origem a formas e consequências de infinitas expressões. E, em virtude de cada Espírito representar um universo por si, cada um de nós é responsável pela emissão das forças que lançamos em circulação nas correntes da vida. A cólera, a desesperação, o ódio e o vício oferecem campo a perigosos germens psíquicos na esfera da alma. E, qual acontece no terreno das enfermidades do corpo, o contágio aqui é fato consumado, desde que a imprevidência ou a necessidade de luta estabeleça ambiente propício, entre companheiros do mesmo nível. Naturalmente, no campo da matéria mais grosseira, essa lei funciona com violência, enquanto, entre nós, se desenvolve com as modificações naturais. Aliás, não pode ser de outro modo, mesmo porque você não ignora que muita gente cultiva a vocação para o abismo. Cada viciação particular da personalidade produz as formas sombrias que lhe são consequentes, e estas, como as plantas inferiores que se alastram no solo, por relaxamento do responsável, são extensivas às regiões próximas, onde não prevalece o espírito de vigilância e defesa.”

Destaquemos alguns pontos do texto para estudo:
  • “(...) antes da afecção existe o ambiente.” – Alexandre refere-se à presença de “bacilos de natureza psíquica” no ambiente espiritual. E que antes da contaminação, há a formação do ambiente adequado para o desenvolvimento de tais criaturas, através do tipo de pensamento emitido pelo encarnado.
  • “(...) cada um de nós é responsável pela emissão das forças que lançamos em circulação nas correntes da vida.” – A emissão de forças que lançamos nas correntes da vida, são nossos pensamentos e atos. Qual tem sido o teor preponderante dos nossos pensamentos? São pensamentos de harmonia, de gratidão, de esperança e otimismo? Ou são pensamentos de revolta, desânimo, cólera?
  • “(...) a imprevidência ou a necessidade de luta estabeleça ambiente propício, (...)” – Há situações que não podemos evitar – são os “escândalos” a que se refere nosso Mestre Jesus. E os bons Espíritos nos sustentam e auxiliam a atravessar esta e outras situações, com o equilíbrio possível. Porém, não existem apenas situações inevitáveis, devido a nossa necessidade de luta. Alexandre destaca a imprevidência. Ser imprevidente é ser desleixado, negligente. Mas imprevidência com o quê? No caso, refere-se ao ambiente. Sabemos que nosso pensamento influencia na natureza do ambiente. Se são pensamentos salutares, influenciamos positivamente. Se os pensamentos são de natureza inferior, viciam o ambiente, tornando-o propício para o desenvolvimento tanto de “bacilos de natureza psíquica”, que atingem os encarnados, quanto para a propagação de ideias malsãs, que podem encontrar quem se proponha a colocá-las em prática. Notemos que a influência pode ser boa ou má, dependendo da nossa vontade e nossa previdência ou imprevidência.
  • “(...) cultiva a vocação para o abismo.” – Essa expressão parece-nos indicar a tendência a destacar tragédia, pessimismo, desesperança, desânimo, em todas as situações. Cultivar a vocação para o abismo é buscar o lado negativo em cada ocorrência e permanecer nele, sem abertura para perceber a bondade e a previdência divina atuando ainda que de forma imediatamente compreensível para nós. A consequência do cultivo da vocação para o abismo é a criação e emissão de pensamentos de natureza perniciosa, que agravam as ocorrências negativas, gerando mais sofrimento e dificultando a transformação da situação por ações positivas, pela prece, pelo consolo, pelo foco na solução em vez do foco no problema.
  • “(...) espírito de vigilância e defesa.” – O conhecido “vigiai e orai” que Jesus nos recomendou (leia mais a respeito na postagem “Vigiai e Orai”, neste Blog). Se não vigiamos nossos pensamentos, muitas vezes nos deixamos levar pela onda de pessimismo e revolta e se não temos a postos o espírito de defesa, buscando, a princípio, preservar a nossa paz interior, na certeza de que Deus é Pai Bondoso e Justo, acabamos por não lutar por manter o ambiente salutar a nossa volta. Orar para estar em sintonia com a Espiritualidade Superior, capaz de sanear o ambiente com fluidos positivos e manter a nossa harmonia e vigiar, para, no momento do contato com os pensamentos negativos, repeli-los naturalmente com a atmosfera positiva que desejamos nos envolva sempre.


E como transformar o ambiente espiritual, tornando-o saudável? Mais uma vez nos orienta o Codificador [3]:
“O meio é muito simples, porque depende da vontade do homem, que traz consigo o necessário preservativo. Os fluidos se combinam pela semelhança de suas naturezas; os dessemelhantes se repelem; há incompatibilidade entre os bons e os maus fluidos, como entre o óleo e a água.
Que se faz quando está viciado o ar? Procede-se ao seu saneamento, cuida-se de depurá-lo, destruindo o foco dos miasmas, expelindo os eflúvios malsãos, por meio de mais fortes correntes de ar salubre. À invasão, pois, dos maus fluidos, cumpre se oponham os fluidos bons e, como cada um tem no seu próprio perispírito uma fonte fluídica permanente, todos trazem consigo o remédio aplicável. Trata-se apenas de purificar essa fonte e de lhe dar qualidades tais, que se constitua para as más influências um repulsor, em vez de ser uma força atrativa.”
Foto: Carla Engel

A transformação do ambiente desfavorável é explicada por André Luiz e pelo orientador Alexandre, no capítulo 5 da obra Missionários da Luz [4]:
“Notava, agora, a diferenciação do ambiente.
Para nós outros, os desencarnados, a atmosfera interior impregnava-se de elementos balsâmicos, regeneradores. Cá fora, porém, o ar pesava. Acentuara-se-me, sobremaneira, a hipersensibilidade, diante das emanações grosseiras da rua. As lâmpadas elétricas semelhavam-se a globos pequeninos, de luz muito pobre, isolados em sombra espessa.
Aspirando as novas correntes de ar, observava a diferença indefinível. O oxigênio parecia tocado de magnetismo menos agradável.
Compreendi, uma vez mais, a sublimidade da oração e do serviço da Espiritualidade superior, na intimidade das criaturas.
A prece, a meditação elevada, o pensamento edificante, refundem a atmosfera, purificando-a.
O instrutor interrompeu-me as íntimas considerações, exclamando:
─ A modificação, evidentemente, é inexprimível. Entre as vibrações harmoniosas da paisagem interior, iluminada pela oração, e a via pública, repleta de emanações inferiores, há diferenças singulares. O pensamento elevado santifica a atmosfera em torno e possui propriedades elétricas que o homem comum está longe de imaginar. A rua, no entanto, é avelhantado repositório de vibrações antagônicas, em meio de sombrios materiais psíquicos e perigosas bactérias de varia da procedência, em vista de a maioria dos transeuntes lançar em circulação, incessantemente, não só as colônias imensas de micróbios diversos, mas também os maus pensamentos de toda ordem.”

