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sábado, 16 de dezembro de 2023

Súplica

Os clarões do Natal que se aproxima trazem-nos à lembrança a imagem tão conhecida da família de nosso Mestre Jesus, reunida ao redor da manjedoura, recebendo o carinho e a visita daqueles que vieram saudá-Lo. Dirigindo nosso olhar à Mãe Santíssima de todos nós, ofertamos a prece sempre atual de Bezerra de Menezes [1], intitulada Súplica:

Carl Heinrich Bloch – The birth of Jesus - Detalhe

“Eis-nos, Senhora, ajoelhados aos teus pés, saudando-te na aurora do terceiro milênio que vem próximo.

Sentimos o desvelo de teu coração de mãe, arrebanhando os espíritos das trevas dos sofrimentos e preparando-os para uma era diferente.

Ouves o clamor das vozes que se atropelam em gritos de angústia e dor; confrange-se o teu coração de luz, aberto aos tormentos dos filhos que ainda não conseguiram sobreviver às próprias iniquidades.

Farol divino, acendes o lume nos caminhos dos infelizes e envias, em teu nome santíssimo, equipes de mensageiros, portadores de tua palavra cariciosa, de conforto, paz e energia, convidando-os para os sacros trilhos traçados por teu excelso Jesus.

Acalentas no teu regaço de mãe amorosa os filhos do calvário e, lenindo-lhes as chagas, pouco a pouco, alcançam os planos de desenvolvimento superior.

Sol divino, irradias a tua força e o teu calor por todo o orbe terrestre e, mesmo nas esferas espirituais, tua santa presença se faz sentir nas tarefas assistenciais, junto aos que perambulam nas sombras.

Teu tempo é luz que derramas como bálsamo nos corações aflitos e tuas mãos afagam os pequeninos deserdados do entendimento maior, conduzindo-os aos núcleos de amor cristão, onde aprendem a pronunciar com respeito e amor o nome altíssimo do Cristo de Deus.

Senhora nossa, o cântico de amor que te enviamos parte, também, da opressão que sentimos por vermos tantos corações desolados, quantas almas empobrecidas de consolo, inúmeros perturbados e aflitos que não conseguem pronunciar uma prece!

Pranteamos os lares desolados, os dramas dos tugúrios onde a humildade se acasala com o sofrimento, e buscamos em Ti, Mãe da Humanidade, a força, o poder da palavra consoladora, os recursos espirituais necessários a aliviar tão grandes torturas, tão tremendas misérias, tanta luta inglória.

Mãe, genuflexos como servos teus que se postam no labor da boa vontade, rogamos-te que nos possamos constituir, também, obreiros de teu amor, junto aos que padecem o frio do desencanto, a tortura da prova, a indigência da fé.

Saudamos-te, Mãe Santíssima, agradecidos por tua generosa bênção e agraciados por teu amor, desejamos seguir as veredas dos carenciados, como fiéis colaboradores de tua caridade inigualável, preparando, sob tua égide, os caminhos do porvir.

O último dos teus servos

Bezerra”


Feliz Natal!
Que 2024 seja um ano de crescimento espiritual e renovação de esperanças!

Bons estudos!!
Carla e Hendrio


[1] PAIVA, Maria Cecília. “Garimpeiros do Além”. Pelo Espírito Bezerra de Menezes e outros. Instituto Maria, 1ª edição, Juiz de Fora, MG, 1985, p. 120-121.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Oferta de Natal

Nossa mensagem de Natal, nas palavras de Emmanuel.



Senhor!

Enquanto as melodias do Natal nos enternecem, recordamos também, ante o céu iluminado, a estrela divina que te assinalou o berço na palha singela!...

*

De novo, alcançam-nos os ouvidos as vozes angélicas:

– Glória a Deus nas Alturas, paz na Terra, boa vontade para com os homens!...

E lembramo-nos do tópico inesquecível da narrativa de Lucas (Lc 2:8-11):

“Havia na região da manjedoura pastores que viviam nos campos e velavam pelos rebanhos durante a noite; e um anjo do Senhor desceu onde eles se achavam e a glória do Senhor brilhou ao redor deles, pelo que se fizeram tomados de assombro... O anjo, porém, lhes disse: não temais! eis que vos trago boas novas de grande alegria, que serão para todo o povo... É que hoje vos nasceu, na cidade de David, o Salvador, que é o Cristo, o Senhor”.

