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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O Céu e o inferno

“O Reino de Deus não vem com aparência visível. Nem dirão: Ei-lo aqui! ou: Ei-lo ali! porque o reino de Deus está dentro de vós.” (Lucas 17:20-21)

Céu
Allan Kardec, em sua obra “O Céu e o Inferno” [1], explica que o termo céu vem do grego coilos, passando para o latim cœlum, ambas as palavras significando “côncavo”. Na Antiguidade, cria-se que o Universo girava em esferas com a Terra em seu centro, sendo cada esfera vista de nosso Planeta como um côncavo. Nosso entendimento sobre a posição da Terra frente ao Universo muito já se modificou; amadureçamos, também, nossa visão de mundo sobre o que sejam céu e inferno.

Paraíso
A metáfora de o céu ser um local do Universo destinado aos escolhidos por Deus tem frequente associação ao termo paraíso. Em sua origem, porém, tanto o termo céu como paraíso não significavam isso. O pesquisador Carlos Torres Pastorino [2] pondera, a respeito da palavra paraíso:
“A palavra PARAÍSO, transcrição do persa pairi-daêza, é encontrada várias vezes no Antigo Testamento, com o sentido de ‘jardim plantado’, de ‘bosque’ ou ‘pomar’ amenos, mas sempre no solo da Terra, e não flutuando entre as nuvens. (...) Em outros passos no Antigo Testamento encontramos o termo parádeisos como local físico de deleite ameno: (...) “Os teus renovos são um pomar [parádeisos] de romãs, com frutos preciosos (...)” (Cânticos 04:13)
Percebemos, nessa passagem de Cânticos, a associação entre os frutos do trabalho de uma pessoa (seus renovos) e uma ambiência harmônica à sua volta, a começar em seu mundo interior.

Felicidade
“Estar no Céu” é, portanto, um estado de harmonia espiritual, sempre condicionado ao Bem que praticarmos, independente de nossa localização. Essa é a aplicação prática do ensino constante do Salmo 62 e depois corroborado por Jesus:
“A cada um segundo as suas obras.” (Salmos 62:12; Mateus 16:27)
A respeito da relação entre felicidade, prática constante do Bem e evolução, Kardec pondera:
“A felicidade está na razão direta do progresso realizado (...). Sendo a felicidade dos Espíritos inerente às suas qualidades, haurem-na eles em toda parte em que se encontram, seja à superfície da Terra, no meio dos encarnados, ou no Espaço. (...) A felicidade dos Espíritos bem-aventurados não consiste na ociosidade contemplativa (...). A vida espiritual em todos os seus graus é, ao contrário, uma constante atividade, mas atividade isenta de fadigas.” [3]

Onde está o Céu?
O Codificador da Doutrina Espírita conclui a respeito dessa questão:
“Em toda parte. Nenhum contorno lhe traça limites. Os mundos adiantados são as últimas estações do seu caminho, que as virtudes franqueiam e os vícios interditam. (...) Comparados à Terra, esses mundos são verdadeiros paraísos (...). Sendo a Terra um mundo inferior destinado à purificação dos Espíritos imperfeitos, está nisso a razão do mal que aí predomina, até que praza a Deus fazer dela morada de Espíritos mais adiantados.” [4]
À medida que evoluímos moral e intelectualmente, trabalhamos para conquistar o acesso a mundos mais adiantados, nos quais novas e superiores lições nos aguardam. Não obstante, o Céu é um estado de harmonia íntima: onde quer que estejamos, com nossa consciência tranquila pela prática de todo o Bem ao nosso semelhante que estiver ao nosso alcance, bem como buscando a sintonia com a Espiritualidade Superior pela prece, sempre estaremos num paraíso, ou seja, nosso ambiente espiritual estará tranquilo como um jardim ameno.
A respeito dos diferentes graus evolutivos de mundos, aconselhamos a leitura de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, no seu capítulo III (“Há muitas moradas na casa de meu Pai”), itens 03 a 05 (“Diferentes categorias de mundos habitados”). [5]

O “mundo inferior”
A expressão acima vem do latim infernum, também significando “profundezas”. A elevação de pensamento proporcionada pelo Bem se inicia no Espírito. De forma análoga, o rebaixamento vibratório pela ausência da prática do Bem é um estado de desarmonia no mundo interior, refletindo, também, no ambiente em que a pessoa se localiza, por afinidade com outros Espíritos em condição similar de pensamento, palavras e atos.

Causa e efeito
Na Antiguidade, não havia uma noção clara sobre a existência de um mundo espiritual; só se entendia o que fosse do mundo físico, e, assim, também físicas deveriam ser as consequências de quaisquer atos nossos. Na análise de Allan Kardec, lemos:
“Desde todas as épocas o homem acreditou, por intuição, que a vida futura seria feliz ou infeliz, conforme o bem ou o mal praticado neste mundo. (...) o homem primitivo naturalmente moldou o seu futuro pelo presente (...). Não estando ainda desenvolvido o sentido que mais tarde o levaria a compreender o mundo espiritual, não podia conceber senão penas materiais; e assim, com pequenas diferenças de forma, os infernos de todas as religiões se assemelham.” [6]
Nossa visão de mundo evoluiu; já nos é possível compreender a transcendência da vida. Tratemos, então, de também evoluir nossa visão de mundo acerca da lei de causa e efeito. Eliminando a causa de dores morais, ou seja, buscando constantemente a prática da Lei Divina e nos mantendo em paz com a consciência, local onde encontra-se inscrita a Lei de Deus (“O Livro dos Espíritos”, questão 621), eliminam-se, também, as causas de quaisquer sofrimentos, incluindo as dores físicas, as quais cessarão quando não mais precisarmos desses alertas para nossa retificação moral.

Inferno e medo
A figura de um local do Universo destinado a abrigar os que “ofenderam a Deus”, bem como a existência de um ou mais seres com poder para se opor a Deus e “roubar-lhe” almas, são ideias contrárias à do Criador infinitamente justo, inteligente e bom. Toda a Sua criação, tanto o espaço como os Espíritos, estão em constante evolução. Apesar disso, essas imagens têm sido, há muito tempo, utilizadas também como instrumentos para incutir medo e obter controle sobre as pessoas. Isso não é eficaz, não é caridoso e é desnecessário; não necessitamos de instrumentos de opressão para nos impelir à evolução. Esse tipo de recurso tem relação com a Humanidade primitiva, como analisa Kardec:

“(...) o homem é comumente mais sensível ao mal que ao bem; este lhe parece natural, ao passo que aquele mais o afeta. Nem por outra razão se explica, nos cultos primitivos, as cerimônias sempre mais numerosas em honra ao poder maléfico: o temor suplanta o reconhecimento.” [7]
Eis um desafio importante à nossa Humanidade atual, vivendo em um planeta em transição para mundo de Espíritos regenerados. Em vez de buscarmos o Bem, ainda precisamos temer o mal para contermos e eliminarmos nossas más tendências? Está na hora de o reconhecimento e busca pela prática do Bem ser-nos muito mais relevante do que o temor do mal.
O uso de figuras diabólicas como instrumento de controle pelo medo é ilustrado por André Luiz, no livro “Ação e Reação” [8], relatando a situação de uma mulher atormentada com a figura de um “demônio”, divulgada em livro do século XIX com a concordância de autoridades religiosas. Além de ser uma publicação não caridosa, esses tipos de imagem são utilizados por Espíritos temporariamente focados no mal, os quais podem modificar seu perispírito, seu corpo de matéria sutil, modelável pelo pensamento, e assumir essas formas assustadoras, implicando sofrimentos como o relatado nessa obra.
Devemos, também, ponderar que a ameaça do inferno não é eficaz para todos os encarnados. Esse recurso é especialmente inútil para os materialistas e para os mais intensamente ligados ao mal. Podemos concluir isso através do depoimento, trazido por via mediúnica, de Jacques Latour, um criminoso condenado à morte, a qual não temia por crer que, quando morresse, tudo acabaria, inclusive qualquer cobrança por seus erros — o que se verificou totalmente diferente de suas expectativas, pois a vida continua. Nas palavras de Jacques Latour:

“(...) Ora; um grande malfeitor não é um Espírito pusilânime, e o temor de um polícia é para ele mais real que a descrição dos tormentos do inferno. (...) Como insinuar (...) que uma alma, isto é, uma coisa imaterial, possa sofrer ao contato do fogo material? (...) por isso tantos e tantos criminosos se riem desses painéis fantásticos do inferno. O mesmo, porém, não se dá quanto à dor moral do condenado, após a morte física. Orai para que o desespero não se aposse de mim.” [9]

Do medo para a caridade
A Doutrina Espírita é o Consolador prometido por Jesus. Consolar é a união de dois termos do latim: cum + solis, ou seja, com + sol. O Sol é nossa referência de energia vital e calor; daí a expressão consolar ter o significado de levar iluminação e vitalidade às almas.
Cuidemos para nós, espíritas, não fazermos a mesma abordagem de medo das crenças primitivas, detalhando quadros terríveis de locais como o “vale dos suicidas” ou de obsessores implacáveis! Cada pessoa é uma história em particular; não há “tabela” no planejamento das vidas dos Espíritos, determinando que tais atos implicarão tanto tempo em determinado lugar; isso é abordagem coerente com as crenças primitivas do inferno, nas quais todos pagam da mesma forma, seja por que erro e em que contexto tenha ocorrido. Não mais necessitamos orientar pelo medo do mal, mas sim compartilhando o pouco que sabemos sobre a infinita evolução no Bem que aguarda a todos.

Sofrimentos “eternos”
Uma ideia comumente associada ao mito primitivo de inferno é o dos sofrimentos sem fim; a imagem de queimar “para sempre” num fogo que nunca apaga. Analisemos as palavras de Jesus:

“Se a tua mão te servir de pedra de tropeço [skándalon], corta-a; melhor é entrares na vida aleijado do que, tendo as duas mãos, ires para a geena, para o fogo inextinguível.” (Marcos 09:43)
Essa passagem evangélica traz importantes lições sobre a vida ser um processo, o qual demanda evolução constante, e não um projeto com início em nossa concepção, seguido de algumas décadas de existência e findo com a morte do corpo físico. O estado atual de nossa existência decorre do que fizemos com nossos recursos anteriormente. Se fizemos mau uso de um dos tantos presentes de Deus, não só recursos físicos como a mão, mas recursos espirituais como a inteligência, e se optamos por não aprender pelo amor, ou seja, pela prática do Bem, aprenderemos pela dor, ou seja, privados de algum recurso por algum tempo, para meditarmos sobre a falta que ele nos fez e buscarmos conquistar novamente o direito de dispor do mesmo.
A respeito da questão de penas “eternas”, como o “fogo inextinguível”, sugerimos a leitura da postagem “Penas ‘Eternas’”, neste Blog, contendo diversas citações da Codificação Espírita relativamente a esse tema. Por ora, atenhamo-nos à questão do fogo, a geena citada por Jesus.
O termo geena deriva da expressão hebraica Geh Ben Hinnóm, ou “Vale dos filhos de Hinom”, citada, por exemplo, no segundo livro de Reis. Trata-se de um vale, localizado junto à cidade de Jerusalém. Antes de os hebreus lá residirem, este vale era utilizado para rituais ao deus pagão Moloch, os quais consistiam em sacrifícios humanos utilizando fogo. O povo judeu utilizou este vale para incinerar o lixo da cidade de Jerusalém, bem como para queimar os corpos de indigentes e condenados à morte. Esse vale foi, portanto, um lugar por muito tempo associado ao fogo e a queimar criminosos. Por isso Jesus referiu a geena como um lugar de sofrimento. Vemos, à figura abaixo, como é a geena atualmente. Se a geena evoluiu, também nós evoluamos nossa visão sobre ela, bem como nosso entendimento de mundo.