São ensinamentos que merecem a nossa meditação e reflexão. Como temos nos comportado em relação a emanação de pensamentos? Estaremos nós, também, cultivando “vocação para o abismo”? Ou já despertamos, esforçando-nos para “orar e vigiar”, mantendo o ambiente de prece e pensamentos saudáveis, cultivando o hábito da prece no lar, em nosso trabalho, em nosso ambiente de estudo e demais atividades, independente da religião que professamos?

Estamos convidados a participar ativamente na construção e manutenção de ambiente salutar, não só pelas atividades ecologicamente corretas às quais nos engajamos, seja cuidando do lixo, respeitando a água, mas também na emissão de pensamentos não poluentes, antes despoluidores da atmosfera espiritual negativa. Devemos ser agentes de mudança em nossa sociedade — mas de mudança para o bem, fazendo nosso melhor, debatendo o que requerer mudanças, mas jamais alimentando problemas com pensamentos e ações violentas. Nossos pensamentos e ações também são nossas obras. É Jesus quem nos convida:
Porque o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos; e então dará a cada um segundo as suas obras.” (Mateus 16:27)

Leia também, neste Blog, as postagens “Vigiai e Orai”, “Influência do Meio”, “Fluido Universal” e “Falsos Cristos, falsos profetas e seus seguidores”.


Bons estudos! Bons pensamentos!
Muita paz!
Carla e Hendrio

Continue seus estudos, ouvindo os programas “Missionários da Luz”, capítulos 28 e 29, na página da Rádio Rio de Janeiro: http://www.radioriodejaneiro.am.br/?page_id=48031

[1] KARDEC, Allan. “A Gênese”. Capítulo XIV, item 18, trecho.
[2] XAVIER, Francisco Cândido. “Missionários da Luz”. Pelo Espírito André Luiz. Capítulo 4, trecho.
[3] KARDEC, Allan. “A Gênese”. Capítulo XIV, item 21, trecho.
[4] XAVIER, Francisco Cândido. “Missionários da Luz”. Pelo Espírito André Luiz. Capítulo 5, trecho.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Bem-Aventurados os Aflitos — Parte 1

“Eu lhes disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo.” (João 16:33)

“Louva o céu azul que te imprime euforia ao pensamento, mas agradece, também, a nuvem que te garante a chuva, mensageira do pão.
Mesmo que não entendas, de pronto, os desígnios da Providência Divina, recebe a provação como sendo o melhor que merecemos hoje, em favor do amanhã, e, ainda que lágrimas dolorosas te lavem a alma toda, rende graças a Deus.” (Emmanuel) [1]

O Capítulo V do livro “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, intitulado “Bem-Aventurados os Aflitos”, é o mais extenso da terceira Obra Básica. A situação presente de nossa humanidade, ainda enfrentando diversas lições dolorosas a fim de aprender e superar o apego a valores mundanos, efetivamente requer entendimento dos porquês das visitas das aflições. Nosso Mestre Jesus, além de ter nos recomendado bom ânimo para, como ele, vencermos o mundo, também nos informou que quem crer nele fará as obras que ele realizou (João 14:12). A fim de atingirmos tal nível evolutivo, há muito a estudar. Estudemos, portanto, alguns tópicos abordados no Capítulo V de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”.


Pontos de Partida

Antes de abordarmos a Obra Básica em questão, consideremos algumas premissas para melhor entendermos os estudos de Kardec:

1) Deus, inteligência suprema, causa primária de todas as coisas (“O Livro dos Espíritos”, questão 01), é infinitamente justo e bom.O Criador não deseja que soframos; em Sua infinita justiça, Suas leis nos permitem aprender com as consequências de nossos atos, e, em Sua infinita bondade, propicia condições para repararmos nossos erros.
“(...) Deus é eterno, infinito, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom (...)”[2]
2) Não nos compete apontar os defeitos do nosso semelhante e atribuir, às suas aflições, as causas de seu sofrimento e as “penas” pelas quais deve passar. Todos temos muito a evoluir; devemos, sim, tratar de buscar nosso aperfeiçoamento.
“Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados” (Lucas 6:37)
3) Ao nos comunicarmos com nosso semelhante, especialmente se tivermos a oportunidade de levar algum aconselhamento sobre uma aflição, tratemos de levar mensagens úteis e benéficas, e não algo que diminua o ânimo de nossos irmãos em Deus e torne ainda mais pesada a situação vivenciada naquele instante.
“Linguagem sã e irrepreensível, para que o adversário se confunda, não tendo mal algum que dizer de nós.” (Carta de Paulo a Tito 02:08)

Pinga Fogo de 21/12/1971: Chico Xavier atende a um aflito

Missionários como Chico Xavier não devem ser tratados como ídolos e colocados num cômodo pedestal, pois eles vêm à Terra para nos ensinar pelo exemplo da caridade, o amor na prática. A melhor maneira de expressarmos nossa gratidão a tais Espíritos é estudar e dar continuidade ao Bem que praticaram.

Os dois programas Pinga Fogo de 1971 nos quais Chico Xavier fora entrevistado constituíram marcos no Movimento Espírita, tanto por  terem propiciado farto material — o qual ainda deve ser muito mais estudado e aprofundado — para melhor entendermos a Doutrina Espírita, quanto  por haver oferecido a oportunidade de ver, na prática, a postura de um autêntico seguidor dos postulados cristãos. Fica a sugestão de assistir a e estudar  essas duas entrevistas dos programas Pinga Fogo.