Foto: Carla Engel

Desde o momento em que os pastores maravilhados se movimentaram para ver-te, na hora da alva, começaste, por misericórdia tua, a receber os testemunhos de afeição dos filhos da Terra.

Todavia, muito antes que te homenageassem com o ouro, o incenso e a mirra, expressando a admiração e a reverência do mundo, o teu cetro invisível se dignou acolher, em primeiro lugar, as pequeninas dádivas dos últimos!

Só tu sabes, Senhor, os nomes daqueles que algo te ofertaram, em nome do amor puro, nos instantes da estrebaria:

A primeira frase de bênção...

A luz da candeia que principiou a brilhar quando se apagaram as irradiações do firmamento...

Os panos que te livraram do frio...

A manta humilde que te garantiu o leito improvisado...

Os primeiros braços que te enlaçaram ao colo para que José e Maria repousassem...

A primeira tigela de leite...

O socorro aos pais cansados...

Os utensílios de empréstimo para que te não faltasse assistência...

A bondade que manteve a ordem, ao redor da manjedoura, preservando-a de possíveis assaltos...

O feno para o animal que devia transportar-te...

*

Hoje, Senhor, que quase vinte séculos transcorreram sobre o teu nascimento, nós, os pequeninos obreiros desencarnados, com a honra de cooperar em teu Evangelho Redivivo, pedimos vênia para algo ofertar-te... Nada possuindo de nós, trazemos-te as páginas simples que tu mesmo nos inspiraste, os pensamentos de gratidão e de amor que nos saíram do coração, em forma de letras, em louvor de tua infinita bondade!

Recebe-os, ó Divino Benfeitor! com a benevolência com que acolheste as primeiras palavras de respeito e os primeiros gestos de carinho com que as criaturas rudes e anônimas te afagaram na gloriosa descida à Terra!... E que nós – espíritos milenários fatigados do erro, mas renovados na esperança – possamos rever-te a figura sublime, nos recessos do coração, e repetir, como o velho Simeão, após acariciar-te na longa vigília do Templo:

– “Agora, Senhor, despede em paz os teus servos, segundo a tua palavra, porque os nossos olhos viram a salvação!...”.



XAVIER, Francisco Cândido. "Antologia Mediúnica do Natal". Por Diversos Espíritos. 3.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1990, Prefácio.

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Cartão de Natal

Ao clarão do Natal, que em ti acorda a música da esperança, escuta a voz de alguém que te busca o ninho da própria alma!... Alguém que te acende a estrela da generosidade nos olhos e te adoça o sentimento, qual se trouxesses uma harpa de ternura esconda no peito.

Sim, é Jesus, o amigo fiel, que volta.

Ainda que não quisesses, lembrar-lhe-ias hoje os dons inefáveis, ao recordares as canções maternas que te embalaram o berço, o carinho de teu pai, ao recolher-te nos braços enternecidos, a paciência dos mestres que te guiaram na escola e o amor puro de velhas afeições que te parecem distantes.

Contemplas a rua, onde luminárias e cânticos lhe reverenciam a glória; entretanto, vergas-te ao peso das lágrimas que te desafogam o coração... É que ele te fala no íntimo, rogando perdão para os erram, socorro aos que sofrem, agasalho aos que tremem na vastidão da noite, consolação aos que gemem desanimados e luz para os que jazem nas trevas.

Foto: Carla e Hendrio

Não hesites! Ouve-lhe a petição e faze algo!... Sorri de novo para os que te ofenderam; abençoa os que feriram; divide o farnel com os irmãos em necessidade; entrega um minuto de reconforto ao doente; oferece uma fatia de bolo aos que oram, sozinhos, sob ruínas e pontes abandonadas; estende um lençol macio aos que esperam a morte, sem aconchego do lar; cede pequenina parte de tua bolsa no auxílio às mães fatigadas, que se afligem ao pé dos filhinhos que enlanguescem de fome, ou improvisa a felicidade de uma criança esquecida.

Não importa se diga que cultivas a bondade somente hoje quando o Natal te deslumbra!... Comecemos a viver com Jesus, ainda que seja por algumas horas, de quando em quando, e aprenderemos, pouco a pouco, a estar com ele, em todos os instantes, tanto quanto ele permanece conosco, tornando diariamente ao nosso convívio e sustentando-nos para sempre.