Vale dos filhos de Hinom (Geena) [10]

Uma vez que eterno significa, em seu sentido original, algo de duração desconhecida ou entendida como muito grande, nós é que determinamos o tempo em que permaneceremos em algum sofrimento: quando abrirmos mão do orgulho e do egoísmo, dando lugar à humildade e ao altruísmo, nossas dores morais se abrandarão, com reflexos positivos em todos os aspectos de nossas vidas.
Não nos percamos em questões semânticas. Um dos princípios da Doutrina Espírita é o de que Deus é eterno, e, para Ele, utilizamos o sentido mais recente da palavra; ou seja, Deus não teve início nem terá fim. De forma coerente com o outro princípio doutrinário, qual seja, o de Deus ser a suprema justiça, inteligência e bondade, é lógico, para a questão de penas e sofrimentos, utilizarmos o sentido original de eterno, qual seja, o de uma duração desconhecida. Lembremos de trecho da resposta à questão 28 de “O Livro dos Espíritos”:

“Compete-vos a vós formular a vossa linguagem de maneira a vos entenderdes. As vossas controvérsias provêm, quase sempre, de não vos entenderdes acerca dos termos que empregais, por ser incompleta a vossa linguagem para exprimir o que não vos fere os sentidos.”

Agrupamentos por afinidades
Céu e inferno são, antes de tudo, estados de Espírito. Mesmo assim, há locais onde se agrupam Espíritos de acordo com suas afinidades. Há, portanto, cidades e mundos onde vivem Espíritos harmonizados, bem como locais onde temporariamente se agregam seres em sofrimento moral e físico. Isso não implica que esses últimos locais servirão “para sempre” como “infernos” ou “purgatórios”; tudo evolui; o mal é temporário e o Bem é definitivo.
Analisemos um diálogo entre Clarêncio e André Luiz [11] a esse respeito:

“– Orgulho, vaidade, tirania, egoísmo, preguiça e crueldade são vícios da mente, gerando perturbações e doenças em seus instrumentos de expressão.
– É por isso que temos os vales purgatoriais, depois do túmulo... a morte não é redenção...
– Nunca foi (...). O pássaro doente não se retira da condição de enfermo, tão só porque se lhe arrebente a gaiola. O inferno é uma criação de almas desequilibradas que se ajuntam, assim como o charco é uma coleção de núcleos lodacentos, que se congregam uns aos outros.”

Purgatório
André Luiz, em sua reflexão, cita os “vales purgatoriais”. Como a Doutrina Espírita analisa a figura do purgatório? Estudemos as palavras de Kardec:

“Em cada existência, uma ocasião se depara à alma para dar um passo avante; de sua vontade depende a maior ou menor extensão desse passo: franquear muitos degraus ou ficar no mesmo ponto. (...) É, pois, nas sucessivas encarnações que a alma se despoja das suas imperfeições, que se purga, em uma palavra, até que esteja bastante pura para deixar os mundos de expiação como a Terra, onde os homens expiam o passado e o presente, em proveito do futuro.” [12]

Preparo na Luz para superar as sombras
Ninguém jamais está desamparado. Mesmo os Espíritos em situação moral mais degradada continuam a ser filhos do mesmo Deus, amados por Ele, o qual criou a todos fadados à evolução no caminho da perfeição. Sendo assim, mesmo nos lugares onde temporariamente convivem os sentimentos e pensamentos mais deprimentes, há Espíritos focados no Bem, auxiliando a todos que se cansem do mal, pois o mal se consome por si mesmo.
Nos locais onde as sombras são mais densas, mais preparados na Luz são os Espíritos que atuam em missões de consolação e amparo. Na obra “No Mundo Maior”, André Luiz exprime sua vontade de acessar abismos purgatoriais para relatar o que observaria em seus livros. A diretora dos trabalhos, Cipriana, orienta:

“(...) a sugestão (...) é valiosa, em se tratando de observações preliminares no Baixo Umbral. Como responsável, porém, pelos serviços diretos da expedição, não posso admiti-lo, por enquanto, em todas as particularidades. (...) Nosso estimado André não tem o curso de assistência aos sofredores nas sombras espessas.” [13]
Onde houver dores morais mais intensas, tanto mais preparados no Bem são os Espíritos atuando na assistência àqueles irmãos em Deus. Podemos fazer uma analogia com um centro médico de alta complexidade, no qual enfermidades graves são objeto de atenção de equipes altamente preparadas.
Preparemo-nos, também nós, na prática do Bem, buscando orientação para bem praticá-lo através da prece, visando a auxiliar a nós mesmos e ao nosso semelhante, erigindo o Céu em nós, em nosso ambiente e em nosso mundo.


Leia também, neste Blog, as postagens “O Bem e o Mal”, “A Influência de ‘Maus’ Espíritos” e “Penas ‘Eternas’”.




Bons estudos!
Carla e Hendrio


Referências:
 [1] KARDEC, Allan. “O Céu e o Inferno”. 37.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1991. Primeira parte, capítulo III (“O céu”), item 01.
[2] PASTORINO, Carlos Torres. “Sabedoria do Evangelho”. Rio de Janeiro, RJ: Sabedoria, 1964. Volume 8, capítulo “Zombarias”.
[3] KARDEC, Allan. “O Céu e o Inferno”. 37.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1991. Primeira parte, capítulo III (“O céu”), itens 06 e 12.
[4] Ibidem. Itens 11 e 18.
[5] KARDEC, Allan. “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. 97.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Capítulo III (“Há muitas moradas na casa de meu Pai”), itens 03 a 05 (“Diferentes categorias de mundos habitados”).
[6] KARDEC, Allan. “O Céu e o Inferno”. 37.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1991. Primeira parte, capítulo IV (“O inferno”), itens 01 e 02;
[7] Ibidem. Capítulo IX (“Os demônios”), item 3;
[8] XAVIER, Francisco Cândido. “Ação e Reação”. Pelo Espírito André Luiz. 28.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 2007. Capítulo 04.
[9] KARDEC, Allan. “O Céu e o Inferno”. 37.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1991. Segunda parte, capítulo VI (“Criminosos arrependidos”), depoimentos de Jacques Latour, itens I e III.
[10] Wikipédia. Palavra Geena. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Geena. Acesso em 06/out/2011.
[11] XAVIER, Francisco Cândido. “Entre a Terra e o Céu”. Pelo Espírito André Luiz. 17.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1997. Capítulo XXI.
[12] KARDEC, Allan. “O Céu e o Inferno”. 37.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1991. Primeira parte, capítulo V (“O purgatório”), item 4.
[13] XAVIER, Francisco Cândido. “No Mundo Maior”. Pelo Espírito André Luiz. 20ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1995. Capítulo 17.



quinta-feira, 19 de maio de 2011

Refletindo sobre Deus

O evangelista Marcos relata uma ocasião em que um dos escribas se aproximou de Jesus e perguntou sobre qual o maior dos mandamentos. O Mestre então responde:
“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de todas as tuas forças.” (Marcos 12:30)
Jesus, como veio dar cumprimento à lei (Mateus 05:17), não trouxe, no amar a Deus, mandamento novo, pois esse mandamento já estava escrito no Velho Testamento, no livro Deuteronômio. Lá, no entanto, o mandamento está simplificado, pois diz:
“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força.” (Deuteronômio 06:05)
A diferença entre as duas citações é a passagem “de todo o teu entendimento”. Busquemos, então, atingir um melhor entendimento sobre Deus, nosso Pai.


O que é refletir sobre Deus?

Não é possível a nós, criaturas, definir precisamente Deus, o Criador. O que podemos, como Jesus nos recomendou, é, pouco a pouco, melhorar o nosso entendimento sobre Deus, a cada dia, a cada vivência, a cada estudo, se nós estivemos atentos, despertos e dispostos a isso. Essa compreensão sobre Deus está condicionada ao nosso aperfeiçoamento, ao nosso progresso, tanto moral quanto intelectual, pois até mesmo quando a Ciência consegue explicar uma lei que rege o Universo, vemos aí a inteligência de Deus que já previu todo o fenômeno, e nós estamos, através do trabalho, do nosso esforço, compreendendo um pouco mais a Inteligência que rege tudo. E isso falando apenas em termos materiais... e quanto às ciências da alma, do amor? Quanto a aprender... Por isso, preferimos utilizar o verbo refletir.

Quando procuramos no dicionário a definição do verbo refletir, encontramos [1]:
  • Como verbo transitivo indireto (verbo que precisa de complemento com preposição, como a palavra “sobre”), refletir significa pensar maduramente, meditar, reflexionar. Esse o sentido que pensamos inicialmente, refletir sobre Deus. No entanto, esse verbo ainda traz um outro significado:
  • Como verbo transitivo direto (verbo cujo complemento é sem preposição), percebemos que o termo traduz nossa evoluída atitude futura, o que Jesus, como nosso modelo, já conseguiu e veio nos ensinar, que é “refletir Deus”, ou seja, deixar ver; revelar, mostrar, traduzir, através de nós, todo amor de Deus.
Outra palavra que vamos utilizar nessa nossa reflexão sobre Deus é “conceito”, que, segundo o dicionário, quer dizer: “ação de formular uma ideia por meio de palavras; definição, caracterização. Pensamento, ideia, opinião”.

Assim, os nossos objetivos são, primeiramente, apresentar o conceito de Deus segundo a Doutrina Espírita, convidando à comparação desse conceito com aqueles que já construímos; e, em sequência, refletir sobre o efeito desses conceitos em nossa vida.


Conceitos de Deus ao longo da história da Humanidade

O homem primitivo, ainda muito ligado à vida material, pois tinha de sobreviver num mundo hostil, tinha consciência íntima de Deus e transportava esse sentimento para os fenômenos e coisas da natureza, adorando o Sol, a Lua, o Céu, o Trovão, os Bosques...

Consideremos a questão 06 de “O Livro dos Espíritos”. Kardec dirigiu aos Espíritos Superiores a seguinte questão:
“O sentimento íntimo que temos da existência de Deus não poderia ser fruto da educação, resultado de ideias adquiridas?” [2]
Ou seja, vemos que nós já temos um sentimento íntimo da existência de Deus. Muitos podem até não concordar com a existência de Deus como lhe é apresentado, como um velhinho de barbas compridas, por exemplo. Mas o sentimento de que existe algo superior, nós temos. Kardec questiona – será que nós temos esse sentimento porque fomos ensinados a isso? Os Espíritos Superiores responderam:
“Se assim fosse, por que existiria nos vossos selvagens esse sentimento?” [2]
É exatamente o que acontece com o homem primitivo. Ninguém ensinou o homem das cavernas a adorar os fenômenos da Natureza. Esse sentimento já estava presente nele, pois ele tinha a consciência íntima de Deus; porém, o seu desenvolvimento só comportava esse tipo de adoração às coisas materiais. Era o que ele via e vivenciava; não havia ainda condições para maiores abstrações do pensamento.