Na segunda entrevista, datada de 21 de dezembro de 1971, no item 40 do DVD do referido programa, intitulado “Um conselho”, um dos entrevistadores interrompe a sessão de perguntas e solicita a Chico Xavier levar uma palavra de ânimo a um artista famoso à época, o qual se afirmou desesperado devido à doença que tivera pouco tempo antes e pela enfermidade à qual sua esposa estava acometida. Sua postura em direção ao requerente nos permite verificar a aplicação prática das premissas acima; por exemplo:
  • Nenhum julgamento: não há insinuações sobre erros cometidos, sejam da encarnação atual ou de vivências pretéritas, os quais ele “tenha de pagar”. Por caridade divina, não lembramos nem dos detalhes de nossa vivência pessoal ao longo dos séculos passados; não há, portanto, o menor benefício em fazermos conjecturas sobre possíveis “pecados” pelos quais nosso semelhante esteja “pagando”. Além de não ser uma comunicação caridosa, tal postura contrariaria a recomendação de Jesus, anotada pelo apóstolo Lucas, citada acima. Lembremos sempre: A Doutrina Espírita ensina termos um passado, o qual pode ser inferido por nossas tendências [3], mas não serve para fazermos suposições lisonjeiras nem depreciativas, ambas tão infundadas quanto inúteis,sobre o passado nosso ou de qualquer pessoa;
  • O médium lembra que a dor tem uma função em nossas vidas, e, portanto, não é um “castigo”. Em essência, as aflições têm dois propósitos: sinalizar sobre um caminho a modificar e/ou trazer lições para aprender. Encarar as vivências menos felizes sob este prisma, em vez de ficarmos nos achando desafortunados merecedores de pena, já nos traz muito mais disposição para superar os desafios da vida;
  • Em sua infinita bondade, Deus sempre estende seu amparo a todos nós. As boas inspirações e energias da Espiritualidade Superior estão sempre à nossa disposição, competindo a nós, pela prece e pela prática do Bem, sintonizar e receber essas boas vibrações fundamentais tanto nos momentos agradáveis como nos em que a dor nos visita. Conforme anotado pelo Espírito André Luiz em uma palestra do instrutor Aniceto, o qual a transmitiu a nós por meio de Chico Xavier na obra “Os Mensageiros”:
“Ainda que nos demoremos nas lágrimas e nas aflições, jamais permanecemos ao desamparo.” [3]

Foto: Hendrio Belfort


Origem da palavra

Frequentemente, o conhecimento da origem dos termos em estudo ajuda muito a entender seu significado mais aprofundado. Isso acontece com a palavra aflição.

Aflição, do latim affligere, corresponde à união dos termos ad (sobre) e fligere (golpear), sendo este último relacionado com a palavra flagellus, a qual significa chicote. Não pensemos, porém, tal tipo de golpe  relacionado a flagelos físicos. O sacrifício agradável a nosso Criador é o das más tendências, do egoísmo e do orgulho, focando nas funções úteis dos momentos dificultosos de nossas vidas. Lembremo-nos da oportuna mensagem do Espírito que assinou como Um anjo guardião:
“Se quereis um cilício, aplicai-o às vossas almas e não aos vossos corpos; (...) fustigai o vosso orgulho, (...) enrijai-vos contra a dor da injúria e da calúnia (...), mais pungente do que a dor física.” [5]
É comum encontrarmos a palavra aguilhão na literatura espírita. O termo, sinônimo de espinho ou ferrão, mais uma vez lembra que a dor serve para informar sobre um caminho a corrigir, desafios a superar e/ou novas lições a aprender. Nas palavras do Codificador da Doutrina Espírita:
“A dor é o aguilhão que o impele para a frente, na senda do progresso.” [6]

Continua...

Após estes pontos de partida para o estudo do Capítulo V de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, em  postagem futura, abordaremos o texto de Kardec.


Bons estudos!
Carla e Hendrio


Referências
[1] XAVIER, Francisco Cândido. “Palavras de Vida Eterna”. Pelo Espírito Emmanuel. 8.ed. Uberaba, MG: Comunhão Espírita Cristã, 1986. Capítulo “Agradeçamos sempre”.
[2] KARDEC, Allan. “O Livro dos Espíritos”.  questão 13, disponível para download em http://www.febnet.org.br/blog/geral/divulgacao/downloads-divulgacao/obras-basicas/
[3] KARDEC, Allan, “O Livro dos Espíritos”.  questão 393
[4] XAVIER, Francisco Cândido. “Os Mensageiros”. Pelo Espírito André Luiz. Capítulo 25.
[5] KARDEC, Allan. “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. cap. V item 26
[6] KARDEC, Allan. “A Gênese”. Capítulo III (“O bem e o mal”). Item 5.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Mensagem de Fim de Ano

Ao aproximarmo-nos de mais um findar de ano terreno, somos levados a refletir sobre nossas conquistas, nossos erros, em como aproveitamos os últimos 365 dias que estiveram à nossa disposição.
Algumas vezes, evitamos a reflexão. Outras vezes, deixamo-nos levar por sentimentos de menos valia, de tristeza e desânimo, pois nem tudo ocorreu conforme planejáramos...
André Luiz, pela psicografia de Waldo Vieira, orienta-nos, na mensagem intitulada "Escala do Tempo" [1]:

"Não te atribules. Entendimento espiritual pede paz à alma.

Ninguém usufrui duas situações ao mesmo tempo. Seja na alegria ou na provação, o homem desfruta a existência vivendo hora após hora, minuto por minuto.

O tempo é imperturbavelmente dosado. Concessão igual a todos. Em nada auxilia a aflição pelo que virá: no cerne do sentimento não há duas crises simultâneas. Para coisa alguma serve chorar pelo que aconteceu: não podemos retomar a oportunidade perdida. O passado ensina e o futuro promete em função do presente.

Ninguém confunda precipitação com diligência. Precipitação é pressa irrefletida. Diligência é zelo prestimoso. Não vale acelerar imprudentemente a execução disso ou daquilo: toda realização digna é obtida a pouco e pouco.

Por outro lado, igualmente não será lícito amolentarmo-nos. Importa combater negligência com atividade, sobrepor coragem ao desalento.

A pior circunstância traz consigo instruções preciosas tanto quanto o fruto mais corrompido carrega sementes de subido valor. Cabe-nos descobri-las e utilizá-las.

O melhor não se efetua em marcha atordoada. A própria natureza nos oferece o que pensar. Planta alguma é favorecida com primavera de dupla duração. O golpe de vento que fustiga o capim é o mesmo que estorcega o jequitibá.

As grandes edificações são erguidas em serviço regular e uniforme, com intervalos de sono reparador que refaçam as forças na mente e pausas de lazer que restaurem as energias do coração.

Toda ideia benéfica roga meditação para engrandecer-se. Todo temperamento é suscetível de ser dominado dentro das regras que nos orientam a educação.