Meimei



XAVIER, Francisco Cândido. "Antologia Mediúnica do Natal". Por Diversos Espíritos. 3.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1990, cap. 5.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Uma prece

Deus, Sabedoria Suprema do Universo, Tu sabes, Senhor o que é melhor para cada um de nós e temos certeza do Teu Amor infinito e Tua Sabedoria...

Te agradecemos a oportunidade de estarmos juntos em oração, nós e aqueles que nos leem, elevando nossos pensamentos e sentimentos a Ti.

Pai de Infinita Bondade, de Ti tudo recebemos: a dádiva da vida, que não perece; as experiências da vida física, a possibilidade de aprender e evoluir. O amparo e conforto nas horas difíceis. As energias necessárias para harmonização do corpo, dos pensamentos e emoções... E a Ti agradecemos toda essas graças que derramas incessantemente sobre nós...

Pai, nesses dias, em que tantos irmãos têm deixado o corpo físico, pedimos a Ti por eles... Que sejam bem recebidos no plano espiritual, continuando seu tratamento de saúde em clima de paz e tranquilidade... Que os Bons Amigos Espirituais possam continuar amparando a cada um destes nossos irmãos, testemunhando para eles a nossa afeição, nosso carinho, nossa saudade...

Foto: Carla Engel

Pedimos, Senhor, também por nós. Que a nossa saudade seja suave acalento, uma canção de gratidão pelos momentos que convivemos, sorrisos e alegrias que relembramos como ânimo novo para nossas lutas. Tranquiliza em nós qualquer revolta contra Tuas Sábias Leis.

Ajuda-nos, Senhor, a ajudarmos nossos amados, enviando para eles energias de paz, lembrando-nos deles com pensamentos serenos, saudades sim, mas a certeza de que os laços de amor e ternura permanecem. Ajuda-nos a respeitarmos essa pausa para refazimento de nossos amados. Que seja tranquilo seu despertar na Espiritualidade.

Que todos possam receber essas flores perfumadas da Tua Misericórdia!

Graças sempre, Senhor!


sábado, 15 de dezembro de 2018

Natal Simbólico

Harmonias cariciosas atravessavam a paisagem, quando o lúcido mensageiro continuou:
– Cada Espírito é um mundo onde o Cristo deve nascer...
Fora loucura esperar a reforma do mundo, sem o homem reformado. Jamais conheceremos povos cristãos, sem edificarmos a alma cristã...
Eis por que o Natal do Senhor se reveste de profunda importância para cada um de nós em particular. 
Temos conosco oceanos de bênçãos divinas, maravilhosos continentes de possibilidades, florestas de sentimentos por educar, desertos de ignorância por corrigir, inumeráveis tribos de pensamentos que nos povoam a infinita extensão do mundo interior. De quando em quando, tempestades renovadoras varrem-nos o íntimo, furacões implacáveis atingem nossos ídolos mentirosos.
Quantas vezes, o interesse egoístico foi o nosso perverso inspirador?
Examinando a movimentação de nossas ideias próprias, verificamos que todo princípio nobre serviu de precursor ao conhecimento inicial do Cristo.
Verificou-se a vinda de Jesus numa época de recenseamento.
Alcançamos a transformação essencial justamente em fase de contas espirituais com a nossa própria consciência, seja pela dor ou pela madureza de raciocínio.
Não havia lugar para o Senhor.
Nunca possuímos espaço mental para a inspiração divina, absorvidos de ansiedades do coração ou limitados pela ignorância.
A única estalagem ao Hóspede Sublime foi a Manjedoura.
Não oferecemos ao pensamento evangélico senão algumas palhas misérrimas de nossa boa vontade, no lugar mais escuro de nossa mente.
Surge o Infante Celestial, dentro da noite.
Quase sempre, não sentimos a Bondade do Senhor senão no ápice das sombras de nossas inquietações e falências.
A estrela prodigiosa rompe as trevas no grande silêncio.
Quando o gérmen do Cristo desponta em nossas almas, a estrela da divina esperança desafia nossas trevas interiores, obscurecendo o passado, clareando o presente e indicando o porvir.
Animais em bando são as primeiras visitas ao Enviado Celeste.
Na soledade de nossa transformação moral, em face da alvorada nova, os sentimentos animalizados de nosso ser são os primeiros a defrontar o ideal do Mestre.
Chegam pastores que se envolvem na intensa luz dos anjos que velam o berço divino.
Nossos pensamentos mais simples e mais puros aproximam-se da ideia nova, contagiando-se da claridade sublime, oriunda dos gênios superiores que nos presidem aos destinos e que se acercam de nós, afugentando a incompreensão e o temor.


