terça-feira, 15 de março de 2011

Falsos Cristos, falsos profetas e seus seguidores

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Nos campos da Ciência, da Filosofia e Religião, há trabalhadores devotados ao progresso da Humanidade, bem como pessoas temporariamente interessadas apenas em sucesso e vantagens momentâneas, mesmo que à custa do prejuízo de seu semelhante. Em vez de desejarmos o mal a falsos Cristos e falsos profetas, a pretexto de pedirmos “justiça”, precisamos desenvolver nossa vigilância, nossa boa sintonia e nosso conhecimento, visando a permanecer focados no Bem, em pensamentos, palavras e ações.

A Doutrina Espírita, resgatando os princípios originais do Cristianismo, convida à reflexão e nossa própria modificação. O Espiritismo não nos incentiva a ressaltar os erros das outras pessoas, mas sim a nos mantermos vigilantes (do latim vigilare, ou seja, despertar). Estando despertos, não desperdiçamos as diversas oportunidades de fazer o Bem que todos os dias se nos deparam, assim como não nos deixamos levar por ideias e ações prejudiciais a nosso semelhante e a nós mesmos.


Significado da palavra profeta

A palavra hebraica mais utilizada para designar “profeta” no Antigo Testamento é o termo nabi’. A palavra significa, simplesmente, porta-voz [1]. O substantivo grego prophetes, da qual se origina o termo português profeta, também significa porta-voz [2].

Os nabi’im (plural de nabi’) eram vistos como aqueles que transmitiam mensagens, impulsionados por um Espírito percebido como de grande elevação moral, a ponto de entenderem que o próprio Criador os estaria inspirando. Assim vemos, por exemplo, nos livros dos profetas Isaías e Ageu:
“O espírito de Jeová está sobre mim, porque Jeová me ungiu para pregar boas novas aos mansos (...)” (Isaías 61:01)

“No segundo ano do rei Dario, no sexto mês, no primeiro dia do mês, veio a palavra de Jeová por intervenção do profeta Ageu a Zorobabel (...)” (Ageu 01:01)
Os profetas eram, portanto, dotados de mediunidade ostensiva, visto trazerem mensagens provindas do Plano Espiritual. Moisés, também possuidor dessa faculdade, condenava seu mau uso, como a exigência de respostas dos Espíritos (Deuteronômio 18:11), mas desejava que todos pudessem ter um contato saudável com o Mundo Espiritual (Números 11:26-29). Essa possibilidade de interação entre os planos havia sido prevista também por um profeta (Joel 02:28-29), e relembrada por Simão Pedro, discípulo de Jesus (Atos 02:17-18), e foi, de fato, observada quando da ocorrência, em nível mundial, de fenômenos mediúnicos, cujo estudo sistemático e científico, feito por Allan Kardec, deu origem à Doutrina Espírita.

Independente de mediunidade ostensiva, contudo, sempre influenciamos e somos influenciados pelo meio onde vivemos. Propagamos ideias coerentes com nossos valores, reforçados pela interação com pessoas, encarnadas ou desencarnadas, que pensem de forma similar. Somos porta-vozes dos valores que, de fato, seguimos. Sejamos, portanto, humildes mas legítimos profetas de pensamentos e ações ligados à evolução moral e intelectual nossa e de todos que estejam ao nosso alcance real ou virtual.


Significado da palavra Cristo

Conforme cita o escritor Carlos Torres Pastorino [3], o verbo grego Chrio significa ungir, ou seja, purificar. O particípio desse verbo, Christós, é traduzido como “o ‘Ungido’, o ‘permeado da Divindade’”.