Reflitamos na justiça das horas. Tempo é valor divino na experiência humana. Cada consciência plasma com ele o próprio destino.

O tempo que o Cristo despendeu na elevação era perfeitamente igual ao tempo que Barrabás gastou na criminalidade. A única diferença entre eles é que Jesus empregou o tempo engrandecendo o bem, e Barrabás usou o tempo gerando o mal. Entre a luz de um e a sombra do outro, o proveito do tempo se gradua por escala infinita. Melhorar-nos ou agravar-nos dentro dela é escolha nossa."

Assim, tenhamos paciência com as conquistas que ainda não se efetivaram, principalmente aquelas de natureza espiritual: não é do dia para a noite que nos tornaremos humildes, tolerantes e infatigáveis na prática do bem. A Natureza não dá saltos e não é isso que a Espiritualidade Superior espera de nós.

Que tenhamos persistência, esperança, coragem.
Que a cada dia nos tornemos um pouco mais tolerantes, um pouco menos queixosos, um pouco mais gratos a Deus!
Que possamos na alvorada do Natal, Luz de Deus sobre toda a Humanidade, recarregarmos as energias para uma nova temporada de atividades e descobertas, estudos e realizações, no campo material e espiritual.
Que a luz do Cristo dissipe qualquer tristeza ou desânimo.
O dia, o ano, a vida... apenas começa!
Recomecemos, de ânimo renovado, na tarefa de nos melhorarmos, melhorando o mundo a nossa volta!

Feliz Natal!
Feliz 2015!


Bons estudos!
Carla e Hendrio

Referência bibliográfica:
[1] XAVIER, FRANCISCO CÂNDIDO e VIEIRA, WALDO."Opinião Espírita". Pelos Espíritos Emmanuel e André Luiz. 7.ed. Uberaba, MG: Comunhão Espírita Cristã. 1990, capítulo 57.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Êxito

Com as edificantes palavras da mensagem do Espírito Emmanuel, desejamos a todos que simplifiquemos o caminho.



“Se vós estiverdes em mim e as minhas palavras estiverem em vós, pedireis tudo o que quiserdes, e vos será feito.” — Jesus.
(JOÃO, 15:7)

Muitos companheiros perdem recurso, oportunidade, tempo e força na preocupação desmedida em torno do êxito.

Sonhando realizações mirabolantes, acabam frustrados na mania de grandeza.

Dizem-se interessados na lavoura do bem, mas, para cultivá-la, esperam a execução de negócios imaginários, a aquisição de poder, a posse de ouro fácil ou a chegada de prêmios fortuitos... E, complicando a própria estrada, observam-se, de chofre, em presença da morte, quando menos contavam com semelhante visita.

Entretanto, o conquistador do maior êxito de todos os tempos não se ausentou do mundo como quem triunfara...

Não recebeu heranças amoedadas, não governou princípios políticos, não escreveu livros, não se enfileirou entre os maiorais de sua época...

Aprisionado como vulgar malfeitor, foi sentenciado à morte e passou como sendo vítima de pavoroso fracasso.

Contudo, as sementes de amor puro que colocou na alma do povo transformaram o mundo.

Repara Jesus e perceberás que o nosso problema não é de ganhar para fazer, mas de fazer para ganhar.

A colheita não precede a sementeira, tanto quanto o teto não se antepõe à base.

Sirvamos ao bem, simplificando o caminho, de vez que a vitória real é a vitória de todos, convictos de que não precisamos gastar as possibilidades da existência em expectativa e tensão, porquanto, se estivermos em Cristo, tudo quanto de que necessitamos será feito em nosso favor, no momento oportuno.



Foto: Hendrio Belfort


Feliz 2014! Bons estudos,
Carla e Hendrio


XAVIER, Francisco Cândido. “Palavras de Vida Eterna”. Pelo Espírito Emmanuel. 8.ed. Uberaba, MG: Comunhão Espírita Cristã, 1986. Mensagem 64 — “Êxito”.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O aconchego do Senhor

 "Aquele que vem a mim, de maneira nenhuma lançarei fora."
Jesus (João, 6:37)

A postura de Jesus primava pelo bom senso, em cada atitude, em cada palavra, em cada recomendação marcada por extrema lucidez.

Por mais que a alma se decida por usar sua liberdade para o gozo das fantasias dissolventes, um dia chega em que o cansaço a dobra.

Por mais que a criatura se dedique ao armazenamento das coisas perecíveis, que será compelida a deixar, junto com o casulo carnal esgotado, vem o momento da reflexão que lhe permite a mudança.

Por mais que a pessoa se rebele contra a vida, crendo que a culpa dos seus fracassos e torturas interiores está nas leis de Deus, advém o instante no qual eclode a claridade do bom senso, que a dor propicia, e tudo começa a se refazer.

Em qualquer situação que esteja, guarde a certeza de que você pertence ao grande rebanho do Bom Pastor, mesmo quando se ache na posição de ovelha desgarrada ou travestido de lobo devorador, mais carente, inseguro e amedrontado do que propriamente lobo rapace.

Ao considerar isso, não dê mais ouvido ao orgulho insensato, tampouco à acomodação paralisante. Venha ao encontro Dele e deixe-se aconchegar nos Seus braços de ternura, sempre abertos para os que O buscam.

Não acredite em castigos do Céu para os equívocos humanos. Para o Pai que ama perfeitamente, você será sempre um plano de amor a desenvolver-se, passo a passo, em plena vida cósmica. Erros e acertos, quedas e levantares fazem parte desse importante movimento evolutivo, em que todos nos encontramos, até superarmos as conjunturas inferiores.

Jamais creia que você é uma indefesa vítima de demônios cruéis. Para quem procura o Senhor, disposto a transformar as próprias sombras em estuante luminosidade, cada insinuação perturbadora ou cada tentação no caminho representa importante desafio a sua capacidade de lutar e lutar para vencer.

Nunca se admita esquecido pela Divindade, assemelhando-se à criança que se afirma não amada pelos genitores cada vez que esses não lhe atendem a vontade infantil.

O formidável fato da sua presença no mundo, tendo ensejo de viver como pode ou como gosta, de trabalhar onde pode ou quer, de viver nos lugares e com as pessoas que prefere ou precisa, num perfeito encaixe de causas e efeitos, próximos ou distantes, é a demonstração palpável do amor divino a envolvê-lo e sustentá-lo continuadamente.