Cantam milícias celestiais.
No instante de nossa renovação em Cristo, velhos companheiros nossos, já redimidos, exultam de contentamento na esfera superior, dando glória a Deus e bendizendo os espíritos de boa vontade.
Divulgam os pastores a notícia maravilhosa.
Nossos pensamentos, felicitados pelo impulso criador de Jesus, comunicam-se entre si, organizando-se para a vida nova.
Surge a visita inesperada dos magos.
Sentindo-nos a modificação, o mundo observa-nos de modo especial.
Os servos fiéis, como Simeão, expressam grande júbilo, mas revelam apreensões justas, declarando que o Menino surgira para a queda e elevação de muitos em Israel.
Acalentamos o pensamento renovador, no recesso dalma, para a destruição de nossos ídolos de barro e desenvolvimento dos germens de espiritualidade superior.
Ferido na vaidade e na ambição, Herodes determina a morte do Pequenino Emissário.
A ignorância que nos governa, desde muitos milênios, trabalha contra a ideia redentora, movimentando todas as possibilidades ao seu alcance.
Conserva-se Jesus na casa simples de Nazaré.
Nunca poderemos fornecer testemunho à Humanidade, antes de fazê-lo junto aos nossos, elevando o espírito do grupo a que Deus nos conduziu.
Trabalha o Pequeno Embaixador numa carpintaria.
Em toda realização superior, não poderemos desdenhar o esforço próprio.
Mais tarde, o Celeste Menino surpreende os velhos doutores.
O pensamento cristão entra em choque, desde cedo, com todas as nossas antigas convenções relativas à riqueza e à pobreza, ao prazer e ao sofrimento, à obediência e à mordomia, à filosofia e à instrução, à fé e à ciência.
Trava-se, então, dentro de nosso mundo individual, a grande batalha.
A essa altura, o mensageiro fez longa pausa.
Flores de luz choviam de mais alto, como alegrias do Natal, banhando-nos a fronte. Os demais companheiros e eu aguardávamos, ansiosos, a continuação da mensagem sublime; entretanto, o missionário generoso sorriu paternalmente e rematou:
– Aqui termino minhas humildes lembranças do Natal simbólico. Segundo observais, o Evangelho de Nosso Senhor não é livro para os museus, mas roteiro palpitante da vida.

Irmão X



XAVIER, Francisco Cândido. “Antologia Mediúnica do Natal”. Espíritos Diversos. 3ª Ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1990, Capítulo 19.

Fonte da imagem: https://en.wikipedia.org/wiki/Gerard_van_Honthorst#/media/File:Gherardo_delle_Notti_o_Gheritt_van_Hontorst_-_Adorazione_del_Bambino_-_Google_Art_Project.jpg

sábado, 22 de outubro de 2016

Toque de fé

Ergue-te e caminha.
 
Enxuga as lágrimas e fita os Céus.

Deus, que te sustentou até ontem, sustentará hoje e sempre.

A sombra vale para destacar a luz. Surge a dor para aumentar a alegria.


Foto Carla Engel

Se provações te feriram, esquece.

Se desenganos te amargaram a existência, não esmoreças.

Escuta a esperança, no silêncio da própria alma, a falar-te de futuro e de amor, de beleza e eternidade, e transforma a bênção das horas em riqueza de trabalho.

Olvida toda sombra, à procura de mais luz e perceberás que Deus está contigo, em teu próprio coração, a estender-te os braços abertos.


Meimei

XAVIER, Francisco Cândido. "Amizade". Pelo Espírito Meimei. São Paulo: Ideal, 1987, capítulo 3.

Bons estudos
Carla e  Hendrio

sábado, 14 de março de 2015

Ambiente espiritual

O que é o ambiente espiritual? Como ele pode ser influenciado e como ele nos influencia?

