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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Reflexões sobre Transfiguração


Segundo o dicionário [1], transfiguração vem do latim transfiguratione, e significa ato ou efeito de transfigurar(-se). Decompondo a palavra, temos o prefixo trans, que significa [2] além de, para além de, em troca de, através e o radical figuração, também do latim, figuratio, significando configuração, forma, figura. Assim, o termo “transfiguração” traduziria a ideia de uma forma que vai além, que vai através, que vai em troca de.

O dicionário ainda [1] nos esclarece que o termo transfiguração é “uma mudança radical na aparência, no caráter, na forma; transformação, metamorfose. Transformação espiritual que exalta ou glorifica. Estado glorioso em que apareceu Cristo aos apóstolos sobre o monte Tabor”.

A transfiguração, portanto, traduz tanto uma transformação física (mudança na aparência, na forma) como uma mudança mais sutil, no caráter, na parte espiritual, e neste caso, uma transformação para o bem, que exalta ou glorifica. Destaca-se ainda nesta definição a passagem evangélica da Transfiguração de Jesus, que veremos oportunamente neste texto.

Em O Livro dos Médiuns [3], no item 122, Allan Kardec nos define transfiguração como fenômeno que “consiste na mudança do aspecto de um corpo vivo”.

Pela definição de Kardec, a transfiguração é uma mudança de aspecto que pode ser bem pequena, quase imperceptível ou ainda muito grande, como a de Jesus, registrada pelos evangelistas.

Definido o termo, observa-se que a transfiguração pode ter efeitos diferentes e, portanto, causas diversas. Neste estudo, sugerimos uma classificação do fenômeno da transfiguração, baseada no critério da causa.

Sobre as causas da transfiguração
Os sistemas de classificação surgiram para organizar o conhecimento e são baseados em determinado critério, que, dentro do nosso nível de conhecimento, não pode ser considerado como absoluto.

Neste estudo sobre transfiguração utilizamos como critério classificatório a causa, ou seja, o que está promovendo a mudança do aspecto de um corpo vivo, relembrando a definição de Kardec.

Encontramos assim três causas, que descrevemos a seguir.

Primeira causa: corpo físico
A primeira causa foi descrita por Kardec, no item 123 de O Livro dos Médiuns [3], como sendo “simples contração muscular, capaz de dar à fisionomia expressão muito diferente da habitual, ao ponto de tornar quase irreconhecível a pessoa”.

Esse tipo de transfiguração baseado apenas em mudanças musculares no corpo físico é a mais conhecida. Ao observarmos uma pessoa muito feliz, costumamos utilizar a palavra “radiante”. Todo o semblante da pessoa se modifica... É possível constarmos essa mudança registrada em fotos de momentos muito felizes de nossa vida. Há que se considerar também que nem sempre nossas emoções são tão sublimes; quando ficamos enfurecidos há também mudança de fisionomia a ponto de nos tornarmos irreconhecíveis. Naturalmente, esse tipo de mudança de aspecto para uma aparência negativa, que assusta, devemos evitar.

Segunda causa: perispírito
A segunda causa para a transfiguração foi apresentada pelo Codificador em O Livro dos Médiuns [3], ainda no item 123, e também em A Gênese [4]: trata-se da teoria do perispírito ou a irradiação fluídica do perispírito.

O que é perispírito?
Encontramos o termo “perispírito”, palavra criada por Allan Kardec, em muitas obras da Codificação, aparecendo pela primeira vez em O Livro dos Espíritos [5]. Nesta obra, os Espíritos Superiores informam que o perispírito é “uma substância, vaporosa para os teus olhos, mas ainda bastante grosseira para nós (...). Tem a forma que o Espírito queira.” Allan Kardec, comentando esta resposta, nos diz que o perispírito “serve de envoltório ao Espírito propriamente dito”; e que, do mesmo modo que, envolvendo o gérmen de um fruto, há o perisperma, por comparação, envolvendo o Espírito, há o perispírito.

Nós, como encarnados, ou seja, com um corpo físico, somos compostos por três partes – a primeira, nós mesmos (Espírito); a segunda, um corpo menos material que o corpo físico, mas ainda bastante grosseiro (perispírito), e a terceira, o corpo físico. Quando desencarnamos, deixamos o corpo físico e prosseguimos nossa jornada evolutiva sempre sendo Espírito, envolvido por um corpo chamado perispírito.

O perispírito: suas propriedades e modificações
Em O Livro dos Médiuns [6], no seu capítulo VI, que trata das manifestações visuais, no item 100, Allan Kardec propõem, entre outras questões, a de número 21ª - Como pode o Espírito fazer-se visível?
“O princípio é o mesmo de todas as manifestações, reside nas propriedades do perispírito, que pode sofrer diversas modificações, ao sabor do Espírito.”
Na obra A Gênese [7], Kardec nos esclarece que o perispírito é o corpo fluídico dos Espíritos e que a sua natureza está sempre de acordo com o grau de adiantamento moral do Espírito. Este envoltório perispirítico se modifica com o progresso moral que o Espírito realiza em cada encarnação. Assim, esse corpo fluídico vai se modificando de acordo com a elevação moral do Espírito: quanto mais evoluído, mais sutil, menos denso é esse perispírito.

Além da modificação do perispírito de acordo com o seu nível evolutivo, há alterações que podem ocorrer por influência do Espírito, dentro de um mesmo nível evolutivo. Tal o princípio das manifestações físicas, conforme nos esclareceram os Espíritos em O Livro dos Médiuns [6].

O perispírito de encarnados e desencarnados
Em Obras Póstumas [8], que é composto por estudos que Allan Kardec estava fazendo enquanto encarnado e que foram reunidos e publicados após a sua desencarnação, em sua Primeira Parte, abordando o tema Manifestações dos Espíritos, no parágrafo 3º, item 22 – Transfiguração, o Codificador nos diz que:
“O perispírito das pessoas vivas goza das mesmas propriedades que o dos Espíritos. Como já foi dito, o daquelas não se acha confinado no corpo: irradia e forma em torno deste uma espécie de atmosfera fluídica.”
Entendemos que, estando desencarnado, o que envolve o Espírito é o perispírito, que tem diversas propriedades e pode sofrer modificações... Segundo nos esclarece Kardec nesta passagem, o perispírito dos encarnados irradia além do corpo físico e forma em torno deste corpo físico uma espécie de atmosfera fluídica. Allan Kardec, neste mesmo estudo em Obras Póstumas, havia exposto que o perispírito não se acha encerrado nos limites do corpo como numa caixa. Pela sua natureza fluídica, ele é expansível, irradia para o exterior e forma, em torno do corpo, uma espécie de atmosfera, que o pensamento e a força de vontade podem dilatar mais ou menos.

Após esse breve resumo sobreo o perispírito, voltemos a analisar a segunda causa do fenômeno de transfiguração, a teoria do perispírito ou a irradiação fluídica do perispírito. Em O Livro dos Médiuns [3], Capítulo VII, item 123, o Codificador esclarece:
“Está admitido que o Espírito pode dar ao seu perispírito todas as aparências; que, mediante uma modificação na disposição molecular, pode dar-lhe a visibilidade, a tangibilidade e, conseguintemente, a opacidade.”
Da mesma maneira que nós, num laboratório, podemos manipular as substâncias e dar-lhes propriedades diferentes das que tinham antes, o Espírito pode modificar o perispírito, dando-lhe visibilidade, ou seja, tornando-se visível, de acordo com as modificações que o Espírito faça no seu perispírito. Pode também tornar-se tangível, isto é, passível de ser tocado, e pode tornar-se opaco, não deixando que possamos ver através dele.

Ainda no mesmo texto, Kardec nos diz:
“Figuremos agora o perispírito de uma pessoa viva (...) irradiando-se em volta do corpo, de maneira a envolvê-lo uma espécie de vapor. (...) Perdendo ele a sua transparência, o corpo pode desaparecer, tornar-se invisível, ficar velado (...)”       
Quando Kardec refere-se a “uma pessoa viva”, entendemos “um encarnado”. O perispírito do encarnado começa a se irradiar, porque ele não está confinado no corpo físico. Essa irradiação forma, por comparação, uma “nuvem de vapor”, e não conseguimos mais ver o corpo físico, que desaparece no meio daquela “nuvem”.

Continua o Codificador, ainda na mesma referência já citada:
“Poderá então o perispírito mudar de aspecto, fazer-se brilhante, se tal for a vontade do Espírito e se este dispuser de poder para tanto.”
Assim, o fenômeno de transfiguração que tem por causa a irradiação fluídica do perispírito ou a teoria do perispírito se processa da seguinte forma: o perispírito de alguém encarnado se expande, se irradia, cobre o seu corpo físico de modo a deixá-lo invisível e, dependendo da vontade do Espírito e do seu grau evolutivo, o Espírito (mesmo estando encarnado) pode torná-lo brilhante, pois, quanto mais evoluído o Espírito, tanto maior o seu poder para operar modificações no perispírito.

Ainda sobre a teoria do perispírito ou irradiação fluídica do perispírito, Kardec explica, em A Gênese [4], capítulo XIV, que trata dos fluidos, item 39:
“Pode a imagem real do corpo apagar-se mais ou menos completamente sob a camada fluídica, e assumir outra aparência; ou então, vistos através da camada fluídica modificada, os traços primitivos podem tomar outra expressão.”
O corpo físico é envolvido por uma camada fluídica – e utilizamos aqui a comparação com a camada de vapor, e pode assumir outra aparência ou os traços primitivos podem assumir outra expressão, quando olhamos através daquela camada fluídica.

A palavra transfiguração no sentido de “uma forma que vai através”, “que vai em troca de” fica mais compreensível quando entendemos o fenômeno da expansão do perispírito e sua mudança de propriedades.