Kardec retoma essa pergunta, de um modo diferente, quando estuda as leis naturais, na parte terceira de “O Livro dos Espíritos”, a seção que trata das leis morais, no Capítulo II, sobre a Lei de adoração. Nesse capítulo, na questão 650, encontramos:
“Origina-se de um sentimento inato a adoração, ou é fruto de ensino?
Sentimento inato, como o da existência de Deus. A consciência de sua fraqueza leva o homem a curvar-se diante daquele que o pode proteger.” [3]
Avançando na História, obsevamos que os povos da Antiguidade, como os sumérios, babilônios, assírios e caldeus, eram politeístas, ou seja, acreditavam na existência de vários deuses.

Os gregos também eram politeístas, e pela Mitologia, cada coisa tinha o seu Deus respectivo e cada Deus a sua tarefa e função definida, e com isso havia uma explicação sobre certos fenômenos da vida da Terra e do Universo. Os romanos adotaram deuses gregos como seus, apenas com a mudança dos nomes. Desta forma, tínhamos Zeus na Grécia, que ficou sendo Júpiter em Roma, e assim por diante.

Já os persas, através de Zoroastro, acreditavam na existência de dois poderes, o Bem e o Mal. Percebe-se um passo em direção à ideia monoteísta, ou seja, de um deus único, pois antes de Zoroastro, os persas também eram politeístas, como os demais povos.

Os egípcios tinham os seus deuses para o povo em geral, porém os sacerdotes cultuavam, em segredo, uma Inteligência Una, regente do Cosmo.

Os hebreus adoravam e cultuavam um Deus único, Jeová, Senhor dos Exércitos. No livro Êxodo, do Velho Testamento, no capítulo XX, quando começa o Decálogo, ou seja, os 10 mandamentos, vemos o primeiro mandamento que traduz a ideia de Deus daquele povo:
“Eu sou o Senhor, vosso Deus, que vos tirei do Egito, da casa da servidão. Não tereis diante de mim, outros deuses estrangeiros – Não fareis imagem esculpida, nem figura alguma do que está em cima no céu, nem em baixo, na Terra, nem do que quer que esteja nas águas sob a terra. Não os adorareis e não lhes prestareis culto soberano (...)”. (Êxodo 20:02-05)
Vemos, nesse trecho, uma abordagem diferente de tudo o que tínhamos antes como ideia de Deus. Não mais uma forma, qualquer que fosse, para o representá-lo; não mais vários deuses, mas um só Deus.

Continuando este breve relato histórico do conceito de Deus ao longo do tempo, temos o ponto máximo com Jesus, que mantém a ideia de Deus único, do povo hebreu, e estende esse entendimento para o Deus Pai.

Há várias passagens evangélicas em que Jesus se refere a Deus como Pai, mas destacamos a registrada por Mateus, em seu capítulo 6, versículos 09 a 13, bem como por Lucas, no capítulo 11, versículos 02 a 04, que é a prece do Pai Nosso, quando Jesus nos ensina a orar.

Outra passagem que destacamos é a que Jesus conversa com a mulher samaritana e diz, conforme o relato de João:
“Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e verdade.” (João 04:23-24)
É outro salto evolutivo: entender que não precisamos de nada material para adorar a Deus.

Finalizamos nossa viagem histórica abordando o conceito de Deus segundo a Doutrina Espírita [4], o qual não difere do conceito trazido por Jesus. Façamos um breve comparativo entre o conceito de Deus segundo Moisés e segundo Jesus:

Segundo Moisés Segundo Jesus
Deus único, Soberano Senhor e Orientador de todas as coisas Deus único, Pai
Terrível, ciumento Soberanamente justo e bom
Vingativo, cruel, implacável Imparcial
Rega a terra com sangue humano Deus que vê o pensamento e não se honra com a forma
Deus dos exércitos Deus de misericórdia
Deus único de um único povo privilegiado Pai comum de todo o gênero humano
Deus que quer ser temido Deus que quer ser amado

Resumindo esse apanhado histórico, o conceito de Deus começou relacionado a fenômenos da Natureza — muitos deuses; passou para a representação humana desses muitos deuses (como vemos com os gregos e romanos); com os hebreus, chegou ao entendimento de que Deus é único e não tem forma definida, mas ainda com sentimentos humanos (ficando com raiva e vingando-se); e Jesus nos traz o conceito de Deus único, imaterial e com sentimentos sublimes.

Foto: Hendrio Belfort


Qual o nosso entendimento sobre Deus?

Kardec, no estudo que faz na Gênese, ainda no capítulo I, Caráter da Revelação Espírita, conclui, dizendo:
“Toda a doutrina do Cristo se funda no caráter que ele atribui à Divindade. Com um Deus imparcial, soberanamente justo, bom e misericordioso, ele fez do amor de Deus e da caridade para com o próximo a condição indeclinável da salvação, dizendo: Amai a Deus sobre todas as coisas e o vosso próximo como a vós mesmos; nisto estão toda a lei e os profetas; não existe outra lei.” [4]
Se Jesus nos disse que devemos amar a Deus de todo o nosso entendimento, qual é o nosso entendimento de Deus, hoje? Meditemos a respeito; não é necessário comentar com ninguém, é algo só nosso, para que, de forma escrita ou no pensamento, possamos refletir qual é o nosso, pessoal e intransferível, entendimento sobre Deus.


O Consolador relembra e complementa os ensinos de Jesus sobre Deus

João registrou em seu Evangelho, que Jesus afirmou não ter podido trazer um conjunto completo de esclarecimentos:
“Tenho ainda muito que vos dizer, mas não o podeis suportar agora.” (João 16:12)

“Mais tarde, porém, enviar-vos-ei o Consolador, o Espírito de Verdade, que restabelecerá todas as coisas e vo-las explicará todas.” (João 14:16, 17 e 26)
Nós também estamos evoluindo ao longo do tempo. Coisas que na época de Jesus eram desconhecidas ou inexplicáveis, hoje a Ciência veio nos explicar e compreendemos e, principalmente, usufruímos. Da mesma forma, o ensino de Jesus, como Ele mesmo previu, seria deturpado, se afastaria da pureza inicial, e deveria ser restabelecido. E, entre esses ensinos, o próprio entendimento de Deus.

E qual é o Consolador Prometido? O Espiritismo.
“O Espiritismo, partindo das próprias palavras do Cristo, como este partiu das de Moisés, é consequência direta da sua doutrina. (...) Pelo Espiritismo, o homem sabe donde vem, para onde vai, por que está na Terra, por que sofre temporariamente e vê por toda parte a justiça de Deus.(...)” [5]
A partir desse entendimento, como Kardec estruturou todo o conhecimento que obteve através dos questionamentos aos Espíritos e o estudo de suas respostas? Qual foi a base?

Observemos que, no primeiro livro da Codificação Espírita – “O Livro dos Espíritos”, na 1ª Parte – Das causas primárias, primeiro capítulo – De Deus, a primeira pergunta dirigida aos Espíritos Superiores é:
“Que é Deus?” [6]
Por que essa preocupação em começar com o entendimento acerca de Deus? Porque, a partir desse entendimento, se desenvolvem toda a filosofia e toda a religião. Aqueles que não entenderam Deus como o ser onipotente, ou seja, com todo o poder, tiveram que imaginar muitos deuses. Aqueles que não entenderam Deus como a suprema bondade e justiça, tiveram de imaginar um Deus colérico, parcial, vingativo. E, principalmente, porque, de acordo com a ideia que fazemos de Deus, pautamos a nossa vida.

Kardec demonstra, assim, que o Espiritismo tem na existência de Deus o seu primeiro princípio basilar.

A primeira pergunta de Kardec já traz um entendimento importante: Deus não é uma pessoa, pois, caso contrário, Kardec teria perguntado quem é Deus. Interessante notar que Kardec não perguntou “Quem é Deus?”, pois se assim fizesse, já estaria induzindo uma resposta, estaria dando um sentido de personificação, uma ideia antropomórfica, ou seja, estaria imaginando Deus com a figura de um homem, velho ou jovem. Ao longo do tempo, nós trouxemos Deus até a nossa pequenez, demos-lhe até a forma humana... Mas com Moisés e Jesus já temos o entendimento de que somos nós que devemos nos esforçar para subir até Ele — nós é que precisamos nos aproximar de Deus, e não humanizar Deus.

Também Kardec não perguntou “O que é Deus?”, regido por artigo, porque aí estaria “coisificando” Deus, já que o artigo definido masculino singular é utilizado para definir coisas. Até a pergunta tem a sua ciência, e fica o convite de, sempre que possível, em nossos estudos, prestarmos atenção não só à resposta, mas também à pergunta que Allan Kardec elaborou, pacientemente, com sabedoria, para obter a resposta mais completa, mais alinhada com o que ele queria realmente saber. “Que é Deus” deixa aos Espíritos a liberdade de responderem sem induções, sem ideias pré-concebidas.

Abrindo “O Livro dos Espíritos”, então, à primeira questão, os Espíritos Superiores responderam, em síntese brilhante:
“Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.” [6]
Sendo Causa Primária, é o criador de tudo. E sendo a Inteligência Suprema, nossa inteligência, ainda não desenvolvida, não tem condições de alcançá-Lo e entendê-Lo em plenitude.

Kardec continua:
“Poder-se-ia dizer que Deus é o infinito?” [7]
Lembremos que o infinito tem relação com aquilo que desconhecemos. É como se inventássemos uma palavra nova, uma palavra que não tem sentido para nós porque não conhecemos, e quiséssemos dizer que Deus é esta palavra. Não estaríamos esclarecendo nada, porque desconhecemos o sentido do novo termo. Assim também os Espíritos respondem, à questão 02 de “O Livro dos Espíritos”, que dizer que Deus é o infinito é uma pobreza de linguagem humana, uma definição insuficiente, incompleta, que não consegue definir o que está acima da linguagem humana.

Kardec apresenta um comentário a essa resposta. Ele diz:
“Deus é infinito em suas perfeições, mas o infinito é uma abstração. Dizer que Deus é o infinito é tomar o atributo de uma coisa pela coisa mesma, é definir uma coisa que não está conhecida por uma outra que não o está mais do que a primeira.” [7]
Deus é o máximo em tudo que podemos imaginar. Mas não podemos dizer que Ele é o infinito; seria tomar o atributo, a qualidade, pela coisa mesma. Assim, ser infinito é uma das qualidades ou atributos de Deus e não podemos definir “algo” por seus atributos.

Acompanhemos mais algumas questões sobre Deus:
“Pode o homem compreender a natureza íntima de Deus?
Não; falta-lhe para isso o sentido.”

“Será dado um dia ao homem compreender o mistério da Divindade?
Quando não mais tiver o espírito obscurecido pela matéria. Quando, pela sua perfeição, se houver aproximado de Deus, ele o verá e compreenderá.” [8]
Para compreender a Deus plenamente, falta-nos o sentido, que só poderá ser adquirido por meio da completa depuração do Espírito, ou seja, quando formos evoluídos.

