terça-feira, 7 de setembro de 2010

A revolta

Há casos de loucura que não derivam de lesões orgânicas. Em muitos desses casos, jaz escondida uma tentativa de fuga da vida e dos desafios que esta apresenta para nosso aprendizado e evolução. Não falamos apenas da loucura de que são portadoras pessoas como os pacientes de hospitais psiquiátricos, mas de todo tipo de desequilíbrio mental que nos danifica a saúde física, psíquica e espiritual. Tais desarmonias reduzem nossa força vital, e são vistas como formas lentas de colocar fim à própria vida.

A esse respeito, esclarece o instrutor Calderaro, na obra “No Mundo Maior”:

“Excetuados os casos puramente orgânicos, o louco é alguém que procurou forçar a libertação do aprendizado terrestre, por indisciplina ou ignorância. Temos neste domínio um gênero de suicídio habilmente dissimulado, a autoeliminação da harmonia mental, pela inconformação da alma nos quadros de luta que a existência humana apresenta. Diante da dor, do obstáculo ou da morte, milhares de pessoas capitulam, entregando-se, sem resistência, à perturbação destruidora, que lhes abre, por fim, as portas do túmulo. A princípio, são meros descontentes e desesperados, que passam despercebidos mesmo àqueles que os acompanham de mais perto. Pouco a pouco, no entanto, transformam-se em doentes mentais de variadas gradações, de cura quase impossível, portadores que são de problemas inextricáveis e ingratos. Imperceptíveis frutos da desobediência começam por arruinar o patrimônio fisiológico que lhes foi confiado na Crosta da Terra e acabam empobrecidos e infortunados. Aflitos e semimortos, são eles homens e mulheres que desde os círculos terrenos padecem, encovados em precipícios infernais, por se haverem rebelado aos desígnios divinos, preterindo-os, na escola benéfica da luta aperfeiçoadora, pelos caprichos insensatos.” [1]

Muitas pessoas fogem do encontro com sua consciência, na qual Deus inscreveu sua Lei (“O Livro dos Espíritos”, questão 621). Assim procedem porque, nesse encontro, ainda que útil à aceleração do seu processo evolutivo, terão de enfrentar e analisar a forma como procederam ao longo de milênios de existências corpóreas e entre as encarnações. Dessas análises, surgem a satisfação com as ações em prol do Bem, e a dor ao encarar maus procedimentos. A esse respeito, Allan Kardec assim pontua:

“O arrependimento acarreta o pesar, o remorso, o sentimento doloroso, que é a transição do mal para o bem, da doença moral para a saúde moral. É para se furtarem a isso que os Espíritos perversos se revoltam contra a voz da consciência, quais doentes a repelirem o remédio que os há de curar. E assim procuram iludir-se, aturdir-se e persistir no mal.” [2]

Até mesmo a ação da prece, poderosa e cientificamente comprovada em diversos experimentos, é bloqueada por um coração envolto em uma rija muralha de revolta, quando essa parede ainda não apresentar nenhuma brecha aberta por uma semente de arrependimento. São Luís, em mensagem mediúnica, esclarece:

“A prece só aproveita ao Espírito que se arrepende; para aqueles que, arrebatados de orgulho, se revoltam contra Deus e persistem no erro, exagerando-o mesmo, tal como procedem os infelizes; para esses a prece nada adianta, nem adiantará senão quando tênue vislumbre de arrependimento começar a germinar-lhes na consciência.” [3]

Foto: Hendrio Belfort

Importante destacar que tranquilidade íntima e resignação, absolutamente, não são sinônimos de apatia e conformismo. Devemos, sempre orientados ao Bem, buscar modificar o que esteja ao nosso alcance, e estudar as situações com as quais nos confrontemos — o que não significa julgar ninguém —, a fim de aprender o que fazer ou não fazer. Contudo, cabe a nós, ao defrontar os desafios das vidas, não alimentar a ira e a revolta deletérias, as quais só nos farão doentes e, por decorrência, com menos energia para modificar para melhor o que de fato compete a nós. Vejamos as considerações do Codificador a respeito do tema:

“A doutrina de Jesus ensina, em todos os seus pontos, a obediência e a resignação, duas virtudes companheiras da doçura e muito ativas, se bem os homens erradamente as confundam com a negação do sentimento e da vontade. A obediência é o consentimento da razão; a resignação é o consentimento do coração, forças ativas ambas, porquanto carregam o fardo das provações que a revolta insensata deixa cair. O pusilânime não pode ser resignado, do mesmo modo que o orgulhoso e o egoísta não podem ser obedientes.” [4]

A revolta não traz apenas malefícios em existências futuras. Nossa própria saúde física, com a qual se preocupam tanto os ateus como os religiosos, também é afetada, até geneticamente, por nossas emoções, como atestam pesquisas científicas. O renomado geneticista Kazuo Murakami, autor do livro “Código Divino da Vida — ative seus genes e descubra quem você quer ser”, afirma que pesquisas científicas atestam que a atividade de nossos genes pode ser modificada por nossas atitudes. Modificando nossos pensamentos para vibrações de alegria, animação e gratidão, ativamos genes focados na cura de enfermidades. Revolta e tristeza reforçam a atividade de genes afins com doenças. É mais uma evidência do poder do Espírito sobre o corpo que anima, mostrando que o indivíduo não é o corpo, mas deve zelar por seu bom funcionamento, cumprindo melhor sua missão na Terra, banindo o medo e o negativismo de suas emoções usuais.

Quanto mais adiarmos nossa reforma íntima, ou seja, nossa mudança de atitude em relação a pensamentos, palavras e ações sempre identificadas com o Bem do próximo, tanto maiores serão nossas pendências a acertar com nossa consciência. E sempre temos apenas o tempo presente para fazer essa modificação. A crença na multiplicidade de existências corpóreas, de forma alguma, deve ser utilizada como motivo para adiar nossa evolução, como orientam os Espíritos a Kardec à questão seguinte:

A possibilidade de se melhorarem noutra existência não será de molde a fazer que certas pessoas perseverem no mau caminho, dominadas pela ideia de que poderão corrigir-se mais tarde?
‘Aquele que assim pensa em nada crê e a ideia de um castigo eterno não o refrearia mais do que qualquer outra, porque sua razão a repele, e semelhante ideia induz à incredulidade a respeito de tudo. Se unicamente meios racionais se tivessem empregado para guiar os homens, não haveria tantos cépticos. De fato, um Espírito imperfeito poderá, durante a vida corporal, pensar como dizes; mas, liberto que se veja da matéria, pensará de outro modo, pois logo verificará que fez cálculo errado e, então, sentimento oposto a esse trará ele para a sua nova existência. É assim que se efetua o progresso e essa a razão por que, na Terra, os homens são desigualmente adiantados. Uns já dispõem de experiência que a outros falta, mas que adquirirão pouco a pouco. Deles depende o acelerar-se-lhes o progresso ou retardar-se indefinidamente.’” [5]


Leia também, neste blog, as postagens “Loucura sem lesão cerebral”, “Alienação mental nos tempos de Kardec”, “Maus Pensamentos”, “O Bem e o Mal”, “Pecado — Hamartia — Peccatu”, “154 anos do Consolador Prometido” e “A Prece”.


Bons estudos!
Carla e Hendrio


Referências:

[1] XAVIER, Francisco Cândido. “No Mundo Maior”. Pelo Espírito André Luiz. 20ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1995. Capítulo 16.
[2] KARDEC, Allan. “O Céu e o Inferno”. 37ª ed. Rio de Janeiro, RJ: 1991. 2ª Parte, capítulo VI, “Jacques Latour”, item IV.
[3] Ibidem, “O Espírito de Castelnaudary”, Questão 9.
[4] KARDEC, Allan. “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. 97ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Capítulo IX, item 8.
[5] KARDEC, Allan. “O Livro dos Espíritos”. 66ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Questão 195.



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