Ainda em A Gênese [4], Kardec conclui que:
“Se, saindo do terra-a-terra, o Espírito encarnado se identifica com as coisas do mundo espiritual, pode a expressão de um semblante feio tornar-se bela, radiosa e até luminosa; se, ao contrário, o Espírito é presa de paixões más, um semblante belo pode tomar um aspecto horrendo.”
Jesus, na transfiguração descrita nos Evangelhos, e não poderíamos supor de outra maneira, dada a sua evolução, estava nessa condição de Espírito que se identifica com as coisas do mundo espiritual – daí a luminosidade, a transfiguração luminosa!

Do mesmo modo, de acordo com a nossa vontade, se estamos presos a paixões más, tomamos um aspecto horrendo. Neste caso, não mais apenas por uma contração muscular, não apenas um fenômeno do corpo físico, mas temos a participação do perispírito se irradiando e promovendo, de acordo com a vontade do Espírito, o aspecto determinado.

Terceira causa: perispírito, com atuação de outro Espírito
Em o Livro dos Médiuns [3], no Capítulo VII, que fala da Bicorporeidade e da Transfiguração, no item 122 Kardec narra um fato, ocorrido em Saint-Etienne, de 1858 a 1859. Diz ele:
“Uma mocinha, de mais ou menos 15 anos, gozava da singular faculdade de se transfigurar, isto é, de tomar, em dados momentos, todas as aparências de certas pessoas mortas. Tão completa era a ilusão, que os que assistiam ao fenômeno julgavam ter diante de si a própria pessoa, cuja aparência ela tomava, tal a semelhança dos traços fisionômicos, do olhar, do som da voz e, até da maneira particular de falar.”
Aqui observamos um fenômeno um pouco diferente do descrito anteriormente. A mocinha não apenas mudava de aspecto físico, mas tomava tanto o aspecto quanto outras características, como o som da voz e a maneira particular de falar de outras pessoas, que já tinham desencarnado (mortas), conforme o texto.

Kardec continua, na mesma referência já citada [3]:
“Tomou, em várias ocasiões, a aparência de seu irmão, que morrera alguns anos antes. Reproduzia-lhe não somente o semblante, mas também o porte e a corpulência. Um médico do lugar, testemunha que fora, muitas vezes, desses estranhos efeitos, pesou a moça no estado normal e no de transfiguração. (...) Verificou-se que no segundo estado o peso era quase o duplo do seu peso normal.”
Observando a narrativa vemos que ela tomava a aparência do irmão, que tinha desencarnado alguns anos antes – ora, se era alguns anos antes, e ela tinha 15 anos, podemos supor que os dois viveram juntos quando encarnados, eram contemporâneos, não sendo possível que a moça tivesse sido aquele seu irmão em uma encarnação passada. Logo, não era um fenômeno apenas do encarnado, mas havia a interferência de um desencarnado, no caso, seu irmão.

A atitude do médico do lugar, que também assistia ao fenômeno, foi fundamental para nos auxiliar a entendê-lo melhor. Ele teve a ideia de pesar a moça em seu estado normal e pesá-la quando estava transfigurada no irmão e os pesos foram diferentes, de quase o dobro um do outro.

Como se explica isso?

Pela terceira causa do fenômeno da transfiguração que é a teoria do perispírito ou da irradiação fluídica do perispírito com combinação de fluidos de Espíritos diferentes.

Em o Livro dos Médiuns [3], mesmo capítulo, item 123, Kardec nos explica:
“Um outro Espírito, combinando os seus fluidos com os do primeiro, poderá, a essa combinação de perispíritos, imprimir a aparência que lhe é própria, de tal sorte que o corpo real desapareça sob um envoltório fluídico exterior, cuja aparência pode variar à vontade do Espírito.”
Lembremo-nos da teoria do perispírito ou irradiação fluídica do perispírito: o perispírito do encarnado se expande, envolve todo o seu corpo físico e, de acordo com a vontade da pessoa, pode tomar aparência diversa da que tinha antes, pode até tornar-se luminoso. Neste caso, ao expandir seu perispírito, este entra em combinação com o perispírito de um desencarnado (no caso em análise, o perispírito da moça entra em combinação com o perispírito do seu irmão), e o desencarnado passa a assumir o comando da atividade, imprimindo àquela combinação de perispíritos a sua aparência, de acordo com a sua vontade. Daí poder se pesar a moça transfigurada e medir-se o peso do irmão, porque havia combinação de fluidos.

Resumindo, segundo a classificação que se baseia no critério causa do fenômeno de transfiguração, temos três causas diferentes: a simples contração muscular, a irradiação fluídica do perispírito e a irradiação fluídica do perispírito com combinação de fluidos de Espíritos diferentes.

Sobre os tipos de transfiguração
Vale ressaltar que temos tipos, efeitos de transfiguração diferentes – seria um outro tipo de classificação, conforme Kardec nos esclarece na já citada Obras Póstumas [8], no item 22:
“O fenômeno da transfiguração pode operar-se com intensidades muito diferentes, conforme o grau de depuração do perispírito, grau que sempre corresponde ao da elevação moral do Espírito. Cinge-se às vezes a uma simples mudança no aspecto geral da fisionomia, enquanto que doutras vezes dá ao perispírito uma aparência luminosa e esplêndida.”
E é ainda em Obras Póstumas [8] que Kardec vem nos auxiliar na imensidade de questões que surgem quando começamos estudar mais a fundo os fenômenos de transfiguração, quando diz, agora no item 23:
“Estes fenômenos talvez pareçam singulares, mas somente por não se conhecerem ainda as propriedades do fluido perispirítico. Este é, para nós, um novo corpo, que há de possuir propriedades novas e que não se podem estudar senão pelos processos ordinários da Ciência, mas que não deixam, por isso, de ser propriedades naturais, só tendo de maravilhosa a novidade.”
Aí está um novo campo de estudos, o perispírito, que, como disse Kardec, exige os processos ordinários da Ciência – ou seja, da mesma forma que ninguém aprende biologia, ou mecânica quântica apenas por assistir a uma palestra ou ler um livro, é necessário um pouco mais de dedicação, de estudo, de pesquisa, para se aprofundar no conhecimento das propriedades do fluido perispirítico.

Parece maravilhoso, e é algo mesmo de se deslumbrar um fenômeno deste tipo, mas não é sobrenatural, pois está perfeitamente dentro das leis da natureza, que nós ainda não conhecemos em plenitude.

A Transfiguração de Jesus
A Transfiguração mais importante, mais famosa que conhecemos é a narrada pelos Evangelhos, a Transfiguração de Jesus. Este fenômeno é descrito tanto por Marcos, no capítulo 9, versículos 2 a 9, por Lucas, também no capítulo 9, versículos 28 a 36 e por Mateus, que foi a narrativa que escolhemos, no capítulo 17, versículos 1 a 9. Segundo o texto de Mateus, alguns dias antes Jesus começou a preparar os discípulos para os acontecimentos de Jerusalém, e convidou Pedro, Tiago e João a subir a um alto monte e, segundo a narrativa de Mateus:
“E transfigurou-se diante deles; e o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes se tornaram brancas como a luz.” (Mateus 17:2)
Pintura: The Transfiguration. Autor: Carl Heinrich Bloch. Ref.: http://www.carlbloch.org/

Jesus, o ser mais evoluído que já veio à Terra, podia, por sua vontade, atuar no seu perispírito livremente. Neste momento narrado nos Evangelhos, Jesus expandiu seu perispírito, que se mostrou brilhante, tal qual deve ser o natural de todos os Espíritos evoluídos.

Encontramos este comentário em A Gênese [9], capítulo XV – os milagres do Evangelho, item 44:
“(...) De todas faculdades que Jesus revelou, nenhuma se pode apontar estranha às condições da humanidade e que se não encontre comumente nos homens, porque estão todas na ordem da Natureza. Pela superioridade, porém, da sua essência moral e de suas qualidades fluídicas, aquelas faculdades atingiam nele proporções muito acima das que são vulgares.”
Assim, tudo o que Jesus fez, podemos fazer (João 14:12), desde que nos melhoremos, nos aperfeiçoemos, pois tudo o que ele fez, não destruindo a lei, está na lei, está na Natureza.

Outros exemplos de transfiguração
Encontramos ainda outros exemplos de transfiguração na Bíblia.
“E aconteceu que, descendo Moisés do monte Sinai trazia as duas tábuas do testemunho em suas mãos, sim, quando desceu do monte, Moisés não sabia que a pele do seu rosto resplandecia, depois que falara com Ele.” (Êxodo 34:29)
“Assim, pois, viam os filhos de Israel o rosto de Moisés, e que resplandecia a pele do seu rosto; e tornava Moisés a pôr o véu sobre o seu rosto, até entrar para falar com Ele.” (Êxodo 34:35)
Temos aqui um exemplo de transfiguração luminosa e duradoura, pois a luminosidade de Moisés era tão aparente a ponto de ele ter de andar com um véu sobre o rosto. Pela narrativa, após o contato com a Espiritualidade superior, recebendo os dez mandamentos, Moisés estava nessa condição que vimos anteriormente neste estudo, de sair do terra-a-terra e se identificar com as coisas do mundo espiritual.

Transfiguração no plano espiritual
A transfiguração também ocorre no plano espiritual, já que é um fenômeno relacionado ao perispírito e Espírito desencarnado também tem perispírito. Alguns exemplos narrados pelo Espírito André Luiz, pela mediunidade de Francisco Cândido Xavier:

Transfiguração de Alexandre [10]
“Nesse instante, Alexandre silenciou, mantendo-se, então, em muda rogativa. Admirado, comovido, notei que o generoso instrutor se transfigurava, ali, aos nossos olhos. Pela primeira vez, depois de meu retorno ao novo plano, observava acontecimento tão singular. Suas vestes tornaram-se de neve radiosa, sua fronte emitia intensa luz e de suas mãos estendidas evolavam-se raios brilhantes que, caindo sobre nós, pareciam infundir-nos estranho encantamento. Profunda emoção dominou-me o íntimo e quase todos nós, sem definir a causa daquelas divinas vibrações, chorávamos de alegria, contendo o peito opresso de júbilo inesperado.”