Então isso significa que nosso entendimento de Deus deve ser nulo? Definitivamente não deve ser assim, daí o nosso esforço para, dentro das nossas possibilidades, formar a ideia mais clara e mais verdadeira de Deus. Essa foi a mesma preocupação de Kardec, quando perguntou:

“Embora não possamos compreender a natureza íntima de Deus, podemos formar ideia de algumas de suas perfeições?
De algumas, sim. O homem as compreende melhor à proporção que se eleva acima da matéria. Entrevê-as pelo pensamento.”

“Quando dizemos que Deus é eterno, infinito, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom, temos ideia completa de seus atributos?
Do vosso ponto de vista, sim, porque credes abranger tudo. Sabei, porém, que há coisas que estão acima da inteligência do homem mais inteligente, as quais a vossa linguagem, restrita às vossas ideias e sensações, não tem meios de exprimir. A razão, com efeito, vos diz que Deus deve possuir em grau supremo essas perfeições, porquanto, se uma lhe faltasse, ou não fosse infinita, já ele não seria superior a tudo, não seria, por conseguinte, Deus. Para estar acima de todas as coisas, Deus tem que se achar isento de qualquer vicissitude e de qualquer das imperfeições que a imaginação possa conceber.” [9]

Deus é:
  • A suprema e soberana inteligência – a inteligência do homem é limitada, pois não pode compreender tudo o que existe. A de Deus, tem de ser infinita.
  • Eterno – sem começo e sem fim.
  • Imutável – se estivesse sujeito a mudanças, as leis que regem o Universo nenhuma estabilidade teriam.
  • Imaterial – sua natureza difere de tudo o que chamamos de matéria. Se fosse material, não seria imutável.
  • Único – se muitos deuses houvesse, não haveria unidade no Universo.
  • Onipotente – se não possuísse o poder supremo, sempre se poderia conceber um ser mais poderoso, até o fim da escala. Esse ser seria Deus.
  • Soberanamente justo e bom – a sabedoria das leis divinas se revela em tudo, nas pequenas e nas grandes coisas.
  • Infinitamente perfeito – é impossível conceber-se Deus sem o infinito das perfeições, sem o que sempre se poderia conceber um ser que possuísse o que lhe faltasse.

“As descobertas que a Ciência realiza, longe de o rebaixarem, glorificam a Deus; unicamente destroem o que os homens edificaram sobre as falsas ideias que formaram de Deus.” [10]


Refletir sobre Deus...

Tomemos um ou mais dos atributos de Deus, listados acima, e pensemos, com nossas próprias palavras, ideias e valores, em sua importância para nossas vidas. Alguns exemplos:

  • Quando penso na imutabilidade de Deus, considero que suas leis também são imutáveis e que sou eu que devo esforçar-me por compreendê-las e cumpri-las. Quem precisa se transformar sou eu. A imutabilidade de Deus é um ponto de segurança em meio a mutabilidade de tudo na vida.
    Como Deus é imutável, eu transformo-me, aprimoro-me, para aproximar-me cada vez mais de Deus.
  • Quando penso que Deus é soberanamente justo e bom, considero que tudo o que ocorre é para meu aprimoramento, mesmo o que nos parece negativo neste momento. Tudo são lições para sermos melhores.
    Como Deus é soberanamente justo e bom, eu preciso desenvolver minha fé para sentir-me amparada(o) em todos os momentos.


Que Jesus continue protegendo-nos e fortalecendo-nos para, cada vez com mais decisão e coragem, seguirmos o caminho que nos levará a Deus.


Bons estudos!
Carla e Hendrio


Referências:

[1] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. “Novo Aurélio Século XXI”, 1999, verbetes Refletir e Conceito.
[2] KARDEC, Allan. “O Livro dos Espíritos”. 66ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Questão 06.
[3] Ibidem. Questão 650.
[4] KARDEC, Allan. “A Gênese”. 34.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1991. Capítulo I (“Caráter da Revelação Espírita”), itens 21 a 25.
[5] Ibidem, item 30.
[6] KARDEC, Allan. “O Livro dos Espíritos”. 66ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Questão 01.
[7] Ibidem. Questão 03.
[8] Ibidem. Questões 10 e 11.
[9] Ibidem. Questões 12 e 13.
[10] KARDEC, Allan. “A Gênese”. 34.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1991. Capítulo I (“Caráter da Revelação Espírita”), item 55.


segunda-feira, 18 de abril de 2011

154 anos do Consolador Prometido

Em 18 de abril de 1857, o mundo tomou contato com o Consolador prometido por Jesus.

Participemos de um dia na vida de Allan Kardec, o Codificador da Doutrina Espírita, através da história narrada pelo Espírito Hilário Silva [1] e dividida em três partes. A cada trecho, analisemos o que podemos apreender sobre a história do Espiritismo.
“I

Allan Kardec, o Codificador da Doutrina Espírita, naquela triste manhã de abril de 1860, estava exausto, acabrunhado.
Fazia frio.
Muito embora a consolidação da Sociedade Espírita de Paris e a promissora venda de livros, escasseava o dinheiro para a obra gigantesca que os Espíritos Superiores lhe haviam colocado nas mãos.
A pressão aumentava...
Missivas sarcásticas avolumavam-se à mesa.
Quando mais desalentado se mostrava, chega a paciente esposa, Madame Rivail — a doce Gaby —, a entregar-lhe certa encomenda, cuidadosamente apresentada.”

Allan Kardec foi o pseudônimo adotado pelo professor Hippolyte Léon Denizard Rivail para diferenciar a obra que se iniciava — a Doutrina Espírita — de seus demais livros já publicados sobre educação. Como surgiu a Doutrina Espírita, o Consolador Prometido?

Vamos retroceder alguns anos antes daquele da narrativa de Hilário Silva: França, 1854.

O professor Rivail, como todos na Europa, também ouve falar do fenômeno das mesas girantes (que consistiam em pessoas sentarem-se ao redor de uma mesa e, após algum tempo, a mesa movimentar-se — geralmente eram mesas redondas que giravam), através de um amigo chamado Fortier.

É no livro Obras Póstumas [2] que Kardec relata como foi esse primeiro contato com o fenômeno.

O Sr. Fortier, o qual, como o próprio professor Rivail, era estudioso do Magnetismo, disse-lhe:
“Já sabe da singular propriedade que se acaba de descobrir no Magnetismo? Parece que já não são somente as pessoas que se podem magnetizar, mas também as mesas, conseguindo-se que elas girem e caminhem à vontade.”
Rivail responde: — “É, com efeito, muito singular; mas, a rigor, isso não me parece radicalmente impossível. O fluido magnético, que é uma espécie de eletricidade, pode perfeitamente atuar sobre os corpos inertes e fazer que eles se movam.”
Algum tempo depois, Rivail encontra-se novamente com o Sr. Fortier, que disse:
“— Temos uma coisa muito mais extraordinária; não só se consegue que uma mesa se mova, magnetizando-a, como também que fale. Interrogada, ela responde.
E Rivail considera: “ — Isto agora é outra questão. Só acreditarei quando o vir e quando me provarem que uma mesa tem cérebro para pensar, nervos para sentir e que possa tornar-se sonâmbula. Até lá, permita que eu não veja no caso mais do que um conto para fazer-nos dormir em pé.”
Em 1855, o Prof. Rivail encontrou-se com Sr. Carlotti, também seu amigo, que falou daqueles fenômenos durante cerca de uma hora, com muito entusiasmo. Foi o primeiro que falou na intervenção dos Espíritos e contou tantas coisas surpreendentes que, longe de convencer, aumentaram as dúvidas do professor Rivail.

Em maio de 1855, o professor Rivail encontrou-se com o Sr. Pâtier, que lhe falou dos mesmos fenômenos que o Sr. Carlotti tinha se pronunciado, mas em tom muito diverso, já que o Sr. Pâtier era já de certa idade, muito instruído, de caráter grave, frio e calmo. Sua linguagem pausada, isenta de todo entusiasmo, produziu no Prof. Rivail viva impressão. Nessa ocasião, o professor Rivail foi convidado a assistir às experiências que se realizavam em casa da Sra. Plainemaison, e ele aceitou.

Ele descreve em suas memórias:
“Foi aí que, pela primeira vez, presenciei o fenômeno das mesas que giravam, saltavam e corriam, em condições tais que não deixavam lugar para qualquer dúvida. Eu entrevia, naquelas aparentes futilidades, no passatempo que faziam daqueles fenômenos, qualquer coisa de sério, como que a revelação de uma nova lei, que tomei a mim estudar a fundo.”
A princípio, Rivail objetivava apenas sua própria instrução. E como Rivail estudava? Observemos como ele nos descreve:
“Levava para cada sessão uma série de questões preparadas e metodicamente dispostas. (...)”
Fica a pergunta para nós, em todas as áreas do conhecimento, não só no estudo do Espiritismo: será que levamos tão a sério um estudo, a ponto de comparecermos a uma reunião já com o tema estudado e com questões previamente formuladas, de modo a realmente nos instruirmos, aprendermos? Se ainda não fazemos, fica a sugestão, não nossa, mas do próprio Codificador...

Ele complementa que:
“Eu, a princípio, cuidara apenas de instruir-me; mais tarde, quando vi que aquilo constituía um todo e ganhava as proporções de uma doutrina, tive a ideia de publicar os ensinos recebidos, para instrução de toda a gente. Foram aquelas mesmas questões que, sucessivamente desenvolvidas e completadas, constituíram a base de O Livro dos Espíritos.”
Por que chamamos Kardec de O Codificador do Espiritismo?
Codificar significa reunir em código (reunir as leis de modo ordenado). O Codificador é aquele que faz a codificação, ou seja, essa reunião em código.
E o que o Prof. Rivail fez? Exatamente isso:
  • Nunca formulou teorias pré-concebidas;
  • Observou atentamente;
  • Comparou;
  • Deduziu as consequências;
  • Procurou sempre a razão e a lógica dos fatos;
  • Interrogou os Espíritos, anotou e ordenou os dados que obteve.
Por isso é chamado Codificador do Espiritismo.