Jesus é o Espírito mais puro que a Humanidade terrestre conheceu. Por isso, é denominado de Cristo. Essa denominação, no entanto, não serve para seu exemplo de evolução moral permanecer num pedestal, longe de nós. Jesus nos chamou à responsabilidade de nos inspirarmos em seu exemplo e atingir aquele grau de perfeição:
“Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim, esse fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores (...)” (João 14:12)
Naturalmente, as poucas dezenas de anos de uma encarnação não bastam para tamanha evolução. É a escolha de que ideias seguimos e aplicamos, ao longo dos ciclos de vivências alternadas nos planos da matéria densa e quintessenciada, que acelera ou retarda nosso processo evolutivo. O apóstolo Paulo de Tarso conclama, por diversas vezes, a nos purificarmos, ou seja, formarmos o Cristo em nossa mente e nosso coração. Vejamos alguns exemplos em suas cartas aos cristãos de vários povos:
“Deus, fortificador nosso e vosso, em Cristo, cristifica-nos, Ele também nos marca e nos dá, como penhor, o Espírito em nossos corações.” (2 Coríntios 01:21)

“Filhinhos meus, por quem de novo sinto as dores de parto até que Cristo seja formado em vós; quem me dera estar presente convosco agora e mudar de tom; porque estou perplexo acerca de vós.” (Gálatas 04:19-20)

“Que habite Cristo pela fé em vossos corações, sendo vós arraigados e fundados em amor, a fim de poderdes compreender com todos os santos qual é a largura e o comprimento e a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que sobrepuja a ciência, para que sejais cheios até a inteira plenitude de Deus.” (Efésios 03:17-19)

“Ele deu uns como apóstolos, outros como profetas, outros como evangelistas, outros como pastores e mestres, tendo em vista o aperfeiçoamento dos santos para o trabalho do ministério, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem perfeito, à medida da estatura da plenitude de Cristo.” (Efésios 04:11-13)


Análise, discernimento e tolerância à divergência

São Jerônimo, tradutor da Bíblia do grego para o latim, afirmou que “a verdade não poderia existir em coisas que divergem”. De forma coerente com essa visão, Allan Kardec indica a ampla concordância de análises criteriosas como a garantia de um sistema de ideias. Em suas palavras:
“Essa a base em que nos apoiamos, quando formulamos um princípio da doutrina. Não é porque esteja de acordo com as nossas ideias que o temos por verdadeiro. Não nos arvoramos, absolutamente, em árbitro supremo da verdade e a ninguém dizemos: ‘Crede em tal coisa, porque somos nós que vo-lo dizemos.’ A nossa opinião não passa, aos nossos próprios olhos, de uma opinião pessoal, que pode ser verdadeira ou falsa, visto não nos considerarmos mais infalível do que qualquer outro. Também não é porque um princípio nos foi ensinado que, para nós, ele exprime a verdade, mas porque recebeu a sanção da concordância.
(...) Não será à opinião de um homem que se aliarão os outros, mas à voz unânime dos Espíritos; não será um homem, nem nós, nem qualquer outro que fundará a ortodoxia espírita; tampouco será um Espírito que se venha impor a quem quer que seja: será a universalidade dos Espíritos que se comunicam em toda a Terra, por ordem de Deus. Esse o caráter essencial da Doutrina Espírita; essa a sua força, a sua autoridade. Quis Deus que a sua lei assentasse em base inamovível e por isso não lhe deu por fundamento a cabeça frágil de um só.” [4]