Perante todo situação da vida em que você esteja necessitando de um braço ou de um abraço que agasalhe o seu coração, busque Jesus. É certo que Ele poderá chegar ao seu caminho através de um familiar atencioso ou de um amigo compreensivo. No entanto, se essas almas não surgirem na sua trilha, não se entristeça, nem desanime. Abra a janela e sorva o hálito do dia ou os aromas da noite; recolha-se, por um momento, em oração; comungue com as vibrações felizes do além, registrando os murmúrios da paz.

Tão logo lhe seja possível, vai você mesmo ao encontro de algum coração, seja uma criança ou um idoso; seja um afeto sadio ou algum enfermo; um familiar ou algum vizinho. Enfim, procure alguém com a sua vibração de alegria e agradecimento a Deus, e porque você a ninguém despreza e a todos envolve com o melhor que tem, já se acha envolvido pelo Sublime Amigo, com possibilidades de superar seus próprios dramas.

Sim, quando saímos ao encontro dos irmãos da nossa via evolutiva, dispostos a amá-los e a servi-los, mais próximos ficamos de Jesus, usufruindo da Sua aura de harmonia.

Jesus Cristo, dessa forma, é aquele Amigo que sempre espera a nossa decisão de buscá-Lo, de ir até Ele, abrindo mão de tudo o que nos agrilhoa no mundo a fim de nos aconchegarmos em Seus braços. Ele nunca nos indagará por que demoramos tanto. Esse dia da busca é também o dia da maturidade nossa e da aceitação do Senhor.
Francisco de Paula Vítor

TEIXEIRA, José Raul. “Quem é o Cristo?”. Pelo Espírito Francisco de Paula Vítor. Niterói, RJ: Fráter, 1997, cap. 16.

Desejando a todos os nossos leitores um Feliz Natal!
Fraternalmente,
Carla e Hendrio

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Reflexões sobre Transfiguração


Segundo o dicionário [1], transfiguração vem do latim transfiguratione, e significa ato ou efeito de transfigurar(-se). Decompondo a palavra, temos o prefixo trans, que significa [2] além de, para além de, em troca de, através e o radical figuração, também do latim, figuratio, significando configuração, forma, figura. Assim, o termo “transfiguração” traduziria a ideia de uma forma que vai além, que vai através, que vai em troca de.

O dicionário ainda [1] nos esclarece que o termo transfiguração é “uma mudança radical na aparência, no caráter, na forma; transformação, metamorfose. Transformação espiritual que exalta ou glorifica. Estado glorioso em que apareceu Cristo aos apóstolos sobre o monte Tabor”.

A transfiguração, portanto, traduz tanto uma transformação física (mudança na aparência, na forma) como uma mudança mais sutil, no caráter, na parte espiritual, e neste caso, uma transformação para o bem, que exalta ou glorifica. Destaca-se ainda nesta definição a passagem evangélica da Transfiguração de Jesus, que veremos oportunamente neste texto.

Em O Livro dos Médiuns [3], no item 122, Allan Kardec nos define transfiguração como fenômeno que “consiste na mudança do aspecto de um corpo vivo”.

Pela definição de Kardec, a transfiguração é uma mudança de aspecto que pode ser bem pequena, quase imperceptível ou ainda muito grande, como a de Jesus, registrada pelos evangelistas.

Definido o termo, observa-se que a transfiguração pode ter efeitos diferentes e, portanto, causas diversas. Neste estudo, sugerimos uma classificação do fenômeno da transfiguração, baseada no critério da causa.

Sobre as causas da transfiguração
Os sistemas de classificação surgiram para organizar o conhecimento e são baseados em determinado critério, que, dentro do nosso nível de conhecimento, não pode ser considerado como absoluto.

Neste estudo sobre transfiguração utilizamos como critério classificatório a causa, ou seja, o que está promovendo a mudança do aspecto de um corpo vivo, relembrando a definição de Kardec.

Encontramos assim três causas, que descrevemos a seguir.

Primeira causa: corpo físico
A primeira causa foi descrita por Kardec, no item 123 de O Livro dos Médiuns [3], como sendo “simples contração muscular, capaz de dar à fisionomia expressão muito diferente da habitual, ao ponto de tornar quase irreconhecível a pessoa”.

Esse tipo de transfiguração baseado apenas em mudanças musculares no corpo físico é a mais conhecida. Ao observarmos uma pessoa muito feliz, costumamos utilizar a palavra “radiante”. Todo o semblante da pessoa se modifica... É possível constarmos essa mudança registrada em fotos de momentos muito felizes de nossa vida. Há que se considerar também que nem sempre nossas emoções são tão sublimes; quando ficamos enfurecidos há também mudança de fisionomia a ponto de nos tornarmos irreconhecíveis. Naturalmente, esse tipo de mudança de aspecto para uma aparência negativa, que assusta, devemos evitar.

Segunda causa: perispírito
A segunda causa para a transfiguração foi apresentada pelo Codificador em O Livro dos Médiuns [3], ainda no item 123, e também em A Gênese [4]: trata-se da teoria do perispírito ou a irradiação fluídica do perispírito.

O que é perispírito?
Encontramos o termo “perispírito”, palavra criada por Allan Kardec, em muitas obras da Codificação, aparecendo pela primeira vez em O Livro dos Espíritos [5]. Nesta obra, os Espíritos Superiores informam que o perispírito é “uma substância, vaporosa para os teus olhos, mas ainda bastante grosseira para nós (...). Tem a forma que o Espírito queira.” Allan Kardec, comentando esta resposta, nos diz que o perispírito “serve de envoltório ao Espírito propriamente dito”; e que, do mesmo modo que, envolvendo o gérmen de um fruto, há o perisperma, por comparação, envolvendo o Espírito, há o perispírito.

Nós, como encarnados, ou seja, com um corpo físico, somos compostos por três partes – a primeira, nós mesmos (Espírito); a segunda, um corpo menos material que o corpo físico, mas ainda bastante grosseiro (perispírito), e a terceira, o corpo físico. Quando desencarnamos, deixamos o corpo físico e prosseguimos nossa jornada evolutiva sempre sendo Espírito, envolvido por um corpo chamado perispírito.