A Codificação Espírita está representada nas 5 obras publicadas por Allan Kardec, que são:
  • 1857 – O Livro dos Espíritos;
  • 1861 – O Livro dos Médiuns (desenvolvimento da 2ª parte de O Livro dos Espíritos – a parte experimental);
  • 1864 – O Evangelho Segundo o Espiritismo (desenvolvimento da 3ª parte de O Livro dos Espíritos — As Leis Morais);
  • 1865 – O Céu e o Inferno (desenvolvimento da 4ª parte de O Livro dos Espíritos — Das penas e gozos presentes e futuros);
  • 1868 – A Gênese (desenvolvimento da 1ª parte de O Livro dos Espíritos — das Causas Primárias — e explicação sobre os milagres e as predições).
Lembramos, também, outras obras que devem ser consultadas e estudadas por quem se interessa pela Doutrina Espírita, que são:
  • 1858 – Revista Espírita, publicação mensal que continuou dirigida por Kardec até sua desencarnação, em 1869;
  • 1859 – O Que É o Espiritismo (recomendado pelo próprio Codificador para iniciar o estudo do Espiritismo, antes mesmo da leitura de O Livro dos Espíritos, conforme sua orientação em O Livro dos Médiuns, Primeira Parte. Cap. III – Do Método, item 35) — Contém sumária exposição dos princípios da Doutrina Espírita e as respostas às principais questões ou objeções que os novatos se sentem naturalmente propensos a fazer.
Continuando a nossa história...
“II

O professor abriu o embrulho, encontrando uma carta singela. E leu:
‘Sr. Allan Kardec:
Respeitoso abraço.
Com a minha gratidão, remeto-lhe o livro anexo, bem como a sua história, rogando-lhe, antes de tudo, prosseguir em suas tarefas de esclarecimento da Humanidade, pois tenho fortes razões para isso.
(...) Há cerca de dois anos casei-me com aquela que se revelou minha companheira ideal. (...) no início deste ano, de modo inesperado, minha Antoinette partiu desta vida, levada por sorrateira moléstia.
(...) Sem confiança em Deus, sentindo as necessidades do homem do mundo e vivendo com as dúvidas aflitivas de nosso século, resolvera seguir o caminho de tantos outros, ante a fatalidade...
(...) Namorara diversas vezes o [rio] Sena e acabei planeando o suicídio. ‘Seria fácil, não sei nadar’ — pensava.
Sucediam-se noites de insônia e dias de angústia. Em madrugada fria, quando as preocupações e o desânimo me dominaram mais fortemente, busquei a Ponte Marie.
Olhei em torno, contemplando a corrente... E, ao fixar a mão direita para atirar-me, toquei um objeto algo molhado que se deslocou da amurada, caindo-me aos pés.
Surpreendido, distingui um livro que o orvalho umedecera.
Tomei o volume nas mãos e, procurando a luz mortiça de poste vizinho, pude ler, logo no frontispício, entre irritado e curioso:
‘Esta obra salvou-me a vida. Leia-a com atenção e tenha bom proveito. – A. Laurent.’
Estupefato, li a obra — ‘O Livro dos Espíritos’ — ao qual acrescentei breve mensagem, volume esse que passo às suas mãos abnegadas, autorizando o distinto amigo a fazer dele o que lhe aprouver.”
Ainda constavam da mensagem agradecimentos finais, a assinatura, a data e o endereço do remetente.
O Codificador desempacotou, então, um exemplar de ‘O Livro dos Espíritos’ ricamente encadernado, em cuja capa viu as iniciais do seu pseudônimo e na página do frontispício, levemente manchada, leu com emoção não somente a observação a que o missivista se referira, mas também outra, em letra firme:
‘Salvou-me também. Deus abençoe as almas que cooperaram em sua publicação. — Joseph Perrier.’”

A segunda parte da narrativa de Hilário Silva aponta o severo impacto psicológico que a chamada “perda” de um ente querido, no caso a esposa do autor da carta, lhe trouxe, a ponto de pensar em desistir de viver.

Neste aspecto, a Doutrina Espírita traz preciosa contribuição. As Leis Divinas que o Espiritismo nos convida a estudar, apreender e perceber, nos mostra que a vida continua, bem como também continuam nossos laços de afeto com aqueles que amamos. Conforme nos orienta o Codificador em seus comentários à questão 936 de “O Livro dos Espíritos” [4]:
“Pelas provas patentes, que ministra, da vida futura, da presença, em torno de nós, daqueles a quem amamos, da continuidade da afeição e da solicitude que nos dispensavam; pelas relações que nos faculta manter com eles, a Doutrina Espírita nos oferece suprema consolação, por ocasião de uma das mais legítimas dores.
Com o Espiritismo, não mais solidão, não mais abandono: o homem, por muito insulado que esteja, tem sempre perto de si amigos com quem pode comunicar-se.”
O Espiritismo não nos ensina a sermos indiferentes à morte, insensíveis à desencarnação de quem amamos. Como lemos acima, o próprio Codificador a considera uma legítima dor. O que a Doutrina Espírita nos ensina é que, juntamente à dor, não podemos nutrir o desespero, a revolta, sentimentos de vingança e outras vibrações inferiores e deprimentes.

A esse respeito, o notável Francisco Cândido Xavier, na entrevista que concedeu ao programa “Pinga Fogo” de 28 de julho de 1971, também traz importantes esclarecimentos. Uma telespectadora do programa, por telefone, lhe endereçou o seguinte questionamento: “Perdi um filho há um ano. Choro muito. Quero saber se as minhas lágrimas estão prejudicando meu filho.” O apóstolo da mediunidade assim respondeu:
“Quando as lágrimas nascem do nosso reconhecimento a Deus pelos benefícios que recebemos; quando as lágrimas refletem a nossa saudade tocada de esperança, os nossos amigos desencarnados nos dizem que as lágrimas fazem a eles muito bem, porque elas são luzes no caminho daqueles que são lembrados com imenso carinho.
Mas quando as nossas lágrimas traduzem revolta de nossa parte diante dos Desígnios Divinos, que nós não podemos de imediato sondar; quando essas lágrimas retratam rebeldia, essas lágrimas prejudicam os desencarnados, tanto quanto prejudicam os encarnados também.”
Chico Xavier nos aconselha, em sua ponderação, a, quando nos chegar a dor da saudade de um amigo ou ente querido, seja encarnado e em viagem a trabalho para localidade distante, seja desencarnado e, portanto, também em viagem de volta à Pátria Espiritual e também sempre convidado a trabalhar em prol do Bem de seu próximo e de si mesmo, utilizemos nossa energia destinando a essa pessoa bons pensamentos. Desejemos que ela esteja bem, com saúde, feliz, cercada de bons amigos, aprendendo e se desenvolvendo sempre mais.

Através do Fluido Universal, nossos pensamentos podem chegar às pessoas que amamos; e os pensamentos de nossos entes queridos também podem chegar a nós. Para melhor os percebermos, mantenhamo-nos em Paz, atentos às oportunidades diárias de fazer o Bem, e nos sintonizaremos em vibração mais elevada, sentindo, assim, ondas de alegria e bem-estar chegando a nós, certamente enviadas por amigos, encarnados e desencarnados, que nos queiram bem. Façamos também esse mesmo Bem a eles; todos temos condições de fazê-lo.

Hilário Silva também fala a respeito da vontade que duas pessoas tinham de abreviar seu tempo de reencarnação, felizmente dissuadidas da ideia após lerem “O Livro dos Espíritos”. As Leis Divinas, estudadas pela Doutrina Espírita, nos demonstram que a vida continua após a morte do corpo físico. Ideias suicidas, usualmente, têm relação com a tentativa radical de acabar com uma dificuldade. Porém, se continuamos vivos, também continua vivo o desafio a superar; mais cedo ou mais tarde, nos depararemos novamente com a mesma lição, até que a aprendamos e superemos. Por isso, o Espiritismo nos ensina a inutilidade de buscar abreviar nosso tempo de reencarnação.

Nas palavras de Allan Kardec, comentando a questão 957 de “O Livro dos Espíritos” [4]:
“A religião, a moral, todas as filosofias condenam o suicídio como contrário às leis da Natureza. (...) Por que não é livre o homem de pôr termo aos seus sofrimentos?
Ao Espiritismo estava reservado demonstrar, pelo exemplo dos que sucumbiram, que o suicídio não é uma falta, somente por constituir infração de uma lei moral, consideração de pouco peso para certos indivíduos, mas também (...) que nada ganha quem o pratica, antes o contrário é o que se dá, como no-lo ensinam, não a teoria, porém os fatos que ele nos põe sob as vistas.”
O Espiritismo não traz um discurso moralista sobre o suicídio. Ele demonstra, por suas leis, que atentar contra a própria vida não nos afasta de nossas dificuldades. A Doutrina Espírita vai além, apresentando relatos de quem buscou essa fuga e comprovou o que a Doutrina ensina nas leis que abrange. A obra “O Céu e o Inferno”, em sua segunda parte, capítulo V, apresenta diversos relatos de suicidas e as surpresas e decepções que encontraram após seu gesto para abreviar sua vida encarnada.

Não é suicídio apenas o gesto radical contra a própria vida. Os vícios, tanto em substâncias químicas — lícitas ou não — como em emoções deprimentes (tristeza, revolta, reclamações, ira etc.), nos retiram energia vital, e são vistos como abreviação de nosso tempo de vida reencarnada. Lemos, à questão 952 de “O Livro dos Espíritos” [4]:
“Comete suicídio o homem que perece vítima de paixões que ele sabia lhe haviam de apressar o fim, porém a que já não podia resistir, por havê-las o hábito mudado em verdadeiras necessidades físicas?
É um suicídio moral. (...) Há nele então falta de coragem (...), [além do] esquecimento de Deus.”
Esse raciocínio é ilustrado na obra “No Mundo Maior” [6], de André Luiz:
“Temos neste domínio um gênero de suicídio habilmente dissimulado, a autoeliminação da harmonia mental, pela inconformação da alma nos quadros de luta que a existência humana apresenta.”
Acompanhemos a terceira e última parte da narrativa de Hilário Silva...
“III

Após a leitura da carta providencial, o Professor Rivail experimentou nova luz a banhá-lo por dentro...
Conchegando o livro ao peito, raciocinava, não mais em termos de desânimo ou sofrimento, mas sim na pauta de radiosa esperança.
Era preciso continuar, desculpar as injúrias, abraçar o sacrifício e desconhecer as pedradas...
Diante de seu espírito turbilhonava o mundo necessitado de renovação e consolo.
Allan Kardec levantou-se da velha poltrona, abriu a janela à sua frente, contemplando a via pública, onde passavam operários e mulheres do povo, crianças e velhinhos...
O notável obreiro da Grande Revelação respirou a longos haustos e, antes de retomar a caneta para o serviço costumeiro, levou o lenço aos olhos e limpou uma lágrima...

HILÁRIO SILVA”


Dessa belíssima narrativa de Hilário Silva, do livro “O Espírito da Verdade” [1], podemos retirar muitos ensinamentos...

Focalizando nossa atenção, agora, na figura do Codificador, e todas as dificuldades enfrentadas por ele, verificamos que, não é porque nos dedicamos ao bem que estamos isentos ou imunes às dificuldades da vida. Elas ocorrem.

Ele mesmo nos narra, já desencarnado, através de um médium, conforme publicado na Revista Espírita de dezembro de 1869 [3], ou seja, 9 meses após a sua desencarnação, que ocorreu em 31 de março daquele mesmo ano, o seguinte:
“Eu sabia, ao consagrar-me à obra de minha predileção, que me expunha ao ódio, à inveja e ao ciúme dos outros. O caminho se achava inçado de dificuldades que de contínuo se renovavam. Nada podendo contra a doutrina, atiravam-se ao homem; mas, por esse lado, eu me sentia forte, porque renunciara à minha personalidade.
Que me importavam os esforços da calúnia; a minha consciência e a grandeza do objetivo me faziam esquecer de boa vontade as urzes e os espinhos da estrada.”
Às vezes podemos achar que o caminho dos missionários é privilegiado, que não há dificuldades a vencer... Como vemos, não é bem assim. Porém, a esperança e a satisfação pelo dever cumprido, essa noção do dever que Kardec apresentou encarnado, o fizeram seguir adiante e possibilitaram que nós hoje, pudéssemos estudar essa Doutrina de Luz!