Transfiguração de Ismália e outros trabalhadores [11]
“Observando-a, por um momento, reparei que a esposa de Alfredo se transfigurara. Luzes diamantinas irradiavam de todo o seu corpo, em particular do tórax, cujo âmago parecia conter misteriosa lâmpada acesa.”
“Em vista da ligeira pausa que imprimira a oração, observei a nós outros, verificando que o mesmo fenômeno se dava conosco, embora menos intensamente. Cada qual parecia, ali, apresentar uma expressão luminosa, gradativa.”
“As senhoras que acompanhavam Ismália estavam quase semelhantes a ela, como se trajassem soberbos costumes (trajes) radiosos, em que predominava a cor azul. Depois delas, em brilho, vinha a luz de Aniceto, de um lilás surpreendente. (...), Vicente e eu, mostrávamos fraca luminosidade, a qual, porém, nos enchia de brilho intenso, considerando que a maioria dos cooperadores em serviço apresentava o corpo obscuro, como acontece na esfera carnal.”

Transfiguração em nós
Por fim, além de todo o conhecimento que vamos adquirindo a respeito do perispírito, o fenômeno da transfiguração de Jesus traz algum outro ensinamento para nós? Este questionamento foi feito para o benfeitor Emmanuel, nos seguintes termos [12]:
“310 – A transfiguração do Senhor é também um símbolo para a Humanidade?
Todas as expressões do Evangelho possuem uma significação divina e, no Tabor, contemplamos a grande lição de que o homem deve viver a sua existência, no mundo, sabendo que pertence ao Céu, por sua sagrada origem, sendo indispensável, desse modo, que se desmaterialize, a todos os instantes, para que se desenvolva em amor e sabedoria, na sagrada exteriorização da virtude celeste, cujos germes lhe dormitam no coração.”

Almejamos que este estudo sobre a transfiguração nos estimule cada vez mais ao desenvolvimento de nós mesmos, ao nosso aperfeiçoamento, pela prática do bem e do amor, conforme sempre nos ensina Nosso Mestre Jesus.

Bons estudos!
Carla e Hendrio


Referências bibliográficas:
[1] HOLANDA FERREIRA, Aurélio Buarque. “Novo Aurélio Século XXI”. Verbete Transfiguração.
[2] Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [online], 2008-2013, Verbete Trans- Disponíevl em: http://www.priberam.pt/dlpo/trans- .Consultado em 26-09-2013.
[3] KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 2ª Parte, Cap. VII, Da bicorporeidade e da transfiguração. Itens 122, 123.
[4] KARDEC, Allan. A Gênese. Parte – Os Milagres. Cap. XIV – Os fluidos. Item 39.
[5] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questões 93 a 95.
[6] KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 2ª Parte, Cap. VII, Da bicorporeidade e da transfiguração. Itens 100.
[7] KARDEC, Allan. A Gênese. Parte – Os Milagres. Cap. XIV – Os fluidos. Itens 7 a 12.
[8] KARDEC, Allan. Obras Póstumas. 1ª Parte, Manifestações dos Espíritos. §3º Transfiguração, itens 22 e 23.
[9] KARDEC, Allan. A Gênese. Parte – Os Milagres. Cap. XV – Os milagres do Evangelho. Itens 43-44.
[10] XAVIER, F. C. “Missionários da Luz” Pelo Espírito André Luiz. 25ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1994, capítulo 9.
[11] XAVIER, F. C. “Os Mensageiros” Pelo Espírito André Luiz. 15ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1983, capítulo 24.
[12] XAVIER, F. C. “O Consolador”. Pelo Espírito Emmanuel. 18ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1997, Questão 310.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Espiritismo e Internet

A rede mundial de computadores encurta distâncias; dá acesso a uma gama inaudita de fontes para pesquisa, porém não substitui o estudo minucioso do conteúdo acessado, em todas as áreas do conhecimento, inclusive da Doutrina Espírita.


O que é

A Internet pode ser definida como um sistema global de redes interconectadas de computadores e vários outros tipos de equipamentos. É uma rede de redes, conectadas por tecnologias com ou sem fio, eletrônicas ou ópticas [1].

Os protocolos que deram origem aos atualmente utilizados iniciaram na década de 1960. Houve uma série de avanços nesses protocolos e na tecnologia durante os anos 1970 e 1980, e, com a sua expansão, a Internet exerceu grande impacto na cultura a partir dos anos 1990.

Estima-se que, em meados de 2012, havia, no mundo, mais de dois bilhões e quatrocentos milhões de usuários da Internet [2]. Destes, mais de oitenta e três milhões encontram-se no Brasil [3]. Notemos, por tais números, a responsabilidade com que se deve postar conteúdo na rede: o que escrevemos pode atingir — e efetivamente atinge — um contingente de várias dezenas a vários milhões de pessoas.


Visualização de caminhos de roteamento através de uma porção da Internet. Fonte: Wikipedia [1]. Créditos: The Opte Project [4].


Análise responsável

A facilidade e rapidez com que se encontram dados — embora não necessariamente informações — na Internet pode trazer efeitos indesejáveis, como a presunção de se poder saber tudo sobre tudo com apenas a digitação de uma palavra em um mecanismo de procura e um clique em qualquer um dos links dos resultados da busca, como se todos fossem absolutamente confiáveis.

A benfeitora Joanna de Ângelis, a esse respeito, pondera com sabedoria, em livro lançado trinta anos atrás, época na qual os computadores ainda não eram tão populares:

“Observando as pessoas, tens a impressão de que, nestes dias da Informática, todas se encontram esclarecidas e orientadas a respeito da vida. (...)
Ocorre que as informações que mais se transmitem, raramente são corretas. Elaboradas para atender a determinadas faixas, carregam condicionamentos psicológicos que devem atingir finalidades específicas. Servindo a interesses mui especiais não visam esclarecer nem libertar consciências. (...)” [5]

Muito do que se publica na Internet carece de revisão e, não raro, carece também de objetivos nobres, como seria o da instrução responsável da Doutrina Espírita. Não devemos acreditar cegamente nos dados aos quais temos acesso.


Dado e informação

Podemos entender dado como um conteúdo quantificável, compreensível e ao qual podemos ter acesso, mas não necessariamente analisado ainda, ao passo que informação é o dado processado, o qual permite a tomada de decisões e ações. Vejamos um exemplo:

  • Alguém pode nos dizer que agora são 15 horas. Não sabemos se a pessoa está com seu relógio marcando a hora certa, e esse número isolado não nos leva necessariamente a nenhuma conclusão;
  • Recebendo o dado sobre a hora; conferindo-o com uma fonte confiável e verificando, em nossa agenda, que nessa hora temos de nos dirigir a uma reunião na qual seremos úteis, o dado “15 horas” passou a ser confirmado e nos auxiliou em um plano de ação útil à nossa vida – o dado passou a ser uma informação.

De forma análoga:

  • Um texto que se diga espírita, ao qual tivemos acesso pela Internet ou qualquer outra fonte (visto em um livro ou panfleto; comentado na televisão ou por um amigo etc.), enquanto ainda não tiver estudadas consistência doutrinária, fonte e mérito, é apenas um dado;
  • Caso esse mesmo texto esteja em pleno acordo com os preceitos espíritas; traga esclarecimentos complementares ao entendimento de um ou mais temas e nos ajude a sermos pessoas mais esclarecidas e felizes, esse texto passou a ser uma iluminada informação.


O uso da Internet

A Internet complementa a interação pessoal; jamais a substitui.

Foi publicado, pela Federação Espírita Brasileira (FEB), o “Plano de Trabalho Para o Movimento Espírita Brasileiro (2013-2017)” [6], contendo diretrizes, os objetivos e as sugestões de projetos para promover e realizar o estudo, a divulgação e a prática da Doutrina Espírita. Na terceira de suas oito diretrizes, denominada “A Comunicação Social Espírita”, a FEB sugere, entre outras ações e projetos:

“Ampliação e fortalecimento da divulgação da Doutrina Espírita pela Mídia (Televisão, Internet, Rádio, Cinema, Jornal, Revista, Outdoor etc. Vide Manual de Comunicação Social Espírita. FEB. 2011).”

Verificamos, portanto, que a Federação Espírita Brasileira não apresenta oposição ao uso da Internet para a divulgação doutrinária responsável. Sendo assim, o que devemos publicar ou repassar, seja em um Blog, um site próprio, por e-mail ou por todos os meios de divulgação, da conversa ao livro?


Kardec nos dá o exemplo

Nunca podemos abrir mão da análise da consistência doutrinária, mérito, fonte e autorização para divulgação, antes de divulgar, por qualquer meio, todo e qualquer texto.

Na postagem intitulada “Examinai Tudo. Retende o Bem.”, neste Blog, pudemos verificar que Allan Kardec, o Codificador da Doutrina Espírita, demonstrou, na Revista Espírita de maio de 1863, ter encontrado mérito fora do comum para publicar apenas 100 de 3.600 textos que havia recebido. Essa postura é condizente com o ensino do Espírito Erasto, conforme lemos em “O Livro dos Médiuns”:

“Melhor é repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea.” [7]

Publicando ou simplesmente comentando um texto, podemos vir a influenciar um número inimaginável de pessoas. Por dever de caridade com o próximo e com nossa milenar e imortal consciência, devemos nos esforçar para exercermos uma influência benéfica.