Allan Kardec nos esclarece em “A Gênese”:
“O pensamento do encarnado atua sobre os fluidos espirituais, como o dos desencarnados, e se transmite de Espírito a Espírito pelas mesmas vias e, conforme seja bom ou mau, saneia ou vicia os fluidos ambientes.”[1]

Assim, o pensamento é a forma de atuação no ambiente espiritual. Influem nele tanto os encarnados quanto os desencarnados, havendo transmissão de um a outro (Espírito a Espírito), através do fluido cósmico. E, conforme a sua natureza, de responsabilidade do Espírito (encarnado ou desencarnado) que emite esses pensamentos, pode sanear ou viciar o ambiente fluídico.

Sentimos isso no dia a dia. Um ambiente pesado, ainda que fisicamente se apresente asseado e organizado, e um ambiente salutar, que nos enche de alegria e bem estar, independente de como se apresenta o ambiente físico. Esse ambiente é criado e mantido pelos Espíritos que ali emitem seus pensamentos, dos dois lados da vida.

André Luiz, na obra “Missionários da Luz” [2], nos traz a orientação de Alexandre (grifos nossos):
“Primeiramente a semeadura, depois a colheita; e, tanto as sementes de trigo como de escalracho, encontrando terra propícia, produzirão a seu modo e na mesma pauta de multiplicação. Nessa resposta da Natureza ao esforço do lavrador, temos simplesmente a lei. Você está observando o setor das larvas com justificável admiração. Não tenha dúvida. Nas moléstias da alma, como nas enfermidades do corpo físico, antes da afecção existe o ambiente. As ações produzem efeitos, os sentimentos geram criações, os pensamentos dão origem a formas e consequências de infinitas expressões. E, em virtude de cada Espírito representar um universo por si, cada um de nós é responsável pela emissão das forças que lançamos em circulação nas correntes da vida. A cólera, a desesperação, o ódio e o vício oferecem campo a perigosos germens psíquicos na esfera da alma. E, qual acontece no terreno das enfermidades do corpo, o contágio aqui é fato consumado, desde que a imprevidência ou a necessidade de luta estabeleça ambiente propício, entre companheiros do mesmo nível. Naturalmente, no campo da matéria mais grosseira, essa lei funciona com violência, enquanto, entre nós, se desenvolve com as modificações naturais. Aliás, não pode ser de outro modo, mesmo porque você não ignora que muita gente cultiva a vocação para o abismo. Cada viciação particular da personalidade produz as formas sombrias que lhe são consequentes, e estas, como as plantas inferiores que se alastram no solo, por relaxamento do responsável, são extensivas às regiões próximas, onde não prevalece o espírito de vigilância e defesa.”

Destaquemos alguns pontos do texto para estudo:
  • “(...) antes da afecção existe o ambiente.” – Alexandre refere-se à presença de “bacilos de natureza psíquica” no ambiente espiritual. E que antes da contaminação, há a formação do ambiente adequado para o desenvolvimento de tais criaturas, através do tipo de pensamento emitido pelo encarnado.
  • “(...) cada um de nós é responsável pela emissão das forças que lançamos em circulação nas correntes da vida.” – A emissão de forças que lançamos nas correntes da vida, são nossos pensamentos e atos. Qual tem sido o teor preponderante dos nossos pensamentos? São pensamentos de harmonia, de gratidão, de esperança e otimismo? Ou são pensamentos de revolta, desânimo, cólera?
  • “(...) a imprevidência ou a necessidade de luta estabeleça ambiente propício, (...)” – Há situações que não podemos evitar – são os “escândalos” a que se refere nosso Mestre Jesus. E os bons Espíritos nos sustentam e auxiliam a atravessar esta e outras situações, com o equilíbrio possível. Porém, não existem apenas situações inevitáveis, devido a nossa necessidade de luta. Alexandre destaca a imprevidência. Ser imprevidente é ser desleixado, negligente. Mas imprevidência com o quê? No caso, refere-se ao ambiente. Sabemos que nosso pensamento influencia na natureza do ambiente. Se são pensamentos salutares, influenciamos positivamente. Se os pensamentos são de natureza inferior, viciam o ambiente, tornando-o propício para o desenvolvimento tanto de “bacilos de natureza psíquica”, que atingem os encarnados, quanto para a propagação de ideias malsãs, que podem encontrar quem se proponha a colocá-las em prática. Notemos que a influência pode ser boa ou má, dependendo da nossa vontade e nossa previdência ou imprevidência.
  • “(...) cultiva a vocação para o abismo.” – Essa expressão parece-nos indicar a tendência a destacar tragédia, pessimismo, desesperança, desânimo, em todas as situações. Cultivar a vocação para o abismo é buscar o lado negativo em cada ocorrência e permanecer nele, sem abertura para perceber a bondade e a previdência divina atuando ainda que de forma imediatamente compreensível para nós. A consequência do cultivo da vocação para o abismo é a criação e emissão de pensamentos de natureza perniciosa, que agravam as ocorrências negativas, gerando mais sofrimento e dificultando a transformação da situação por ações positivas, pela prece, pelo consolo, pelo foco na solução em vez do foco no problema.
  • “(...) espírito de vigilância e defesa.” – O conhecido “vigiai e orai” que Jesus nos recomendou (leia mais a respeito na postagem “Vigiai e Orai”, neste Blog). Se não vigiamos nossos pensamentos, muitas vezes nos deixamos levar pela onda de pessimismo e revolta e se não temos a postos o espírito de defesa, buscando, a princípio, preservar a nossa paz interior, na certeza de que Deus é Pai Bondoso e Justo, acabamos por não lutar por manter o ambiente salutar a nossa volta. Orar para estar em sintonia com a Espiritualidade Superior, capaz de sanear o ambiente com fluidos positivos e manter a nossa harmonia e vigiar, para, no momento do contato com os pensamentos negativos, repeli-los naturalmente com a atmosfera positiva que desejamos nos envolva sempre.