O perispírito: suas propriedades e modificações
Em O Livro dos Médiuns [6], no seu capítulo VI, que trata das manifestações visuais, no item 100, Allan Kardec propõem, entre outras questões, a de número 21ª - Como pode o Espírito fazer-se visível?
“O princípio é o mesmo de todas as manifestações, reside nas propriedades do perispírito, que pode sofrer diversas modificações, ao sabor do Espírito.”
Na obra A Gênese [7], Kardec nos esclarece que o perispírito é o corpo fluídico dos Espíritos e que a sua natureza está sempre de acordo com o grau de adiantamento moral do Espírito. Este envoltório perispirítico se modifica com o progresso moral que o Espírito realiza em cada encarnação. Assim, esse corpo fluídico vai se modificando de acordo com a elevação moral do Espírito: quanto mais evoluído, mais sutil, menos denso é esse perispírito.

Além da modificação do perispírito de acordo com o seu nível evolutivo, há alterações que podem ocorrer por influência do Espírito, dentro de um mesmo nível evolutivo. Tal o princípio das manifestações físicas, conforme nos esclareceram os Espíritos em O Livro dos Médiuns [6].

O perispírito de encarnados e desencarnados
Em Obras Póstumas [8], que é composto por estudos que Allan Kardec estava fazendo enquanto encarnado e que foram reunidos e publicados após a sua desencarnação, em sua Primeira Parte, abordando o tema Manifestações dos Espíritos, no parágrafo 3º, item 22 – Transfiguração, o Codificador nos diz que:
“O perispírito das pessoas vivas goza das mesmas propriedades que o dos Espíritos. Como já foi dito, o daquelas não se acha confinado no corpo: irradia e forma em torno deste uma espécie de atmosfera fluídica.”
Entendemos que, estando desencarnado, o que envolve o Espírito é o perispírito, que tem diversas propriedades e pode sofrer modificações... Segundo nos esclarece Kardec nesta passagem, o perispírito dos encarnados irradia além do corpo físico e forma em torno deste corpo físico uma espécie de atmosfera fluídica. Allan Kardec, neste mesmo estudo em Obras Póstumas, havia exposto que o perispírito não se acha encerrado nos limites do corpo como numa caixa. Pela sua natureza fluídica, ele é expansível, irradia para o exterior e forma, em torno do corpo, uma espécie de atmosfera, que o pensamento e a força de vontade podem dilatar mais ou menos.

Após esse breve resumo sobreo o perispírito, voltemos a analisar a segunda causa do fenômeno de transfiguração, a teoria do perispírito ou a irradiação fluídica do perispírito. Em O Livro dos Médiuns [3], Capítulo VII, item 123, o Codificador esclarece:
“Está admitido que o Espírito pode dar ao seu perispírito todas as aparências; que, mediante uma modificação na disposição molecular, pode dar-lhe a visibilidade, a tangibilidade e, conseguintemente, a opacidade.”
Da mesma maneira que nós, num laboratório, podemos manipular as substâncias e dar-lhes propriedades diferentes das que tinham antes, o Espírito pode modificar o perispírito, dando-lhe visibilidade, ou seja, tornando-se visível, de acordo com as modificações que o Espírito faça no seu perispírito. Pode também tornar-se tangível, isto é, passível de ser tocado, e pode tornar-se opaco, não deixando que possamos ver através dele.

Ainda no mesmo texto, Kardec nos diz:
“Figuremos agora o perispírito de uma pessoa viva (...) irradiando-se em volta do corpo, de maneira a envolvê-lo uma espécie de vapor. (...) Perdendo ele a sua transparência, o corpo pode desaparecer, tornar-se invisível, ficar velado (...)”       
Quando Kardec refere-se a “uma pessoa viva”, entendemos “um encarnado”. O perispírito do encarnado começa a se irradiar, porque ele não está confinado no corpo físico. Essa irradiação forma, por comparação, uma “nuvem de vapor”, e não conseguimos mais ver o corpo físico, que desaparece no meio daquela “nuvem”.

Continua o Codificador, ainda na mesma referência já citada:
“Poderá então o perispírito mudar de aspecto, fazer-se brilhante, se tal for a vontade do Espírito e se este dispuser de poder para tanto.”
Assim, o fenômeno de transfiguração que tem por causa a irradiação fluídica do perispírito ou a teoria do perispírito se processa da seguinte forma: o perispírito de alguém encarnado se expande, se irradia, cobre o seu corpo físico de modo a deixá-lo invisível e, dependendo da vontade do Espírito e do seu grau evolutivo, o Espírito (mesmo estando encarnado) pode torná-lo brilhante, pois, quanto mais evoluído o Espírito, tanto maior o seu poder para operar modificações no perispírito.

Ainda sobre a teoria do perispírito ou irradiação fluídica do perispírito, Kardec explica, em A Gênese [4], capítulo XIV, que trata dos fluidos, item 39:
“Pode a imagem real do corpo apagar-se mais ou menos completamente sob a camada fluídica, e assumir outra aparência; ou então, vistos através da camada fluídica modificada, os traços primitivos podem tomar outra expressão.”
O corpo físico é envolvido por uma camada fluídica – e utilizamos aqui a comparação com a camada de vapor, e pode assumir outra aparência ou os traços primitivos podem assumir outra expressão, quando olhamos através daquela camada fluídica.

A palavra transfiguração no sentido de “uma forma que vai através”, “que vai em troca de” fica mais compreensível quando entendemos o fenômeno da expansão do perispírito e sua mudança de propriedades.

Ainda em A Gênese [4], Kardec conclui que:
“Se, saindo do terra-a-terra, o Espírito encarnado se identifica com as coisas do mundo espiritual, pode a expressão de um semblante feio tornar-se bela, radiosa e até luminosa; se, ao contrário, o Espírito é presa de paixões más, um semblante belo pode tomar um aspecto horrendo.”
Jesus, na transfiguração descrita nos Evangelhos, e não poderíamos supor de outra maneira, dada a sua evolução, estava nessa condição de Espírito que se identifica com as coisas do mundo espiritual – daí a luminosidade, a transfiguração luminosa!

Do mesmo modo, de acordo com a nossa vontade, se estamos presos a paixões más, tomamos um aspecto horrendo. Neste caso, não mais apenas por uma contração muscular, não apenas um fenômeno do corpo físico, mas temos a participação do perispírito se irradiando e promovendo, de acordo com a vontade do Espírito, o aspecto determinado.