Estudemos, pesquisemos as fontes das mensagens e avaliemos o seu mérito, analisando-as preferencialmente em um grupo de estudos, antes de levá-las adiante, pela Internet ou qualquer meio de comunicação. Não sigamos linhas de pensamento como as abaixo:

  • “Repasso porque recebi” — no momento em que repassamos algum conteúdo, seja ele um texto, uma fofoca etc., tornamo-nos corresponsáveis pelo mesmo e pelas consequências que ele gerar.
  • “Não tenho tempo para conferir as mensagens; se alguém encontrar um problema, que alerte.” — a responsabilidade pela verificação da veracidade do que enviamos não é “dos outros”: é inteiramente nossa. Sobre a frequentemente alegada falta de tempo, Kardec recomenda, no livro “O Que É o Espiritismo”: “(...) quando nos falta o tempo para fazer conscienciosamente uma coisa, é melhor não fazê-la; é preferível produzir um só trabalho bom a fazer dez maus.” [8]
  • “O texto dizia que era do Chico Xavier e tinha umas fotos tão bonitas...” — imagens e músicas bonitas em uma apresentação são forma, e a forma não pode ser mais importante do que o conteúdo. Ademais, há centenas de textos atribuídos a pessoas de renome, como Chico Xavier, e que jamais foram escritas pelas mesmas. A conferência da fonte é imprescindível.

A divulgação responsável de todo conhecimento, incluindo a Doutrina Espírita, demanda estudo e dedicação. A facilidade de um clique de mouse para repassar um e-mail não nos deve induzir ao repasse de mensagens que possam levar muitas pessoas a entendimentos distorcidos e que as façam males que repercutirão em nossa consciência e em nosso planejamento dos próximos anos ou séculos.


Estudar não é ofender

Ao não aceitarmos de pronto uma mensagem, seja comentada verbalmente, seja em um e-mail, corremos o risco de ofender o remetente se nos propusermos a analisá-la primeiramente? Kardec nos orienta:

“(...) os Espíritos verdadeiramente superiores nos recomendam de contínuo que submetamos todas as comunicações ao crivo da razão e da mais rigorosa lógica.” [9]

O Codificador nos instrui, portanto, que Espíritos realmente evoluídos não apenas não se ofendem, como nos recomendam analisar as mensagens antes de as assimilarmos.


Orientações milenares

Os primeiros trabalhadores do Cristianismo já traziam, há dois milênios, orientações sobre a responsabilidade com o que se retransmite a partir dos dados a que temos acesso.

O Evangelista João recomendava, em sua primeira carta:

“Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai os espíritos, se vêm eles de Deus; porque muitos falsos profetas têm aparecido no mundo.” (1ª carta de João, 04:01)

A passagem acima ressalta como a interação saudável com o Plano Espiritual nada possuía de anormal ou místico (vide Números, 11:26-29; Marcos, 9:38-40 etc., passagens abordadas em nossa postagem “Mediunidade na Bíblia”, em nosso Blog). As palavras de João também demonstram que o contato irresponsável com a Espiritualidade era tão repreensível àquela época quanto o era por Moisés (vide Deuteronômio, 18:9-14; Levítico, 19:31 etc., também abordados em nossa postagem “Mediunidade na Bíblia”) e o é pela Doutrina Espírita (estudemos “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, por exemplo, no capítulo 21, item 7; capítulo 26, itens 8 e 9 etc.).

Estendamos o entendimento desse trecho da primeira epístola de João, considerando que não podemos acreditar cegamente em nenhum Espírito, inclusive nos encarnados. Todos os dados que recebemos devem passar por um estudo criterioso, antes de os podermos repassar de forma responsável.

Consideremos, também, o significado da palavra profeta, utilizada por João Evangelista. Em seu sentido original, profeta significa, simplesmente, porta-voz (vide postagem “Falsos Cristos, falsos profetas e seus seguidores”, neste Blog). Um falso profeta é, assim, quem afirma um conjunto de valores, mas efetivamente segue outro. Sejamos, portanto, porta-vozes de mensagens positivas e coerentes com o nosso credo.

Paulo de Tarso, um dos maiores divulgadores da mensagem do Cristo, também traz preciosas orientações:

“Não extingais o Espírito, não desprezeis as profecias; mas examinai tudo, retende o bem; abstende-vos de toda a forma do mal.” (Primeira Carta de Paulo aos Tessalonicenses, 05:19-22)

O apóstolo dos gentios, em poucas palavras, nos recomenda não vivermos apenas em função dos valores materialistas; não ignorarmos os porta-vozes de mensagens elevadas; estudar — e não aceitar irracionalmente — o que nos chegar de dados e assimilarmos o que estiver de acordo com a Lei Divina, abrindo mão de tudo que faça mal a nós e aos nossos semelhantes.


Comunicação cristã

Independente de termos uma semana ou 70 anos de estudo espírita, tudo o que nós dissermos, escrevermos ou encaminharmos certamente influenciará pessoas, sejam elas de nosso círculo de amizades, sejam elas desconhecidas e residentes a milhares de quilômetros.

Uma comunicação cristã traz o foco no diálogo fraterno, contendo mensagens de cunho positivo, focando no caminho a seguir, e não no caminho a temer. Noticiemos, de forma responsável, o Movimento Espírita; há eventos que nada têm de espíritas, ainda que o digam sê-lo. Colaboremos na divulgação e estudo responsáveis da Doutrina Espírita — todos podemos fazê-lo.

Muita gente diz estar “há poucos anos” frequentando Casa Espírita e, por isso, não sabe ou pode fazer nada ainda, já que ainda não recebeu orientação sobre sua vocação. André Luiz traz conclusão diferente a esse respeito:

“Não viva pedindo orientação espiritual, indefinidamente. Se você já possui duas semanas de conhecimento cristão, sabe, à saciedade, o que fazer.” [10]

O texto que enviarmos pode ser recebido como uma referência pelo destinatário, pois ele pode saber que frequentamos um Centro Espírita — mesmo que há apenas uma semana — e, portanto, devemos saber o que estamos falando. Sempre somos responsáveis pelo que falamos, escrevemos ou encaminhamos.


Situações que merecem atenção

Circulam, pela Internet, dezenas de mensagens apócrifas (que não são do autor a que se atribui) e de textos que se dizem espíritas, mas que não se sustentam pelos preceitos das obras de Allan Kardec. Esses textos e padrões de mensagens se repetem ao longo dos anos; por isso, é importante reconhecê-los. Vejamos alguns exemplos:

  • Mensagens, alegadamente de autores famosos, prevendo catástrofes e/ou aproximação de planetas de vibração negativa e alegando confirmação por entidades científicas. Nosso mundo não está involuindo! A Terra também recebe grande influência de mundos mais evoluídos. A Lei do Progresso impele pessoas e mundos sempre no sentido da sua melhoria; basta comparar a situação da Terra em relação a 1.000 anos atrás. Por isso, Espíritos evoluídos não trazem mensagens deprimentes, difundindo valores como a piora de nosso planeta, pois isso não procede;
  • A respeito dos presságios relatados acima, leem-se vários destes com detalhes de datas, notoriamente sobre eventos como cataclismos, referindo Espíritos de renome como os autores das previsões. Esse tipo de mensagem não é avalizada pelo estudo doutrinário. Allan Kardec ressalta, em “O Livro dos Médiuns”: “A previsão de qualquer acontecimento para uma época determinada é indício de mistificação.” [11]
  • Perfis falsos em redes sociais. Por exemplo: na rede social Facebook, encontram-se “perfis” do conferencista e médium Raul Teixeira. Em seu site (http://www.raulteixeira.com.br/), o próprio Raul, em julho de 2011, esclareceu não ter nada no Facebook. É muito fácil criar um perfil com qualquer nome em uma rede social. Tenhamos atenção para com quem seguimos; o uso de uma identidade falsa, em si, já levanta suspeitas sobre o que será veiculado de mensagens;
  • Textos modificados, com omissões e inclusões de textos em relação ao original. Muitos textos espíritas encontrados na Internet foram digitados por voluntários dedicados, mas que nem sempre contam com uma equipe na qual alguns digitam e outros conferem os textos com os livros originais. Seja por simples engano, seja com interesses escusos, muitos textos encontrados na Internet são diferentes dos originais. Recomendamos não utilizá-los sem antes conferirmos dois aspectos: se estão idênticos aos livros e se não há restrição à sua reprodução;
  • Ataques pessoais a vultos do Espiritismo, frequentemente sem nenhuma base além de suspeitas e boatos. Não devemos ver as pessoas, inclusive os grandes trabalhadores do Movimento Espírita, como santas ou intocáveis; tampouco, porém, devemos dar atenção ao primeiro boato infundado do polemista do momento. Desserviços assim não ocorrem apenas no meio espírita: foram lançados até livros e filmes acusando Madre Teresa de oportunismo e corrupção!


Não alimentemos polêmicas

Polemistas profissionais desejam tomar tempo e energia dedicáveis ao Bem. São pessoas que ainda consomem todo seu tempo e raciocínio a encontrar defeitos nos trabalhos alheios, sem sobrar tempo e energia para buscar fazer algo em prol do bem.

Novamente seguindo o conselho de Paulo de Tarso na Primeira Epístola aos Tessalonicenses, ouçamos as críticas e assimilemos aquelas que sejam construtivas e nos apontem oportunidades de melhoria, sem trazermos para nosso mundo íntimo o lodo das palavras ácidas e inúteis.