A análise criteriosa do valor moral de quaisquer sistemas de ideias, apresentado tanto por via mediúnica como anímica, é ferramenta útil trazida pela Doutrina Espírita, como esclarece Kardec:
“Os fenômenos espíritas, longe de abonarem os falsos Cristos e os falsos profetas, como a algumas pessoas apraz dizer, golpe mortal desferem neles. Não peçais ao Espiritismo prodígios, nem milagres, porquanto ele formalmente declara que os não opera.
(...) O Espiritismo revela outra categoria bem mais perigosa de falsos Cristos e de falsos profetas, que se encontram, não entre os homens, mas entre os desencarnados: a dos Espíritos enganadores, hipócritas, orgulhosos e pseudossábios, que passaram da Terra para a erraticidade e tomam nomes venerados para, sob a máscara de que se cobrem, facilitarem a aceitação das mais singulares e absurdas ideias. Antes que se conhecessem as relações mediúnicas, eles atuavam de maneira menos ostensiva, pela inspiração, pela mediunidade inconsciente, audiente ou falante.
(...) O Espiritismo nos faculta os meios de experimentá-los, apontando os caracteres pelos quais se reconhecem os bons Espíritos, caracteres sempre morais, nunca materiais. É à maneira de se distinguirem dos maus os bons Espíritos que, principalmente, podem aplicar-se estas palavras de Jesus: ‘Pelo fruto é que se reconhece a qualidade da árvore; uma árvore boa não pode produzir maus frutos, e uma árvore má não os pode produzir bons.’” [5]
Sistemas de ideias que propaguem valores sectários; que afirmem que uma pessoa ou grupo de pessoas seja melhor do que outros; que incitem à intolerância ou violência, são incompatíveis com os valores do Cristo, Espírito evoluído o suficiente para atuar na própria elaboração do Planeta Terra, o que ocorreu há cerca de 4,56 bilhões de anos. Um Espírito tão evoluído só pode desejar a evolução de todos, como vemos, abaixo, nas palavras de Jesus:
“Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas.
O que é mercenário, e não pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê vir o lobo, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as arrebata e dispersa.
O mercenário foge, porque é mercenário, e não se importa com as ovelhas.
Eu sou o bom pastor, conheço as minhas ovelhas, e as que são minhas, me conhecem a mim,
assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas.
Tenho também outras ovelhas que não são deste aprisco, estas também é necessário que eu as traga; elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um pastor.
Por isso o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir.” (João 10:11-17)
Daí vemos a importância de conhecer e compreender os fundamentos de tudo que lemos, ouvimos e vemos, bem como de refletir se, de fato, a ideia com que tivemos contato traz algo de bom a nós e à Humanidade como um todo.

Se não devemos seguir quem entendamos propagar ideias negativas, tampouco devemos agredir aqueles que divirjam de nossa maneira de ver o mundo. Observemos o aconselhamento de um Espírito Protetor à mensagem seguinte:
“Sois chamados a estar em contato com espíritos de naturezas diferentes, de caracteres opostos: não choqueis a nenhum daqueles com quem estiverdes. Sede joviais, sede ditosos, mas seja a vossa jovialidade a que provém de uma consciência limpa, seja a vossa ventura a do herdeiro do Céu que conta os dias que faltam para entrar na posse da sua herança.” [6]


Concluindo...

Cuidemos bem de nós e de todos ao nosso alcance. Existem profetas de ideias elevadas e de ideias terra-a-terra; há pessoas mais cristianizadas e pessoas ainda imaturas espiritualmente, mas escolher e seguir os valores de um ou de outro grupo é decisão nossa. Nas palavras do Cristo,
“Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.” (Mateus 06:21)


Leia também, neste blog, as postagens “Espiritismo e Internet”, “Examinai Tudo. Retende o Bem.”, “Hermenêutica, Exegese e Espiritismo”, “Mediunidade na Bíblia”, “Influência do Meio”, “Pentecostes, mediunidade e Espiritismo” e “Evolução Espiritual de Longo Prazo”.


Bons estudos!
Carla e Hendrio


Referências:
[1] Wikipedia. Palavra Prophet. Disponível em http://en.wikipedia.org/wiki/Prophet. Acesso em 13/03/2011.
[2] The New Testament Greek Lexicon. Palavra προφτης (prophētēs). Disponível em http://www.searchgodsword.org/lex/grk/view.cgi?number=4396. Acesso em 13/03/2011.
[3] PASTORINO, Carlos Torres. “Sabedoria do Evangelho”. Rio de Janeiro, RJ: Sabedoria, 1964. Volume 4, capítulo “O Homem no Novo Testamento”.
[4] KARDEC, Allan. “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. 97ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Introdução, item II.
[5] Ibidem. Capítulo XXI, item 7.
[6] Ibidem. Capítulo XVII, item 10




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