Outro ensinamento que se nos apresenta da narrativa de Hilário Silva é em relação a nossa ação no bem. Como vimos, o missivista não tinha qualquer obrigação de escrever para Kardec, encadernar o livro... Mas o fez e de uma forma tão delicada! Foi uma gentileza de sua alma grata. Um gesto de bondade. Surge para nós a pergunta: qual deve ser o nosso empenho no bem? Kardec propôs questão semelhante aos Espíritos Superiores, que está registrada em “O Livro dos Espíritos” [4], questão 642:
“Para agradar a Deus e assegurar a sua posição futura, bastará que o homem não pratique o mal?
Não; cumpre-lhe fazer o bem no limite de suas forças, porquanto responderá por todo mal que haja resultado de não haver praticado o bem.”
O Espiritismo traz a proposta da Doutrina do Cristo, da renovação interior, do esforço para melhoria... Cabe perguntarmo-nos intimamente: estamos nos esforçando para fazer o bem, ou só não estamos praticando o mal? Estamos realmente aproveitando as oportunides de semear o bem que a vida nos oferece? Fazendo mais do que nossa simples obrigação?

É ainda o Espírito Emmanuel, no livro “Vinha de Luz” [5], que nos diz que:
“A caridade jamais se acaba.
O bem que praticares, em algum lugar, é teu advogado em toda parte.
Através do amor que nos eleva, o mundo se aprimora.”
Nós não temos noção do alcance de um bom gesto nosso. Kardec também, como vimos nessa narrativa, viu seu esforço servir para 2 seres humanos desistirem da ideia de suicídio e prosseguirem na vida, com mais coragem e resignação.

Podemos avaliar por nós... às vezes, um simples sorriso já ilumina nosso dia e nos ajuda a enfrentar com mais ânimo as dificuldades naturais do cotidiano. Um pequeno gesto de gentileza, uma palavra amiga... que bem nos faz!

E porque não sermos nós aqueles que fazem esse bem, pequenino bem que passa a ser nosso advogado em toda a parte.

E todo o mundo se eleva, todos saem ganhando, ajudamos a despoluir espiritualmente o planeta... Fazer o bem é uma atitude ecológica!


O Consolador Prometido por Jesus

O dicionário nos diz que consolar significa “aliviar ou suavizar a aflição, o sofrimento, o padecimento de.” Porém, o estudo da origem da palavra nos traz reflexões mais profundas sobre seu alcance.

Consolar, em sua origem, é a união de duas palavras do latim: cum + solis; ou seja, com + sol. O Sol é nossa referência de luz, calor e energia vitalizante. Assim, consolar é levar luz e calor ao coração; fazer com que as “tempestades” das provas da vida sejam suavizadas pela Luz e Calor norteadas por valores nobres, elevados, ou seja, da Espiritualidade Superior.

Jesus fala sobre o Consolador, conforme relata João, no capítulo 14, versículos 15 a 17 e 26 de seu evangelho:
“Se me amardes, guardareis os meus mandamentos.
E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre,
o Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco e estará em vós.
Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito.”
Jesus, o Espírito mais puro (ou seja, ungido; ou, em grego, Christós) que já esteve na Terra, sabia que não poderia trazer um conjunto muito amplo de conhecimentos; e já antevia que parte de seus ensinos sofreria distorções devido a interesses humanos. Por isso, o Consolador, o Espírito de Verdade, teria a dupla função de resgatar o Cristianismo em sua pureza original, bem como ampliar nossos conhecimentos.
“Muitas das coisas que vos digo ainda não as compreendeis e muitas outras teria a dizer, que não compreenderíeis.” (João 16:12)
Kardec não tinha mediunidade ostensiva. Ele fazia seus questionamentos e um médium escrevente transmitia as respostas. Como lemos em “Obras Póstumas” [7], o Espírito que liderava as inteligências que trariam o corpo da Doutrina Espírita se denominou, para Kardec, “A Verdade”, e se dispôs a auxiliar o Codificador apenas 15 minutos por mês, o que ocorreu por um curto período, para Kardec não recorrer a ele à menor dificuldade [7]. Vemos que, mesmo Espíritos com grandes missões em suas mãos, não podem esperar que a ajuda, literalmente, caia do céu, pois não cairá.

Em “O Evangelho Segundo o Espiritismo” [8], Kardec pondera:
“O Espiritismo vem, na época predita, cumprir a promessa do Cristo: preside ao seu advento o Espírito de Verdade. (...) o Espiritismo realiza o que Jesus disse do Consolador prometido: conhecimento das coisas, fazendo que o homem saiba donde vem, para onde vai e por que está na Terra; atrai para os verdadeiros princípios da lei de Deus e consola pela fé e pela esperança.”
Portanto, não por uma estimativa sua, mas pela análise criteriosa de milhares de mensagens, recebidas por via mediúnica em diversos lugares do mundo, apontando concordância entre os ensinos e a abrangência do estudo das mesmas Leis Divinas, Kardec conclui que a Doutrina Espírita é o Consolador prometido por Jesus, e que nos brinda com seus brilhantes ensinos há 154 anos.


Kardec: exemplo, e não ídolo

Os diversos missionários com que Deus nos presenteia, desde os mais conhecidos (Francisco de Assis; Zilda Arns; Mohandas Gandhi, Francisco Cândido Xavier e tantos outros), até os anônimos da mídia, mas que salvam milhões de vidas todos os anos, não podem servir para os colocarmos em um pedestal, distante de nós, e pensarmos que eles fizeram tanto porque são privilegiados, protegidos dos céus. Jesus, o melhor dos melhores exemplos, nos deixou a orientação de que devemos seguir seus passos, visando a evoluir tanto quanto ele mesmo, como lemos nas passagens a seguir:
“Eu disse: Vós sois deuses; E todos vós, filhos do Altíssimo.” (Salmos 82:06)

“Não está escrito na vossa Lei: Eu disse que vós sois deuses?” (João 10:34)

“(...) aquele que crê em mim, esse fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores (...)” (João 14:12)
A melhor forma de expressarmos nossa gratidão a Kardec, a seus colaboradores encarnados e aos Espíritos da Falange do Consolador, é a prática dos nobres valores ensinados pela Doutrina Espírita; é o nosso aperfeiçoamento como Espíritos imortais que somos, e nossa colaboração com a evolução de nosso semelhante e nosso próprio Planeta.


Leia também, neste blog, as postagens “Sobre As Mesas Girantes e o Espiritismo”, “Jesus, Kardec e Nós”, “Examinai Tudo. Retende o Bem.”, “Fluido Universal”, “A revolta”, “Evolução Espiritual de Longo Prazo” e “Espíritos missionários”.


Bons estudos!
Carla e Hendrio


Referências:
[1] XAVIER, Francisco Cândido. “O Espírito da Verdade”. 4.ed. Por Espíritos diversos. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1982. Capítulo 52.
[2] KARDEC, Allan. “Obras Póstumas”. 34.ed. Rio de Janeiro: RJ, FEB: 1991. Segunda Parte. “A minha primeira iniciação no Espiritismo”.
[3] KARDEC, Allan. “Revista Espírita de dezembro de 1869”. 1ª Edição. Rio de Janeiro: RJ, FEB: 2004. “Os Desertores”.
[4] KARDEC, Allan. “O Livro dos Espíritos”. 66.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Questões 642, 936, 952 e 957.
[5] XAVIER, Francisco Cândido. “Vinha de Luz”. Pelo Espírito Emmanuel. Capítulo 168.
[6] XAVIER, Francisco Cândido. “No Mundo Maior”. Pelo Espírito André Luiz. 20.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1995. Capítulo 16.
[7] KARDEC, Allan. “Obras Póstumas”. 34.ed. Rio de Janeiro: RJ, FEB: 1991. Segunda Parte. “Meu guia espiritual”.
[8] KARDEC, Allan. “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. 97ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Capítulo VI (“O Cristo Consolador”), item 04.


terça-feira, 15 de março de 2011

Falsos Cristos, falsos profetas e seus seguidores

(Ouça, em outra janela, esta postagem convertida para voz: Parte 1 Parte 2 Parte 3 Parte 4 Parte 5 Parte 6 Parte 7 Parte 8 Parte 9 Parte 10 Parte 11 Parte 12 Parte 13)

Nos campos da Ciência, da Filosofia e Religião, há trabalhadores devotados ao progresso da Humanidade, bem como pessoas temporariamente interessadas apenas em sucesso e vantagens momentâneas, mesmo que à custa do prejuízo de seu semelhante. Em vez de desejarmos o mal a falsos Cristos e falsos profetas, a pretexto de pedirmos “justiça”, precisamos desenvolver nossa vigilância, nossa boa sintonia e nosso conhecimento, visando a permanecer focados no Bem, em pensamentos, palavras e ações.

A Doutrina Espírita, resgatando os princípios originais do Cristianismo, convida à reflexão e nossa própria modificação. O Espiritismo não nos incentiva a ressaltar os erros das outras pessoas, mas sim a nos mantermos vigilantes (do latim vigilare, ou seja, despertar). Estando despertos, não desperdiçamos as diversas oportunidades de fazer o Bem que todos os dias se nos deparam, assim como não nos deixamos levar por ideias e ações prejudiciais a nosso semelhante e a nós mesmos.


Significado da palavra profeta

A palavra hebraica mais utilizada para designar “profeta” no Antigo Testamento é o termo nabi’. A palavra significa, simplesmente, porta-voz [1]. O substantivo grego prophetes, da qual se origina o termo português profeta, também significa porta-voz [2].

Os nabi’im (plural de nabi’) eram vistos como aqueles que transmitiam mensagens, impulsionados por um Espírito percebido como de grande elevação moral, a ponto de entenderem que o próprio Criador os estaria inspirando. Assim vemos, por exemplo, nos livros dos profetas Isaías e Ageu:
“O espírito de Jeová está sobre mim, porque Jeová me ungiu para pregar boas novas aos mansos (...)” (Isaías 61:01)

“No segundo ano do rei Dario, no sexto mês, no primeiro dia do mês, veio a palavra de Jeová por intervenção do profeta Ageu a Zorobabel (...)” (Ageu 01:01)
Os profetas eram, portanto, dotados de mediunidade ostensiva, visto trazerem mensagens provindas do Plano Espiritual. Moisés, também possuidor dessa faculdade, condenava seu mau uso, como a exigência de respostas dos Espíritos (Deuteronômio 18:11), mas desejava que todos pudessem ter um contato saudável com o Mundo Espiritual (Números 11:26-29). Essa possibilidade de interação entre os planos havia sido prevista também por um profeta (Joel 02:28-29), e relembrada por Simão Pedro, discípulo de Jesus (Atos 02:17-18), e foi, de fato, observada quando da ocorrência, em nível mundial, de fenômenos mediúnicos, cujo estudo sistemático e científico, feito por Allan Kardec, deu origem à Doutrina Espírita.