Kardec afirma, em “Obras Póstumas”, que a Doutrina Espírita,

“Querendo ser aceita livremente, por convicção e não por constrangimento, proclamando a liberdade de consciência um direito natural imprescritível, diz: Se tenho razão, todos acabarão por pensar como eu; se estou em erro, acabarei por pensar como os outros. Em virtude destes princípios, não atirando pedras a ninguém, ela nenhum pretexto dará para represálias e deixará aos dissidentes toda a responsabilidade de suas palavras e de seus atos.” [12]

Não desperdicemos tempo e energia em debates com seguidores de outras religiões, e mesmo com ateus, para descobrir “quem está com a razão”. Quando perseguimos a resposta a essa inútil pergunta, estamos em busca de quem é o melhor ou o maior, tema muito bem esclarecido por Jesus e relatado pelo evangelista Lucas. Estêvão, um dos cristãos da primeira hora, em debate com Saulo de Tarso antes de sua conversão ao Cristianismo, também traz importante conselho sobre os debates improdutivos, conforme Emmanuel nos relata no livro “Paulo e Estêvão”:

“Jesus teve a preocupação de recomendar a seus discípulos que fugissem do fermento das discussões e das discórdias. Eis por que não será lícito perdermos tempo em contendas inúteis, quando o trabalho do Cristo reclama o nosso esforço.” [13]


Concluindo...

Não fazemos ideia do alcance daquilo que dizemos ou de nossa influência sobre as pessoas. Façamos com que seja uma influência positiva.

Revisemos previamente, em relação ao original, os textos que pretendemos divulgar — seja por e-mail, em uma rede social, Blog, verbalmente, por escrito etc.

Ao encaminhar e-mails, utilizemos cópia oculta para não expor os endereços dos destinatários; não enviemos anexos grandes e procuremos seguir as demais regras de boa convivência da Netiqueta.

Não repassemos trechos de livros, imagens, áudios etc. que informem ter sua reprodução proibida.

Estudemos a Doutrina Espírita em grupo. Ainda não sabemos tudo; podemos deixar passar algum ponto errôneo que outro colega de estudos não deixará.

Há centenas de bons livros para lermos. Em vez de procurar o que ler de texto espírita apenas pela Internet, consultemos a biblioteca do Centro Espírita mais próximo de nossa residência ou local de trabalho.

Joanna de Ângelis recomenda, na mesma mensagem citada anteriormente:

“Aplica bem o tempo de que disponhas, quando a serviço da Mensagem.
Não desperdices oportunidade.
Elucida alguém, quando não o possas fazer a muitos.
O importante é a contribuição, modesta que seja, à obra da libertação espiritual.” [5]

Finalizamos com o sábio aconselhamento de Emmanuel, em mensagem frequentemente encontrada pela Internet com seu texto alterado do original:

“(...) trabalha para que a Doutrina Espírita lhes estenda socorro oportuno. Para isso, estudemos Allan Kardec, ao clarão da mensagem de Jesus-Cristo, e, seja no exemplo ou na atitude, na ação ou na palavra, recordemos que o Espiritismo nos solicita uma espécie permanente de caridade — a caridade da sua própria divulgação.” [14]


Leia também, neste Blog, as postagens “Os opositores da Doutrina Espírita”, “‘Pequenos’ Erros”, “Examinai Tudo. Retende o Bem.”, “Falsos Cristos, falsos profetas e seus seguidores”, “Mediunidade na Bíblia” e “Lei do Progresso”.


Bons estudos!
Carla e Hendrio


Referências:
[1] Wikipedia. Termo pesquisado: Internet. Disponível em http://en.wikipedia.org/wiki/Internet. Acesso em 05 de janeiro de 2013.
[2] Internet Users in the World; 2012-Q2. Disponível em http://www.internetworldstats.com/stats.htm. Acesso em 05 de janeiro de 2013.
[3] Internet Stats and Telecom Market Report for Brazil. Disponível em http://www.internetworldstats.com/sa/br.htm. Acesso em 05 de janeiro de 2013.
[4] The Opte Project. Disponível em http://www.opte.org/. Acesso em 05 de janeiro de 2013.
[5] FRANCO, Divaldo P. “Otimismo”. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 2.ed. Salvador, BA: Livraria Espírita Alvorada, 1983. Capítulo 38 (“Pregando sempre”).
[6] Federação Espírita Brasileira. “Plano de Trabalho Para o Movimento Espírita Brasileiro (2013-2017)”. Disponível em http://www.febnet.org.br/wp-content/uploads/2012/11/Plano-de-Trabalho.pdf. Acesso em 13 de janeiro de 2013.
[7] KARDEC, Allan. “O Livro dos Médiuns”. 55.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Segunda parte, capítulo XX, item 230.
[8] KARDEC, Allan. “O Que É o Espiritismo”. 26.ed. São Paulo, SP: LAKE, 2001. Capítulo I. Primeiro diálogo — O crítico.
[9] KARDEC, Allan. “O Livro dos Médiuns”. 55.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Segunda parte, capítulo X, item 136.
[10] XAVIER, Francisco C. “Agenda Cristã”. Pelo Espírito André Luiz.  2.ed. de bolso. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1998. Capítulo 18 — “Lembranças úteis”.
[11] KARDEC, Allan. “O Livro dos Médiuns”. 55. ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Segunda parte, capítulo XXIV (“Da identidade dos Espíritos”), número 267, item 8.
[12] KARDEC, Allan. “Obras Póstumas”. 25.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1990. Segunda parte. “Constituição do Espiritismo”, § II — “Dos cismas”.
[13] XAVIER, Francisco C. “Paulo e Estêvão”. Pelo Espírito Emmanuel. 20.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1993. Capítulo V — “A pregação de Estêvão”.
[14] XAVIER, Francisco C. e VIEIRA, Waldo. “Estude e Viva”. Pelos Espíritos Emmanuel e André Luiz. 6.ed. Rio de Janeiro, FJ: FEB, 1986. Capítulo 40 — “Socorro oportuno”.


terça-feira, 15 de março de 2011

Falsos Cristos, falsos profetas e seus seguidores

(Ouça, em outra janela, esta postagem convertida para voz: Parte 1 Parte 2 Parte 3 Parte 4 Parte 5 Parte 6 Parte 7 Parte 8 Parte 9 Parte 10 Parte 11 Parte 12 Parte 13)

Nos campos da Ciência, da Filosofia e Religião, há trabalhadores devotados ao progresso da Humanidade, bem como pessoas temporariamente interessadas apenas em sucesso e vantagens momentâneas, mesmo que à custa do prejuízo de seu semelhante. Em vez de desejarmos o mal a falsos Cristos e falsos profetas, a pretexto de pedirmos “justiça”, precisamos desenvolver nossa vigilância, nossa boa sintonia e nosso conhecimento, visando a permanecer focados no Bem, em pensamentos, palavras e ações.

A Doutrina Espírita, resgatando os princípios originais do Cristianismo, convida à reflexão e nossa própria modificação. O Espiritismo não nos incentiva a ressaltar os erros das outras pessoas, mas sim a nos mantermos vigilantes (do latim vigilare, ou seja, despertar). Estando despertos, não desperdiçamos as diversas oportunidades de fazer o Bem que todos os dias se nos deparam, assim como não nos deixamos levar por ideias e ações prejudiciais a nosso semelhante e a nós mesmos.


Significado da palavra profeta

A palavra hebraica mais utilizada para designar “profeta” no Antigo Testamento é o termo nabi’. A palavra significa, simplesmente, porta-voz [1]. O substantivo grego prophetes, da qual se origina o termo português profeta, também significa porta-voz [2].

Os nabi’im (plural de nabi’) eram vistos como aqueles que transmitiam mensagens, impulsionados por um Espírito percebido como de grande elevação moral, a ponto de entenderem que o próprio Criador os estaria inspirando. Assim vemos, por exemplo, nos livros dos profetas Isaías e Ageu:
“O espírito de Jeová está sobre mim, porque Jeová me ungiu para pregar boas novas aos mansos (...)” (Isaías 61:01)

“No segundo ano do rei Dario, no sexto mês, no primeiro dia do mês, veio a palavra de Jeová por intervenção do profeta Ageu a Zorobabel (...)” (Ageu 01:01)
Os profetas eram, portanto, dotados de mediunidade ostensiva, visto trazerem mensagens provindas do Plano Espiritual. Moisés, também possuidor dessa faculdade, condenava seu mau uso, como a exigência de respostas dos Espíritos (Deuteronômio 18:11), mas desejava que todos pudessem ter um contato saudável com o Mundo Espiritual (Números 11:26-29). Essa possibilidade de interação entre os planos havia sido prevista também por um profeta (Joel 02:28-29), e relembrada por Simão Pedro, discípulo de Jesus (Atos 02:17-18), e foi, de fato, observada quando da ocorrência, em nível mundial, de fenômenos mediúnicos, cujo estudo sistemático e científico, feito por Allan Kardec, deu origem à Doutrina Espírita.

Independente de mediunidade ostensiva, contudo, sempre influenciamos e somos influenciados pelo meio onde vivemos. Propagamos ideias coerentes com nossos valores, reforçados pela interação com pessoas, encarnadas ou desencarnadas, que pensem de forma similar. Somos porta-vozes dos valores que, de fato, seguimos. Sejamos, portanto, humildes mas legítimos profetas de pensamentos e ações ligados à evolução moral e intelectual nossa e de todos que estejam ao nosso alcance real ou virtual.


Significado da palavra Cristo

Conforme cita o escritor Carlos Torres Pastorino [3], o verbo grego Chrio significa ungir, ou seja, purificar. O particípio desse verbo, Christós, é traduzido como “o ‘Ungido’, o ‘permeado da Divindade’”.