Terceira causa: perispírito, com atuação de outro Espírito
Em o Livro dos Médiuns [3], no Capítulo VII, que fala da Bicorporeidade e da Transfiguração, no item 122 Kardec narra um fato, ocorrido em Saint-Etienne, de 1858 a 1859. Diz ele:
“Uma mocinha, de mais ou menos 15 anos, gozava da singular faculdade de se transfigurar, isto é, de tomar, em dados momentos, todas as aparências de certas pessoas mortas. Tão completa era a ilusão, que os que assistiam ao fenômeno julgavam ter diante de si a própria pessoa, cuja aparência ela tomava, tal a semelhança dos traços fisionômicos, do olhar, do som da voz e, até da maneira particular de falar.”
Aqui observamos um fenômeno um pouco diferente do descrito anteriormente. A mocinha não apenas mudava de aspecto físico, mas tomava tanto o aspecto quanto outras características, como o som da voz e a maneira particular de falar de outras pessoas, que já tinham desencarnado (mortas), conforme o texto.

Kardec continua, na mesma referência já citada [3]:
“Tomou, em várias ocasiões, a aparência de seu irmão, que morrera alguns anos antes. Reproduzia-lhe não somente o semblante, mas também o porte e a corpulência. Um médico do lugar, testemunha que fora, muitas vezes, desses estranhos efeitos, pesou a moça no estado normal e no de transfiguração. (...) Verificou-se que no segundo estado o peso era quase o duplo do seu peso normal.”
Observando a narrativa vemos que ela tomava a aparência do irmão, que tinha desencarnado alguns anos antes – ora, se era alguns anos antes, e ela tinha 15 anos, podemos supor que os dois viveram juntos quando encarnados, eram contemporâneos, não sendo possível que a moça tivesse sido aquele seu irmão em uma encarnação passada. Logo, não era um fenômeno apenas do encarnado, mas havia a interferência de um desencarnado, no caso, seu irmão.

A atitude do médico do lugar, que também assistia ao fenômeno, foi fundamental para nos auxiliar a entendê-lo melhor. Ele teve a ideia de pesar a moça em seu estado normal e pesá-la quando estava transfigurada no irmão e os pesos foram diferentes, de quase o dobro um do outro.

Como se explica isso?

Pela terceira causa do fenômeno da transfiguração que é a teoria do perispírito ou da irradiação fluídica do perispírito com combinação de fluidos de Espíritos diferentes.

Em o Livro dos Médiuns [3], mesmo capítulo, item 123, Kardec nos explica:
“Um outro Espírito, combinando os seus fluidos com os do primeiro, poderá, a essa combinação de perispíritos, imprimir a aparência que lhe é própria, de tal sorte que o corpo real desapareça sob um envoltório fluídico exterior, cuja aparência pode variar à vontade do Espírito.”
Lembremo-nos da teoria do perispírito ou irradiação fluídica do perispírito: o perispírito do encarnado se expande, envolve todo o seu corpo físico e, de acordo com a vontade da pessoa, pode tomar aparência diversa da que tinha antes, pode até tornar-se luminoso. Neste caso, ao expandir seu perispírito, este entra em combinação com o perispírito de um desencarnado (no caso em análise, o perispírito da moça entra em combinação com o perispírito do seu irmão), e o desencarnado passa a assumir o comando da atividade, imprimindo àquela combinação de perispíritos a sua aparência, de acordo com a sua vontade. Daí poder se pesar a moça transfigurada e medir-se o peso do irmão, porque havia combinação de fluidos.

Resumindo, segundo a classificação que se baseia no critério causa do fenômeno de transfiguração, temos três causas diferentes: a simples contração muscular, a irradiação fluídica do perispírito e a irradiação fluídica do perispírito com combinação de fluidos de Espíritos diferentes.

Sobre os tipos de transfiguração
Vale ressaltar que temos tipos, efeitos de transfiguração diferentes – seria um outro tipo de classificação, conforme Kardec nos esclarece na já citada Obras Póstumas [8], no item 22:
“O fenômeno da transfiguração pode operar-se com intensidades muito diferentes, conforme o grau de depuração do perispírito, grau que sempre corresponde ao da elevação moral do Espírito. Cinge-se às vezes a uma simples mudança no aspecto geral da fisionomia, enquanto que doutras vezes dá ao perispírito uma aparência luminosa e esplêndida.”
E é ainda em Obras Póstumas [8] que Kardec vem nos auxiliar na imensidade de questões que surgem quando começamos estudar mais a fundo os fenômenos de transfiguração, quando diz, agora no item 23:
“Estes fenômenos talvez pareçam singulares, mas somente por não se conhecerem ainda as propriedades do fluido perispirítico. Este é, para nós, um novo corpo, que há de possuir propriedades novas e que não se podem estudar senão pelos processos ordinários da Ciência, mas que não deixam, por isso, de ser propriedades naturais, só tendo de maravilhosa a novidade.”
Aí está um novo campo de estudos, o perispírito, que, como disse Kardec, exige os processos ordinários da Ciência – ou seja, da mesma forma que ninguém aprende biologia, ou mecânica quântica apenas por assistir a uma palestra ou ler um livro, é necessário um pouco mais de dedicação, de estudo, de pesquisa, para se aprofundar no conhecimento das propriedades do fluido perispirítico.

Parece maravilhoso, e é algo mesmo de se deslumbrar um fenômeno deste tipo, mas não é sobrenatural, pois está perfeitamente dentro das leis da natureza, que nós ainda não conhecemos em plenitude.

A Transfiguração de Jesus
A Transfiguração mais importante, mais famosa que conhecemos é a narrada pelos Evangelhos, a Transfiguração de Jesus. Este fenômeno é descrito tanto por Marcos, no capítulo 9, versículos 2 a 9, por Lucas, também no capítulo 9, versículos 28 a 36 e por Mateus, que foi a narrativa que escolhemos, no capítulo 17, versículos 1 a 9. Segundo o texto de Mateus, alguns dias antes Jesus começou a preparar os discípulos para os acontecimentos de Jerusalém, e convidou Pedro, Tiago e João a subir a um alto monte e, segundo a narrativa de Mateus:
“E transfigurou-se diante deles; e o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes se tornaram brancas como a luz.” (Mateus 17:2)
Pintura: The Transfiguration. Autor: Carl Heinrich Bloch. Ref.: http://www.carlbloch.org/

Jesus, o ser mais evoluído que já veio à Terra, podia, por sua vontade, atuar no seu perispírito livremente. Neste momento narrado nos Evangelhos, Jesus expandiu seu perispírito, que se mostrou brilhante, tal qual deve ser o natural de todos os Espíritos evoluídos.