Independente de mediunidade ostensiva, contudo, sempre influenciamos e somos influenciados pelo meio onde vivemos. Propagamos ideias coerentes com nossos valores, reforçados pela interação com pessoas, encarnadas ou desencarnadas, que pensem de forma similar. Somos porta-vozes dos valores que, de fato, seguimos. Sejamos, portanto, humildes mas legítimos profetas de pensamentos e ações ligados à evolução moral e intelectual nossa e de todos que estejam ao nosso alcance real ou virtual.


Significado da palavra Cristo

Conforme cita o escritor Carlos Torres Pastorino [3], o verbo grego Chrio significa ungir, ou seja, purificar. O particípio desse verbo, Christós, é traduzido como “o ‘Ungido’, o ‘permeado da Divindade’”.

Jesus é o Espírito mais puro que a Humanidade terrestre conheceu. Por isso, é denominado de Cristo. Essa denominação, no entanto, não serve para seu exemplo de evolução moral permanecer num pedestal, longe de nós. Jesus nos chamou à responsabilidade de nos inspirarmos em seu exemplo e atingir aquele grau de perfeição:
“Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim, esse fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores (...)” (João 14:12)
Naturalmente, as poucas dezenas de anos de uma encarnação não bastam para tamanha evolução. É a escolha de que ideias seguimos e aplicamos, ao longo dos ciclos de vivências alternadas nos planos da matéria densa e quintessenciada, que acelera ou retarda nosso processo evolutivo. O apóstolo Paulo de Tarso conclama, por diversas vezes, a nos purificarmos, ou seja, formarmos o Cristo em nossa mente e nosso coração. Vejamos alguns exemplos em suas cartas aos cristãos de vários povos:
“Deus, fortificador nosso e vosso, em Cristo, cristifica-nos, Ele também nos marca e nos dá, como penhor, o Espírito em nossos corações.” (2 Coríntios 01:21)

“Filhinhos meus, por quem de novo sinto as dores de parto até que Cristo seja formado em vós; quem me dera estar presente convosco agora e mudar de tom; porque estou perplexo acerca de vós.” (Gálatas 04:19-20)

“Que habite Cristo pela fé em vossos corações, sendo vós arraigados e fundados em amor, a fim de poderdes compreender com todos os santos qual é a largura e o comprimento e a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que sobrepuja a ciência, para que sejais cheios até a inteira plenitude de Deus.” (Efésios 03:17-19)

“Ele deu uns como apóstolos, outros como profetas, outros como evangelistas, outros como pastores e mestres, tendo em vista o aperfeiçoamento dos santos para o trabalho do ministério, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem perfeito, à medida da estatura da plenitude de Cristo.” (Efésios 04:11-13)


Análise, discernimento e tolerância à divergência

São Jerônimo, tradutor da Bíblia do grego para o latim, afirmou que “a verdade não poderia existir em coisas que divergem”. De forma coerente com essa visão, Allan Kardec indica a ampla concordância de análises criteriosas como a garantia de um sistema de ideias. Em suas palavras:
“Essa a base em que nos apoiamos, quando formulamos um princípio da doutrina. Não é porque esteja de acordo com as nossas ideias que o temos por verdadeiro. Não nos arvoramos, absolutamente, em árbitro supremo da verdade e a ninguém dizemos: ‘Crede em tal coisa, porque somos nós que vo-lo dizemos.’ A nossa opinião não passa, aos nossos próprios olhos, de uma opinião pessoal, que pode ser verdadeira ou falsa, visto não nos considerarmos mais infalível do que qualquer outro. Também não é porque um princípio nos foi ensinado que, para nós, ele exprime a verdade, mas porque recebeu a sanção da concordância.
(...) Não será à opinião de um homem que se aliarão os outros, mas à voz unânime dos Espíritos; não será um homem, nem nós, nem qualquer outro que fundará a ortodoxia espírita; tampouco será um Espírito que se venha impor a quem quer que seja: será a universalidade dos Espíritos que se comunicam em toda a Terra, por ordem de Deus. Esse o caráter essencial da Doutrina Espírita; essa a sua força, a sua autoridade. Quis Deus que a sua lei assentasse em base inamovível e por isso não lhe deu por fundamento a cabeça frágil de um só.” [4]


A análise criteriosa do valor moral de quaisquer sistemas de ideias, apresentado tanto por via mediúnica como anímica, é ferramenta útil trazida pela Doutrina Espírita, como esclarece Kardec:
“Os fenômenos espíritas, longe de abonarem os falsos Cristos e os falsos profetas, como a algumas pessoas apraz dizer, golpe mortal desferem neles. Não peçais ao Espiritismo prodígios, nem milagres, porquanto ele formalmente declara que os não opera.
(...) O Espiritismo revela outra categoria bem mais perigosa de falsos Cristos e de falsos profetas, que se encontram, não entre os homens, mas entre os desencarnados: a dos Espíritos enganadores, hipócritas, orgulhosos e pseudossábios, que passaram da Terra para a erraticidade e tomam nomes venerados para, sob a máscara de que se cobrem, facilitarem a aceitação das mais singulares e absurdas ideias. Antes que se conhecessem as relações mediúnicas, eles atuavam de maneira menos ostensiva, pela inspiração, pela mediunidade inconsciente, audiente ou falante.
(...) O Espiritismo nos faculta os meios de experimentá-los, apontando os caracteres pelos quais se reconhecem os bons Espíritos, caracteres sempre morais, nunca materiais. É à maneira de se distinguirem dos maus os bons Espíritos que, principalmente, podem aplicar-se estas palavras de Jesus: ‘Pelo fruto é que se reconhece a qualidade da árvore; uma árvore boa não pode produzir maus frutos, e uma árvore má não os pode produzir bons.’” [5]
Sistemas de ideias que propaguem valores sectários; que afirmem que uma pessoa ou grupo de pessoas seja melhor do que outros; que incitem à intolerância ou violência, são incompatíveis com os valores do Cristo, Espírito evoluído o suficiente para atuar na própria elaboração do Planeta Terra, o que ocorreu há cerca de 4,56 bilhões de anos. Um Espírito tão evoluído só pode desejar a evolução de todos, como vemos, abaixo, nas palavras de Jesus:
“Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas.
O que é mercenário, e não pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê vir o lobo, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as arrebata e dispersa.
O mercenário foge, porque é mercenário, e não se importa com as ovelhas.
Eu sou o bom pastor, conheço as minhas ovelhas, e as que são minhas, me conhecem a mim,
assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas.
Tenho também outras ovelhas que não são deste aprisco, estas também é necessário que eu as traga; elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um pastor.
Por isso o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir.” (João 10:11-17)
Daí vemos a importância de conhecer e compreender os fundamentos de tudo que lemos, ouvimos e vemos, bem como de refletir se, de fato, a ideia com que tivemos contato traz algo de bom a nós e à Humanidade como um todo.

Se não devemos seguir quem entendamos propagar ideias negativas, tampouco devemos agredir aqueles que divirjam de nossa maneira de ver o mundo. Observemos o aconselhamento de um Espírito Protetor à mensagem seguinte:
“Sois chamados a estar em contato com espíritos de naturezas diferentes, de caracteres opostos: não choqueis a nenhum daqueles com quem estiverdes. Sede joviais, sede ditosos, mas seja a vossa jovialidade a que provém de uma consciência limpa, seja a vossa ventura a do herdeiro do Céu que conta os dias que faltam para entrar na posse da sua herança.” [6]


Concluindo...

Cuidemos bem de nós e de todos ao nosso alcance. Existem profetas de ideias elevadas e de ideias terra-a-terra; há pessoas mais cristianizadas e pessoas ainda imaturas espiritualmente, mas escolher e seguir os valores de um ou de outro grupo é decisão nossa. Nas palavras do Cristo,
“Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.” (Mateus 06:21)


Leia também, neste blog, as postagens “Espiritismo e Internet”, “Examinai Tudo. Retende o Bem.”, “Hermenêutica, Exegese e Espiritismo”, “Mediunidade na Bíblia”, “Influência do Meio”, “Pentecostes, mediunidade e Espiritismo” e “Evolução Espiritual de Longo Prazo”.


Bons estudos!
Carla e Hendrio


Referências:
[1] Wikipedia. Palavra Prophet. Disponível em http://en.wikipedia.org/wiki/Prophet. Acesso em 13/03/2011.
[2] The New Testament Greek Lexicon. Palavra προφήτης (prophētēs). Disponível em http://www.searchgodsword.org/lex/grk/view.cgi?number=4396. Acesso em 13/03/2011.
[3] PASTORINO, Carlos Torres. “Sabedoria do Evangelho”. Rio de Janeiro, RJ: Sabedoria, 1964. Volume 4, capítulo “O Homem no Novo Testamento”.
[4] KARDEC, Allan. “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. 97ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Introdução, item II.
[5] Ibidem. Capítulo XXI, item 7.
[6] Ibidem. Capítulo XVII, item 10




quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Evolução Espiritual de Longo Prazo

Na obra “Loucura e Obsessão” [1], o médico Manoel Philomeno de Miranda questiona o Dr. Bezerra de Menezes sobre o contexto que levou um menino, denominado Aderson, a sofrer com o autismo. Em dado momento, Miranda pergunta ao Mentor:
“— E ele se curará?”
Tal questionamento chama a atenção acerca de o que consideramos cura. Sem uma noção mais ampla acerca do que seja a cura, podemos enfrentar a desencarnação de um ente querido e nos revoltar por tê-lo “perdido”, mesmo com nossas orações mais fervorosas.

Primeiramente, não “perdemos” ninguém, pois pessoa alguma é propriedade nossa. Consideremos, também, que a pessoa desencarnada não está perdida — está sempre ao alcance e amparo de seu Espírito protetor. Agora, analisemos a questão do termo “cura”.

No idioma latim, cura significa “cuidado”, “atenção”, “zelo”. A expressão latina medici cura, utilizada pelo enciclopedista Aulus Celsus [2] no século I d.C., é traduzida por “cuidado médico”, começando aí a associação de “cura” com “tratamento da saúde”. O teólogo Leonardo Boff orienta [3] que cura, cuja forma latina mais antiga se escrevia coera, “era usada num contexto de relações de amor e de amizade. Expressava a atitude de cuidado, de desvelo, de preocupação e de inquietação pela pessoa amada ou por um objeto de estimação”.

Atentando para o significado original de “cura”, pode-se concluir que “curar-se” significa “cuidar de si” — ou seja, darmos atenção à nossa essência. E qual a nossa essência: somos um corpo ou um Espírito temporariamente animando um corpo? Independente de sermos espiritualistas ou materialistas, todos somos Espíritos imortais, e não meros conjuntos de genes e tecidos que se agruparam “por acaso” e desaparecerão quando nosso corpo carnal não mais tiver vida.

Neste sentido, “curar-se” não é um cuidado que outros possam prestar a nós, mas sim uma atenção e evolução íntimas, de dentro para fora. Curar-se é, por meio de boas obras, orientadas ao Bem de nosso semelhante, fazermos as pazes com nossa consciência, local onde se encontram as Leis Divinas, conforme citado à questão 621 de “O Livro dos Espíritos” [4]. Cuidar bem de nós mesmos implica dar atenção à nossa evolução espiritual, em vez de um foco apenas material. É nos amarmos de fato, nos permitindo evoluir moral e intelectualmente. Sabendo nos amar e nos respeitar, aprendemos a amar e respeitar nossos semelhantes.