Jesus é o Espírito mais puro que a Humanidade terrestre conheceu. Por isso, é denominado de Cristo. Essa denominação, no entanto, não serve para seu exemplo de evolução moral permanecer num pedestal, longe de nós. Jesus nos chamou à responsabilidade de nos inspirarmos em seu exemplo e atingir aquele grau de perfeição:
“Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim, esse fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores (...)” (João 14:12)
Naturalmente, as poucas dezenas de anos de uma encarnação não bastam para tamanha evolução. É a escolha de que ideias seguimos e aplicamos, ao longo dos ciclos de vivências alternadas nos planos da matéria densa e quintessenciada, que acelera ou retarda nosso processo evolutivo. O apóstolo Paulo de Tarso conclama, por diversas vezes, a nos purificarmos, ou seja, formarmos o Cristo em nossa mente e nosso coração. Vejamos alguns exemplos em suas cartas aos cristãos de vários povos:
“Deus, fortificador nosso e vosso, em Cristo, cristifica-nos, Ele também nos marca e nos dá, como penhor, o Espírito em nossos corações.” (2 Coríntios 01:21)

“Filhinhos meus, por quem de novo sinto as dores de parto até que Cristo seja formado em vós; quem me dera estar presente convosco agora e mudar de tom; porque estou perplexo acerca de vós.” (Gálatas 04:19-20)

“Que habite Cristo pela fé em vossos corações, sendo vós arraigados e fundados em amor, a fim de poderdes compreender com todos os santos qual é a largura e o comprimento e a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que sobrepuja a ciência, para que sejais cheios até a inteira plenitude de Deus.” (Efésios 03:17-19)

“Ele deu uns como apóstolos, outros como profetas, outros como evangelistas, outros como pastores e mestres, tendo em vista o aperfeiçoamento dos santos para o trabalho do ministério, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem perfeito, à medida da estatura da plenitude de Cristo.” (Efésios 04:11-13)


Análise, discernimento e tolerância à divergência

São Jerônimo, tradutor da Bíblia do grego para o latim, afirmou que “a verdade não poderia existir em coisas que divergem”. De forma coerente com essa visão, Allan Kardec indica a ampla concordância de análises criteriosas como a garantia de um sistema de ideias. Em suas palavras:
“Essa a base em que nos apoiamos, quando formulamos um princípio da doutrina. Não é porque esteja de acordo com as nossas ideias que o temos por verdadeiro. Não nos arvoramos, absolutamente, em árbitro supremo da verdade e a ninguém dizemos: ‘Crede em tal coisa, porque somos nós que vo-lo dizemos.’ A nossa opinião não passa, aos nossos próprios olhos, de uma opinião pessoal, que pode ser verdadeira ou falsa, visto não nos considerarmos mais infalível do que qualquer outro. Também não é porque um princípio nos foi ensinado que, para nós, ele exprime a verdade, mas porque recebeu a sanção da concordância.
(...) Não será à opinião de um homem que se aliarão os outros, mas à voz unânime dos Espíritos; não será um homem, nem nós, nem qualquer outro que fundará a ortodoxia espírita; tampouco será um Espírito que se venha impor a quem quer que seja: será a universalidade dos Espíritos que se comunicam em toda a Terra, por ordem de Deus. Esse o caráter essencial da Doutrina Espírita; essa a sua força, a sua autoridade. Quis Deus que a sua lei assentasse em base inamovível e por isso não lhe deu por fundamento a cabeça frágil de um só.” [4]


A análise criteriosa do valor moral de quaisquer sistemas de ideias, apresentado tanto por via mediúnica como anímica, é ferramenta útil trazida pela Doutrina Espírita, como esclarece Kardec:
“Os fenômenos espíritas, longe de abonarem os falsos Cristos e os falsos profetas, como a algumas pessoas apraz dizer, golpe mortal desferem neles. Não peçais ao Espiritismo prodígios, nem milagres, porquanto ele formalmente declara que os não opera.
(...) O Espiritismo revela outra categoria bem mais perigosa de falsos Cristos e de falsos profetas, que se encontram, não entre os homens, mas entre os desencarnados: a dos Espíritos enganadores, hipócritas, orgulhosos e pseudossábios, que passaram da Terra para a erraticidade e tomam nomes venerados para, sob a máscara de que se cobrem, facilitarem a aceitação das mais singulares e absurdas ideias. Antes que se conhecessem as relações mediúnicas, eles atuavam de maneira menos ostensiva, pela inspiração, pela mediunidade inconsciente, audiente ou falante.
(...) O Espiritismo nos faculta os meios de experimentá-los, apontando os caracteres pelos quais se reconhecem os bons Espíritos, caracteres sempre morais, nunca materiais. É à maneira de se distinguirem dos maus os bons Espíritos que, principalmente, podem aplicar-se estas palavras de Jesus: ‘Pelo fruto é que se reconhece a qualidade da árvore; uma árvore boa não pode produzir maus frutos, e uma árvore má não os pode produzir bons.’” [5]
Sistemas de ideias que propaguem valores sectários; que afirmem que uma pessoa ou grupo de pessoas seja melhor do que outros; que incitem à intolerância ou violência, são incompatíveis com os valores do Cristo, Espírito evoluído o suficiente para atuar na própria elaboração do Planeta Terra, o que ocorreu há cerca de 4,56 bilhões de anos. Um Espírito tão evoluído só pode desejar a evolução de todos, como vemos, abaixo, nas palavras de Jesus:
“Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas.
O que é mercenário, e não pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê vir o lobo, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as arrebata e dispersa.
O mercenário foge, porque é mercenário, e não se importa com as ovelhas.
Eu sou o bom pastor, conheço as minhas ovelhas, e as que são minhas, me conhecem a mim,
assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas.
Tenho também outras ovelhas que não são deste aprisco, estas também é necessário que eu as traga; elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um pastor.
Por isso o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir.” (João 10:11-17)
Daí vemos a importância de conhecer e compreender os fundamentos de tudo que lemos, ouvimos e vemos, bem como de refletir se, de fato, a ideia com que tivemos contato traz algo de bom a nós e à Humanidade como um todo.

Se não devemos seguir quem entendamos propagar ideias negativas, tampouco devemos agredir aqueles que divirjam de nossa maneira de ver o mundo. Observemos o aconselhamento de um Espírito Protetor à mensagem seguinte:
“Sois chamados a estar em contato com espíritos de naturezas diferentes, de caracteres opostos: não choqueis a nenhum daqueles com quem estiverdes. Sede joviais, sede ditosos, mas seja a vossa jovialidade a que provém de uma consciência limpa, seja a vossa ventura a do herdeiro do Céu que conta os dias que faltam para entrar na posse da sua herança.” [6]


Concluindo...

Cuidemos bem de nós e de todos ao nosso alcance. Existem profetas de ideias elevadas e de ideias terra-a-terra; há pessoas mais cristianizadas e pessoas ainda imaturas espiritualmente, mas escolher e seguir os valores de um ou de outro grupo é decisão nossa. Nas palavras do Cristo,
“Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.” (Mateus 06:21)


Leia também, neste blog, as postagens “Espiritismo e Internet”, “Examinai Tudo. Retende o Bem.”, “Hermenêutica, Exegese e Espiritismo”, “Mediunidade na Bíblia”, “Influência do Meio”, “Pentecostes, mediunidade e Espiritismo” e “Evolução Espiritual de Longo Prazo”.


Bons estudos!
Carla e Hendrio


Referências:
[1] Wikipedia. Palavra Prophet. Disponível em http://en.wikipedia.org/wiki/Prophet. Acesso em 13/03/2011.
[2] The New Testament Greek Lexicon. Palavra προφήτης (prophētēs). Disponível em http://www.searchgodsword.org/lex/grk/view.cgi?number=4396. Acesso em 13/03/2011.
[3] PASTORINO, Carlos Torres. “Sabedoria do Evangelho”. Rio de Janeiro, RJ: Sabedoria, 1964. Volume 4, capítulo “O Homem no Novo Testamento”.
[4] KARDEC, Allan. “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. 97ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Introdução, item II.
[5] Ibidem. Capítulo XXI, item 7.
[6] Ibidem. Capítulo XVII, item 10




quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Pressentimentos

Pressentimento, conforme definição léxica, é um “sentimento intuitivo e alheio a uma causa conhecida, que permite a previsão de acontecimentos futuros; intuição, palpite, presságio” [1].

Como se pode compreender a existência de um pressentimento, de uma ideia acerca do futuro apresentada por outro Espírito? Allan Kardec, o Codificador da Doutrina Espírita, propôs, na obra “A Gênese” [2], uma analogia para a compreensão desse mecanismo, bem como da responsabilidade de um Espírito ao buscar levar, a outro ser, parte do conhecimento sobre eventos ainda não ocorridos:

“Suponhamos um homem colocado no cume de uma alta montanha, a observar a vasta extensão da planície em derredor. Nessa situação, o espaço de uma légua pouca coisa será para ele, que poderá facilmente apanhar, de um golpe de vista, todos os acidentes do terreno, de um extremo a outro da estrada que lhe esteja diante dos olhos. (...) Suponhamos que esse homem desce do seu ponto de observação e, indo ao encontro do viajante, lhe diz: ‘Em tal momento, encontrarás tal coisa, serás atacado e socorrido’. Estará predizendo o futuro, mas, futuro para o viajante, não para ele, autor da previsão, pois que, para ele, esse futuro é presente.
(...)
Os Espíritos desmaterializados são como o homem da montanha; o espaço e a duração não existem para eles. Mas, a extensão e a penetração da vista são proporcionadas à depuração deles e à elevação que alcançaram na hierarquia espiritual.
(...)
Bem se compreende, pois, que, de conformidade com o grau de sua perfeição, possa um Espírito abarcar um período de alguns anos, de alguns séculos, mesmo de muitos milhares de anos, porquanto, que é um século em face do infinito? Diante dele, os acontecimentos não se desenrolam sucessivamente, como os incidentes da estrada diante do viajor: ele vê simultaneamente o começo e o fim do período; todos os eventos que, nesse período, constituem o futuro para o homem da Terra são o presente para ele, que poderia então vir dizer-nos com certeza: Tal coisa acontecerá em tal época, porque essa coisa ele a vê como o homem da montanha vê o que espera o viajante no curso da viagem. Se assim não procede, é porque poderia ser prejudicial ao homem o conhecimento do futuro, conhecimento que lhe pearia o livre-arbítrio, paralisá-lo-ia no trabalho que lhe cumpre executar a bem do seu progresso. O se lhe conservarem desconhecidos o bem e o mal com que topará constitui para o homem uma prova.
(...)
Entretanto, como o homem tem de concorrer para o progresso geral, como certos acontecimentos devem resultar da sua cooperação, pode convir que, em casos especiais, ele pressinta esses acontecimentos, a fim de lhes preparar o encaminhamento e de estar pronto a agir, em chegando a ocasião. Por isso é que Deus, às vezes, permite se levante uma ponta do véu; mas, sempre com fim útil, nunca para satisfação de vã curiosidade. Tal missão pode, pois, ser conferida, não a todos os Espíritos, porquanto muitos há que do futuro não conhecem mais do que os homens, porém a alguns Espíritos bastante adiantados para desempenhá-la.” [2]

Foto: Hendrio Belfort

A título de curiosidade sobre a expressão “levantar uma ponta do véu”, utilizada acima: a palavra grega utilizada para revelação é apokalypsis (ἀποκάλυψις), a qual significa, literalmente, revelar, retirar o véu [3]. Nota-se, portanto, que o termo que dá origem à palavra apocalipse não tem qualquer relação com catástrofes ou fim do mundo, frequentemente associados ao verbete em português. Na Bíblia em inglês, o livro do Apocalipse se chama Revelação.