Encontramos este comentário em A Gênese [9], capítulo XV – os milagres do Evangelho, item 44:
“(...) De todas faculdades que Jesus revelou, nenhuma se pode apontar estranha às condições da humanidade e que se não encontre comumente nos homens, porque estão todas na ordem da Natureza. Pela superioridade, porém, da sua essência moral e de suas qualidades fluídicas, aquelas faculdades atingiam nele proporções muito acima das que são vulgares.”
Assim, tudo o que Jesus fez, podemos fazer (João 14:12), desde que nos melhoremos, nos aperfeiçoemos, pois tudo o que ele fez, não destruindo a lei, está na lei, está na Natureza.

Outros exemplos de transfiguração
Encontramos ainda outros exemplos de transfiguração na Bíblia.
“E aconteceu que, descendo Moisés do monte Sinai trazia as duas tábuas do testemunho em suas mãos, sim, quando desceu do monte, Moisés não sabia que a pele do seu rosto resplandecia, depois que falara com Ele.” (Êxodo 34:29)
“Assim, pois, viam os filhos de Israel o rosto de Moisés, e que resplandecia a pele do seu rosto; e tornava Moisés a pôr o véu sobre o seu rosto, até entrar para falar com Ele.” (Êxodo 34:35)
Temos aqui um exemplo de transfiguração luminosa e duradoura, pois a luminosidade de Moisés era tão aparente a ponto de ele ter de andar com um véu sobre o rosto. Pela narrativa, após o contato com a Espiritualidade superior, recebendo os dez mandamentos, Moisés estava nessa condição que vimos anteriormente neste estudo, de sair do terra-a-terra e se identificar com as coisas do mundo espiritual.

Transfiguração no plano espiritual
A transfiguração também ocorre no plano espiritual, já que é um fenômeno relacionado ao perispírito e Espírito desencarnado também tem perispírito. Alguns exemplos narrados pelo Espírito André Luiz, pela mediunidade de Francisco Cândido Xavier:

Transfiguração de Alexandre [10]
“Nesse instante, Alexandre silenciou, mantendo-se, então, em muda rogativa. Admirado, comovido, notei que o generoso instrutor se transfigurava, ali, aos nossos olhos. Pela primeira vez, depois de meu retorno ao novo plano, observava acontecimento tão singular. Suas vestes tornaram-se de neve radiosa, sua fronte emitia intensa luz e de suas mãos estendidas evolavam-se raios brilhantes que, caindo sobre nós, pareciam infundir-nos estranho encantamento. Profunda emoção dominou-me o íntimo e quase todos nós, sem definir a causa daquelas divinas vibrações, chorávamos de alegria, contendo o peito opresso de júbilo inesperado.”

Transfiguração de Ismália e outros trabalhadores [11]
“Observando-a, por um momento, reparei que a esposa de Alfredo se transfigurara. Luzes diamantinas irradiavam de todo o seu corpo, em particular do tórax, cujo âmago parecia conter misteriosa lâmpada acesa.”
“Em vista da ligeira pausa que imprimira a oração, observei a nós outros, verificando que o mesmo fenômeno se dava conosco, embora menos intensamente. Cada qual parecia, ali, apresentar uma expressão luminosa, gradativa.”
“As senhoras que acompanhavam Ismália estavam quase semelhantes a ela, como se trajassem soberbos costumes (trajes) radiosos, em que predominava a cor azul. Depois delas, em brilho, vinha a luz de Aniceto, de um lilás surpreendente. (...), Vicente e eu, mostrávamos fraca luminosidade, a qual, porém, nos enchia de brilho intenso, considerando que a maioria dos cooperadores em serviço apresentava o corpo obscuro, como acontece na esfera carnal.”

Transfiguração em nós
Por fim, além de todo o conhecimento que vamos adquirindo a respeito do perispírito, o fenômeno da transfiguração de Jesus traz algum outro ensinamento para nós? Este questionamento foi feito para o benfeitor Emmanuel, nos seguintes termos [12]:
“310 – A transfiguração do Senhor é também um símbolo para a Humanidade?
Todas as expressões do Evangelho possuem uma significação divina e, no Tabor, contemplamos a grande lição de que o homem deve viver a sua existência, no mundo, sabendo que pertence ao Céu, por sua sagrada origem, sendo indispensável, desse modo, que se desmaterialize, a todos os instantes, para que se desenvolva em amor e sabedoria, na sagrada exteriorização da virtude celeste, cujos germes lhe dormitam no coração.”

Almejamos que este estudo sobre a transfiguração nos estimule cada vez mais ao desenvolvimento de nós mesmos, ao nosso aperfeiçoamento, pela prática do bem e do amor, conforme sempre nos ensina Nosso Mestre Jesus.

Bons estudos!
Carla e Hendrio


Referências bibliográficas:
[1] HOLANDA FERREIRA, Aurélio Buarque. “Novo Aurélio Século XXI”. Verbete Transfiguração.
[2] Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [online], 2008-2013, Verbete Trans- Disponíevl em: http://www.priberam.pt/dlpo/trans- .Consultado em 26-09-2013.
[3] KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 2ª Parte, Cap. VII, Da bicorporeidade e da transfiguração. Itens 122, 123.
[4] KARDEC, Allan. A Gênese. Parte – Os Milagres. Cap. XIV – Os fluidos. Item 39.
[5] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questões 93 a 95.
[6] KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 2ª Parte, Cap. VII, Da bicorporeidade e da transfiguração. Itens 100.
[7] KARDEC, Allan. A Gênese. Parte – Os Milagres. Cap. XIV – Os fluidos. Itens 7 a 12.
[8] KARDEC, Allan. Obras Póstumas. 1ª Parte, Manifestações dos Espíritos. §3º Transfiguração, itens 22 e 23.
[9] KARDEC, Allan. A Gênese. Parte – Os Milagres. Cap. XV – Os milagres do Evangelho. Itens 43-44.
[10] XAVIER, F. C. “Missionários da Luz” Pelo Espírito André Luiz. 25ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1994, capítulo 9.
[11] XAVIER, F. C. “Os Mensageiros” Pelo Espírito André Luiz. 15ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1983, capítulo 24.
[12] XAVIER, F. C. “O Consolador”. Pelo Espírito Emmanuel. 18ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1997, Questão 310.