Uma só vida corporal, usualmente não muito mais do que 100 anos terrestres, não nos permite aprender tudo que há de lições morais e intelectuais na Terra. Como não há seres privilegiados na Criação, Deus nos oferta a bênção da pluralidade de existências corpóreas, uma série de “provas sem consulta”, ou com consulta limitada ao Plano Espiritual, para aferirmos a aquisição de conhecimentos morais e intelectuais cada vez mais elevados, aprendidos nas encarnações e nos períodos entre as mesmas.

Assim nos orientam os Espíritos da falange do Consolador, às questões 166, 166-a e 167:
166. Como pode a alma, que não alcançou a perfeição durante a vida corpórea, acabar de depurar-se?
“Sofrendo a prova de uma nova existência.”
a) — Como realiza essa nova existência? Será pela sua transformação como Espírito?
“Depurando-se, a alma indubitavelmente experimenta uma transformação, mas para isso necessária lhe é a prova da vida corporal.”

167. Qual o fim objetivado com a reencarnação?
“Expiação, melhoramento progressivo da Humanidade. Sem isto, onde a justiça?”

A vitória sobre um mau hábito; a aquisição de uma virtude; a reparação de um erro e todas conquistas espirituais podem não ser visualizadas em sua plenitude no breve tempo de uma existência corpórea. Isso não significa que a evolução não exista ou não esteja em progresso.

Um exemplo de processo de superação de uma ofensa recebida, ao longo de um de cinco reencarnações e quatro períodos na erraticidade (tempo entre reencarnações). Podemos superar dificuldades em muito menos etapas; só depende de nós.

Plantando em bom terreno e cuidando bem da semente, em algumas décadas, teremos uma árvore. Não veremos de imediato, na semente, a árvore: precisamos cuidar da semeadura e aguardar, com fé e perseverança. Semeando valores nobres em todas as provas de nossas vidas, em algumas décadas, ou talvez em alguns séculos ou milênios (tempo muito pequeno em comparação aos ciclos de vida do Universo), teremos atingido patamares de maturidade espiritual que, de imediato ou em alguns poucos anos, não teríamos condições de vislumbrar ou valorizar.

O próprio Universo se transforma e evolui ao longo de trilhões de anos, em ciclos de expansão e retraimento. Somos parte dessa Criação, e também somos fadados a nos transformar e evoluir ao longo de incontáveis ciclos de idas e vindas a planos de matéria densa e sutil. Como lemos em “O Livro dos Espíritos” (por exemplo, às questões 194, 365 e 781), jamais regredimos. O que parece um retrocesso é, antes, um ponto de melhoria antes desconhecido, ou que não tínhamos disposição e/ou maturidade para tratar.

Assim, sempre é tempo de recomeçar, aprender, evoluir. Instruídos à questão 195 de “O Livro dos Espíritos”, compreendemos ser um erro adiar para outro tempo o que nos caiba fazer agora. Mesmo assim, em qualquer época de nossas vidas, temos condições de, ao desejarmos algo aprender ou ao constatarmos um erro cometido, iniciar nosso plano de curto, médio e longo prazo para essa apreender essa lição.

Vejamos algumas lições do Espírito São Luís acerca do arrependimento, à questão 1007 de “O Livro dos Espíritos” e na obra “O Evangelho Segundo o Espiritismo”:
“Haverá Espíritos que nunca se arrependem?
‘Há os de arrependimento muito tardio; porém, pretender-se que nunca se melhorarão fora negar a lei do progresso e dizer que a criança não pode tornar-se homem.’” [4]

“Sei bem haver casos que se podem, com razão, considerar desesperadores; mas, se não há nenhuma esperança fundada de um regresso definitivo à vida e à saúde, existe a possibilidade, atestada por inúmeros exemplos, de o doente, no momento mesmo de exalar o último suspiro, reanimar-se e recobrar por alguns instantes as faculdades! Pois bem: essa hora de graça, que lhe é concedida, pode ser-lhe de grande importância. Desconheceis as reflexões que seu Espírito poderá fazer nas convulsões da agonia e quantos tormentos lhe pode poupar um relâmpago de arrependimento.” [5]

A constatação de um ponto a melhorar, e o consequente arrependimento por um proceder inadequado, são os primeiros passos para nossa evolução. Contudo, apenas o arrependimento, em si, não soluciona a questão. Por mais sincero seja o arrependimento, e por mais intensa a fé abraçada, se não houver obras, ou seja, ações objetivas em prol do Bem de nosso semelhante, motivadas pelo aprendizado na nova atitude, não consolidaremos nosso aprendizado e nosso amadurecimento. Lemos à questão 1002 de “O Livro dos Espíritos”:
“Que deve fazer aquele que, em artigo de morte, reconhece suas faltas, quando já não tem tempo de as reparar? Basta-lhe nesse caso arrepender-se?
‘O arrependimento lhe apressa a reabilitação, mas não o absolve. Diante dele não se desdobra o futuro, que jamais se lhe tranca?’”

O que a constatação de um erro, cometido por nós ou contra nós, não pode trazer, são as angustiantes e improdutivas emoções do remorso e da revolta. Essas são verdadeiras barreiras à nossa evolução, por impedirem, respectivamente, de perdoarmos a nós mesmos e ao nosso semelhante. Novamente, é uma questão de bem cuidar, ou seja, de curar a nós e o próximo.

Em dois trechos da brilhante obra “Evolução em Dois Mundos”, André Luiz ilustra o severo impacto negativo que o remorso traz ao nosso mundo íntimo:
“Obliterados os núcleos energéticos da alma, capazes de conduzi-la às sensações de euforia e elevação, entendimento e beleza, precipita-se a mente, pelo excesso da taxa de remorso nos fulcros da memória, na dor do arrependimento a que se encarcera por automatismo, conforme os princípios de responsabilidade a se lhe delinearem no ser, plasmando com os seus próprios pensamentos as telas temporárias, mas por vezes de longuíssima duração, em que contempla, incessantemente, por reflexão mecânica, o fruto amargo de suas próprias obras, até que esgote os resíduos das culpas esposadas ou receba caridosa intervenção dos agentes do amor divino, que, habitualmente, lhe oferecem o preparo adequado para a reencarnação necessária, pela qual retomará ao aprendizado prático das lições em que faliu.” [6]

“A recordação dessa ou daquela falta grave, mormente daquelas que jazem recalcadas no espírito, sem que o desabafo e a corrigenda funcionem por válvulas de alívio às chagas ocultas do arrependimento, cria na mente um estado anômalo que podemos classificar de ‘zona de remorso’, em torno da qual a onda viva e contínua do pensamento passa a enovelar-se em circuito fechado sobre si mesma, com reflexo permanente na parte do veículo fisiopsicossomático ligada à lembrança das pessoas e circunstâncias associadas ao erro de nossa autoria.
(...)
É assim que o remorso provoca distonias diversas em nossas forças recônditas, desarticulando as sinergias do corpo espiritual, criando predisposições mórbidas para essa ou aquela enfermidade, entendendo-se, ainda, que essas desarmonias são, algumas vezes, singularmente agravadas pelo assédio vindicativo dos seres a quem ferimos, quando imanizados a nós em processos de obsessão. Todavia, ainda mesmo quando sejamos perdoados pelas vítimas de nossa insânia, detemos conosco os resíduos mentais da culpa, qual depósito de lodo no fundo de calma piscina, e que, um dia, virão à tona de nossa existência, para a necessária expunção, à medida que se nos acentue o devotamento à higiene moral.” [7]

Preciosos relatos de autores espirituais nos informam sobre o lento e gradual processo de evolução, para aprendizado e reparação de erros, que se opera ao longo de diversos processos reencarnatórios. Além da obra “Evolução em Dois Mundos”, acima citada, relacionamos, a título de exemplos, as obras “Entre a Terra e o Céu” e “Memórias de um Suicida”, referidas na postagem “Considerações sobre o Aborto Espontâneo”, neste blog.

A lentidão de tais processos de reforma íntima não se deve a nenhuma morosidade do Plano Espiritual, mas às nossas próprias limitações em estudar, apreender e aplicar novas lições, especialmente no campo da evolução moral. Dispomos de muitos bons exemplos de dedicação ao próximo para seguir e acelerar nossa melhoria. Allan Kardec, à questão 625 de “O Livro dos Espíritos”, pergunta qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem, para lhe servir de guia e modelo, recebendo a resposta mais breve e, talvez, mais profunda da referida obra: Jesus. Não se trata de nenhum ato de fanatismo, mas de fé raciocinada. Exemplificando a caridade incondicional e o desapego à vida material, Jesus nos apresenta um roteiro lógico e exequível de amadurecimento espiritual. Relembrando o versículo 06 do Salmo 82 e indo além, Jesus nos orienta:
“Não está escrito na vossa Lei: Eu disse que vós sois deuses?” (João 10:34)

“Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim, esse fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores (...)” (João 14:12)

Podemos, agora, compreender melhor por que Bezerra de Menezes respondeu à questão citada ao início desta postagem, no livro “Loucura e Obsessão”, nos seguintes termos:
“— Os desígnios de Deus — respondeu, reflexionando — são inescrutáveis. Caso não recupere todas as suas funções, para a atual existência, melhorará as condições para os próximos cometimentos. Deveremos examinar a Vida sob o ponto de vista global e não angular, de uma única experiência física, como a atual. Da mesma forma que vamos buscar as origens dos males de hoje no passado do Espírito, é justo que pensemos na sua felicidade em termos de amanhã, considerando o presente como sendo uma ponte entre os dois períodos e não a situação única a vivenciar. Destas atitudes resulta o porvir com todas as suas implicações. Assim, lancemos para amanhã os resultados do esforço de agora.” [1]


Leia também, neste blog, as postagens “Penas ‘Eternas’”, “Falsos Cristos, falsos profetas e seus seguidores”, “154 anos do Consolador Prometido”, “Focos de desequilíbrio espiritual”, “Considerações sobre a pluralidade das existências 1 e 2”, “A Fé”, “O Universo Cíclico”, “Mortes prematuras”, “Considerações sobre o Aborto Espontâneo”, “Bezerra de Menezes” e “Cuida de Ti”.


Bons estudos!
Carla e Hendrio


Referências:

[1] FRANCO, Divaldo Pereira. “Loucura e Obsessão”. 8.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1998. Capítulo 7.
[2] CELSUS, Aulus Cornelius. “De Medicina”. Livro III, item 9.1. Loeb Classical Library edition, 1935. Disponível em http://penelope.uchicago.edu/Thayer/L/Roman/Texts/Celsus/3*.html. Acesso em 18/01/2011.
[3] BOFF, Leonardo. “Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela terra”. 10.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004. Capítulo VII.
[4] KARDEC, Allan. “O Livro dos Espíritos”. 66.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Questões 166, 166-a, 167, 194, 195, 365, 621, 625, 781, 1002 e 1007.
[5] KARDEC, Allan. “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. 97.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Capítulo V (“Bem-aventurados os aflitos”), item 28.
[6] XAVIER, Francisco Cândido. “Evolução em Dois Mundos”. Pelo Espírito André Luiz. 14.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1995. Primeira parte, capítulo 16.
[7] Ibidem. Segunda parte, capítulo 19.