Os Espíritos Superiores, em resposta à questão 522 de “O Livro dos Espíritos” [4], explicam que o pressentimento tanto pode ser o conselho íntimo e oculto de um Espírito que nos quer bem, como a intuição de uma etapa do plano reencarnatório, quando esta fase está próxima de ocorrer (voz do instinto). Ou seja, existem pressentimentos advindos de um processo mediúnico (por influência de uma inteligência externa) e outros de processo anímico (pela própria alma de quem pressente). Busquemos focar em pressentimentos na qualidade de percepções, inspiradas ou deduzidas, com vistas ao Bem. Kardec esclarece, a respeito dos pressentimentos provenientes de outros Espíritos, nos seguintes termos:

“A inspiração nos vem dos Espíritos que nos influenciam para o bem, ou para o mal, porém, procede, principalmente, dos que querem o nosso bem e cujos conselhos muito amiúde cometemos o erro de não seguir. Ela se aplica, em todas as circunstâncias da vida, às resoluções que devamos tomar. Sob esse aspecto, pode dizer-se que todos são médiuns, porquanto não há quem não tenha seus Espíritos protetores e familiares, a se esforçarem por sugerir aos protegidos salutares ideias. Se todos estivessem bem compenetrados desta verdade, ninguém deixaria de recorrer com frequência à inspiração do seu anjo de guarda, nos momentos em que se não sabe o que dizer, ou fazer. Que cada um, pois, o invoque com fervor e confiança, em caso de necessidade, e muito frequentemente se admirará das ideias que lhe surgem como por encanto, quer se trate de uma resolução a tomar, quer de alguma coisa a compor. Se nenhuma ideia surge, é que é preciso esperar.” [5]

Importa considerar que um aparente pressentimento, mormente o de caráter negativo, também pode ser induzido por Espíritos que desejam o nosso desequilíbrio, conforme se pode inferir da mensagem “Influenciações Espirituais Sutis”, de autoria do Espírito André Luiz [6], da qual transcrevemos o trecho correspondente:

“Sempre que você experimente um estado de espírito tendente ao derrotismo, perdurando há várias horas, sem causa orgânica ou moral de destaque, avente a hipótese de uma influenciação espiritual sutil. (...) Dentre os fatores que mais revelam essa condição da alma, incluem-se:
- (...) indisposição inexplicável, tristeza sem razão aparente e pressentimentos de desastre imediato (...)”

Vemos, portanto, como a Doutrina Espírita aborda de forma responsável a questão dos pressentimentos. Orientados ao Bem, eles surgem apenas nos momentos adequados à nossa evolução moral e intelectual. As interações entre os dois planos da vida — o de matéria densa e o de matéria quintessenciada — devem ser feitas com responsabilidade, pois Espíritos de maior evolução não gastam seu tempo inspirando pressentimentos de adivinhações e assuntos banais. Foi o intercâmbio irresponsável com o plano espiritual que Moisés condenara, em citações como Deuteronômio 18:09-14 e Levítico 19:31. A interação entre os dois planos da vida em prol do Bem era utilizada tanto por Moisés (Números 11:26-29) como pelo Mestre Jesus (Marcos 09:38-40). Kardec, buscando trazer respostas dos Espíritos da Falange do Consolador a questões usuais, ilustra o tema em foco com estes ensinos [7]:

“Por que, quando fazem pressentir um acontecimento, os Espíritos sérios de ordinário não determinam a data? Será porque o não possam, ou porque não queiram?
‘Por uma e outra coisa. Eles podem, em certos casos, fazer que um acontecimento seja pressentido: nessa hipótese, é um aviso que vos dão. Quanto a precisar-lhe a época, é frequente não o deverem fazer. Também sucede com frequência não o poderem, por não o saberem eles próprios. Pode o Espírito prever que um fato se dará, mas o momento exato pode depender de acontecimentos que ainda se não verificaram e que só Deus conhece. Os Espíritos levianos, que não escrupulizam de vos enganar, esses determinam os dias e as horas, sem se preocuparem com que o fato predito ocorra ou não. Por isso é que toda predição circunstanciada vos deve ser suspeita.
‘Ainda uma vez: a nossa missão consiste em fazer-vos progredir; para isso vos auxiliamos tanto quanto podemos. Jamais será enganado aquele que aos Espíritos superiores pedir a sabedoria; não acrediteis, porém, que percamos o nosso tempo em ouvir as vossas futilidades e em vos predizer a boa fortuna. Deixamos esse encargo aos Espíritos levianos, que com isso se divertem, como crianças travessas.
‘A Providência pôs limite às revelações que podem ser feitas ao homem. Os Espíritos sérios guardam silêncio sobre tudo aquilo que lhes é defeso revelarem. Aquele que insista por uma resposta se expõe aos embustes dos Espíritos inferiores, sempre prontos a se aproveitarem das ocasiões que tenham de armar laços à vossa credulidade.’” [7]

A benfeitora espiritual Joanna de Ângelis, na obra “Lições para a felicidade” [8], aconselha que analisemos os pressentimentos de forma clara e tranquila, quando ocorram, avaliando qual a mensagem de advertência ou socorro de que se fazem portadores. E conclui que, mantendo-nos em comunhão com os Espíritos Superiores, recebemos deles, por pressentimentos, notícias das ocorrências futuras, de modo a nos preparamos para melhor enfrentá-las e bem conduzi-las.


Leia também, neste blog, as postagens “Influência do Meio”, “Inspiração”, “Mediunidade na Bíblia”, “Causa da Obsessão”, “A Influência de ‘Maus’ Espíritos” e “O Bem e o Mal”.


Bons estudos!
Carla e Hendrio


Referências:

[1] HOLANDA, Aurélio Buarque de. “Novo Dicionário Eletrônico Aurélio”. Versão 5.0 de 2004. Positivo Informática. Pressentimento.
[2] KARDEC, Allan. “A Gênese”. 34ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1991. Capítulo XVI (Teoria da Presciência), itens 2 a 4.
[3] Wiktionary. Palavra ἀποκαλύπτω (apokalúptō). Disponível em http://en.wiktionary.org/wiki/%E1%BC%80%CF%80%CE%BF%CE%BA%CE%AC%CE%BB%CF%85%CF%88%CE%B9%CF%82. Acesso em 16/08/2010.
[4] KARDEC, Allan. “O Livro dos Espíritos”. 66ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Questão 522.
[5] KARDEC, Allan. “O Livro dos Médiuns”. 55ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Segunda Parte, Capítulo XV, item 182.
[6] XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. “Estude e Viva”. Pelos Espíritos Emmanuel e André Luiz. 6ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1986. Capítulo 35.
[7] KARDEC, Allan. “O Livro dos Médiuns”. 55ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Segunda Parte, Capítulo XXVI, item 289 (Perguntas sobre o futuro), 11ª questão.
[8] FRANCO, Divaldo P. “Lições para a felicidade”. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador, BA: LEAL, 2003. Capítulo 13 – Pressentimento.


quarta-feira, 28 de abril de 2010

Influência do Meio

Allan Kardec, o Codificador das obras que compõem a Doutrina Espírita, aborda a questão da influência do meio no capítulo XXI de “O Livro dos Médiuns” [1]. Neste capítulo, porém, Kardec não restringe a influência energética do meio a quem possua capacidade ostensiva de percepção de mensagens de planos existenciais diferentes do em que se vive. Em nossa casa, em nossos ambientes de trabalho, estudo ou lazer, somos sempre influenciados e influenciamos a atmosfera — e não estamos simplesmente à mercê de influências alheias à nossa vontade, mas sempre de acordo com o que pensamos, dizemos ou fazemos.

Podemos traduzir meio, no contexto em estudo, como a esfera social ou profissional onde se vive ou trabalha; ambiente; círculo. [2]

No idioma original da Codificação Espírita, o francês [3], o capítulo XXI de “O Livro dos Médiuns” intitulado “Da Influência do Meio” é escrito como “Influence du Milieu”. A fim de verificar se a acepção da palavra “milieu”, traduzida literalmente como meio, era a mesma utilizada hoje, analisamos trechos de “A Revista Espírita” em francês, buscando encontrar o referido verbete. Entendimentos diferentes de palavras levam a conclusões muito distorcidas, como sói ocorrer com diversas traduções divergentes da Bíblia. Felizmente, neste caso, o entendimento do termo é o mesmo, como encontramos nos exemplos abaixo (os grifos são nossos):

“(...) les rayons fluidiques se dispersent, s'absorbent par le milieu ambiant (...)” traduzido como “(...) os raios fluídicos se dispersam e são absorvidos pelo meio (...)” [4]

“(...) il revienne à Paris, il s'y trouvera dans un milieu tout autre que la première fois et qui devra lui paraître nouveau (...)” traduzido como “(...) retorna a Paris e se encontra num meio completamente diverso do da primeira vez, e que lhe parecerá novo. (...)” [5]

Depreendemos que o meio abrange:
  • A atmosfera energética das pessoas, encarnadas ou desencarnadas, foco do capítulo XXI de “O Livro dos Médiuns”;
  • O ambiente, composto pelas matérias densa e quintessenciada, onde o fenômeno em estudo ocorre, foco de diversas obras subsidiárias, nas quais destacamos “Missionários da Luz”, “Nos domínios da Mediunidade” e “Obreiros da Vida Eterna” de André Luiz, recebidas pela mediunidade de Francisco Cândido Xavier.

Kardec pontua, no referido capítulo de “O Livro dos Médiuns”, que é um erro acreditar que é necessário ter e exercer a capacidade ostensiva de comunicação com Espíritos para atraí-los. Em suas palavras e com seus próprios grifos, “Assim, onde quer que haja uma reunião de homens, há igualmente em torno deles uma assembleia oculta, que simpatiza com suas qualidades ou com seus defeitos, feita abstração completa de toda ideia de evocação.” [6]

O que pensamos, dizemos e fazemos atrai nossas companhias, sejam elas visíveis ou não. O apóstolo Paulo já nos havia alertado a respeito em sua carta aos seus patrícios hebreus, nos convidando a nos manter no caminho do Bem: “Portanto também nós, visto que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, pondo de lado todo o impedimento, e o erro que se nos apega, corramos com perseverança a carreira que nos está proposta” (Paulo aos Hebreus 12:01)


O ambiente onde se realizam as atividades também é objeto de cuidados pelos Espíritos. A assepsia energética é condição importante para a realização de uma reunião nobre, tanto quanto a assepsia física do campo, seja esta reunião uma cirurgia, uma aula de alfabetização, um seminário científico, uma reunião de planejamento estratégico de uma empresa ou uma sessão mediúnica em um Centro Espírita. Independente de divergências, simpatias ou antipatias, levemos a nossos encontros o que de melhor podemos oferecer, pois somos corresponsáveis pela atmosfera que influiu nas decisões e resultados ocorridos em tais eventos.

Cuidemos, portanto, de nossos pensamentos, palavras e ações. Estes três determinarão que companhia teremos, as quais reforçarão nossas decisões sobre o que pensar, dizer e decidir. Estas três escolhas nossas igualmente irão colaborar na assepsia ou contaminação dos ambientes que frequentarmos.


Leia também, neste blog, as postagens “Falsos Cristos, falsos profetas e seus seguidores”, “Vigiai e Orai”, “Sintonia espiritual”, “A Influência de ‘Maus’ Espíritos”, “Pressentimentos”, “Faixas”, “Maus Pensamentos” e “Inspiração”.


Bons estudos!
Carla e Hendrio


Referências:

[1] KARDEC, Allan. "O Livro dos Médiuns". 55ª ed. Rio de Janeiro: RJ, FEB: 1987. Segunda Parte, capítulo XXI.
[2] HOLANDA, Aurélio Buarque de. “Novo Dicionário Eletrônico Aurélio”. Versão 5.0 de 2004. Positivo Informática. Meio.
[3] Centre Spirite Lyonnais Allan Kardec. “Téléchargements gratuits des ouvrages et des fascicules spirites”. Disponível em http://spirite.free.fr/. Acesso em 27/04/2010.
[4] KARDEC, Allan. “Revista Espírita de janeiro de 1859”. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro, RJ. FEB 2004. “Sr. Adrien, Médium Vidente”.
[5] Idem, “Revista Espírita de junho de 1860”. “Conversas Familiares de Além-Túmulo”.
[6] KARDEC, Allan. "O Livro dos Médiuns". 55ª ed. Rio de Janeiro: RJ, FEB: 1987. Segunda Parte, capítulo XXI, item 232.



sábado, 17 de abril de 2010

Chico

Quando admiramos alguém, procuramos incorporar em nossa vida alguns modos de ser que nos façam ficar mais próximos da pessoa admirada. Pode ser imitar o jeito de falar, algumas expressões, alguns gestos e atitudes. Não nos referimos aos especialistas em imitações, que são artistas, mas em mudanças conscientes que vamos fazendo para nos tornarmos mais próximos do ideal que traçamos para nós. Assim, ver o exemplo positivo de alguém, a prática da caridade, se temos olhos de ver, nos estimula a trazer esse exemplo para nosso cotidiano e vivenciarmos também essa situação.

Há, porém, outra forma de admiração, que coloca o ser admirado num "pedestal", tão longe de nós, que se torna impossível imitarmos seu exemplo. Tudo se torna inatingível e uma modéstia nem sempre real nos faz apregoar o quanto estamos distantes de atingir tal objetivo... Ocorre, neste caso, que, por o situarmos tão acima, comodamente nem começamos a dar o primeiro passo para encurtar a distância. Se é inatingível, para que nos esforçarmos? Vamos achar bonito e pronto. Não é para nosso bico... e assim se multiplicam as desculpas que nos fazem ficar parados no mesmo lugar.

Dentre as diversas reflexões que Chico Xavier nos desperta, essa é uma que devemos amadurecer, nestes tempos de homenagens mais que merecidas pelo seu exemplo de vida, que está acima da religião que professava.

O que nos desperta Chico Xavier?


Quando ouvimos histórias de sua vida, nos sentimos estimulados a vencer os desafios que nossa vida nos oferece? Sentimo-nos estimulados a tolerar mais os outros, a sermos mais afáveis, enfim, a mudarmos algo? Ou nos deslumbramos com os fenômenos que ele vivenciou, observando sua vida apenas como mais uma história interessante, que não contribui para nossa modificação íntima?

Francisco Cândido Xavier foi um dedicado e humilde medianeiro, responsável por centenas de mensagens de alento e instrução a milhões de almas. Por executar sua missão com tamanha dedicação, disciplina e renúncia, dedicando-se ao próximo em detrimento de quaisquer vantagens pessoais, agregou valor às elevadas mensagens que trazia do mundo espiritual. Exemplificou as palavras de Paulo na segunda carta aos coríntios: "Vós sois a nossa carta, escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos os homens, sendo manifesto que sois carta de Cristo, feita por nosso ministério, escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedras, mas em tábuas de carne de coração." (Segunda carta de Paulo aos coríntios 03:02-03).

Finalizamos com mais um episódio envolvendo dois Espíritos de escol, relatado por Ramiro Gama [1], para nossa reflexão.

"O Veterinário de Deus...

O nosso caro Chico Xavier, sobre sofrer moralmente, sofre também fisicamente.
Olhamos para sua fisionomia serena e irradiando bom humor e nem de leve sentimos o que lhe vai por dentro da alma cândida e sempre experimentada.
Além dos sofrimentos espirituais, possui uma maquinaria carnal, como a que possuímos, sempre em reparos...
A visão lhe é deficientíssima.
E, uma das vistas, além disto, lhe dói constantemente e, vez por outra, sangra e lacrimeja, trazendo-lhe dores pungentes.
Ao final de uma das Sessões de sexta-feira do Centro Espírita Luiz Gonzaga, em que atendeu, durante cinco horas seguidas, a mais de duas mil receitas, sua vista mais lesada sangrava e doía insuportavelmente.
O Dr. Bezerra, o abnegado Espírito receitista, já havia se ausentado, depois de haver, pelo Chico, respondido a todas as perguntas e solucionado infinidades de problemas íntimos...
Que fazer, pensava o querido Médium, em meio de uma assistência numerosa de Irmãos, que, nem de leve, lhe sentia a prova e que ainda se mostrava desejosa de receber, pelos seus abraços de despedida, mais algum benefício?
Nesta fase crucial, em que sofria material e moralmente, vê a seu lado o Espírito amoroso de Antonio Loreto Flores e lhe suplica humildemente:
- Irmão Flores, você que é um dos abnegados e sinceros pupilos do Dr. Bezerra, pede-lhe um remédio para meus olhos, pois sofro muito...
O Irmão Flores parte incontinente e aflito.
Daí a instantes chega com o Dr. Bezerra, que, olhando o Chico, se surpreende e lhe diz:
- Mas, Chico, por que você não me disse que estava passando mal da vista? Eu lhe teria medicado.
E o humilde Médium, emocionado por ver à sua frente o Espírito querido, todo iluminado, refletindo bondade, lhe pede:
- Dr. Bezerra, eu não lhe peço como gente, mas como uma Besta cheia de pisaduras, que precisa curar-se para continuar seu trabalho e ganhar seu pão de cada dia. Cure, pois, por caridade, os meus olhos doentes...
- Se você, caro Chico, é uma Besta e eu quem sou então? - retrucou-lhe o querido apóstolo.
- O Sr., Dr. Bezerra, exclama o Chico, é o Veterinário de Deus!...
Diante do estimado Médium classificar o Dr. Bezerra de Veterinário de Deus, esse, emocionado e surpreso pela resposta do Chico, volta-se para o lado e sorri... E o Médium conclui:
- Pela primeira vez, desde que trabalho com o Espírito querido do Kardec Brasileiro, vi-o sorrir e fiquei satisfeito.
Depois disto, colocou-me ele as mãos luminosas sobre a vista doente e senti-me, de imediato, melhorado.
Tudo se deu em minutos. Ninguém soube do sucedido.
Os abraços de despedida vieram.
E o Chico conseguiu partir para seu lar e dormir uma noite sem dores e sem lágrimas..."


Bons estudos!

Carla e Hendrio


Referência:
GAMA, Ramiro. "Lindos Casos de Bezerra de Menezes". 12ª ed. São Paulo, SP: LAKE, 1995. cap. 88 e 89.