E como transformar o ambiente espiritual, tornando-o saudável? Mais uma vez nos orienta o Codificador [3]:
“O meio é muito simples, porque depende da vontade do homem, que traz consigo o necessário preservativo. Os fluidos se combinam pela semelhança de suas naturezas; os dessemelhantes se repelem; há incompatibilidade entre os bons e os maus fluidos, como entre o óleo e a água.
Que se faz quando está viciado o ar? Procede-se ao seu saneamento, cuida-se de depurá-lo, destruindo o foco dos miasmas, expelindo os eflúvios malsãos, por meio de mais fortes correntes de ar salubre. À invasão, pois, dos maus fluidos, cumpre se oponham os fluidos bons e, como cada um tem no seu próprio perispírito uma fonte fluídica permanente, todos trazem consigo o remédio aplicável. Trata-se apenas de purificar essa fonte e de lhe dar qualidades tais, que se constitua para as más influências um repulsor, em vez de ser uma força atrativa.”
Foto: Carla Engel

A transformação do ambiente desfavorável é explicada por André Luiz e pelo orientador Alexandre, no capítulo 5 da obra Missionários da Luz [4]:
“Notava, agora, a diferenciação do ambiente.
Para nós outros, os desencarnados, a atmosfera interior impregnava-se de elementos balsâmicos, regeneradores. Cá fora, porém, o ar pesava. Acentuara-se-me, sobremaneira, a hipersensibilidade, diante das emanações grosseiras da rua. As lâmpadas elétricas semelhavam-se a globos pequeninos, de luz muito pobre, isolados em sombra espessa.
Aspirando as novas correntes de ar, observava a diferença indefinível. O oxigênio parecia tocado de magnetismo menos agradável.
Compreendi, uma vez mais, a sublimidade da oração e do serviço da Espiritualidade superior, na intimidade das criaturas.
A prece, a meditação elevada, o pensamento edificante, refundem a atmosfera, purificando-a.
O instrutor interrompeu-me as íntimas considerações, exclamando:
─ A modificação, evidentemente, é inexprimível. Entre as vibrações harmoniosas da paisagem interior, iluminada pela oração, e a via pública, repleta de emanações inferiores, há diferenças singulares. O pensamento elevado santifica a atmosfera em torno e possui propriedades elétricas que o homem comum está longe de imaginar. A rua, no entanto, é avelhantado repositório de vibrações antagônicas, em meio de sombrios materiais psíquicos e perigosas bactérias de varia da procedência, em vista de a maioria dos transeuntes lançar em circulação, incessantemente, não só as colônias imensas de micróbios diversos, mas também os maus pensamentos de toda ordem.”

São ensinamentos que merecem a nossa meditação e reflexão. Como temos nos comportado em relação a emanação de pensamentos? Estaremos nós, também, cultivando “vocação para o abismo”? Ou já despertamos, esforçando-nos para “orar e vigiar”, mantendo o ambiente de prece e pensamentos saudáveis, cultivando o hábito da prece no lar, em nosso trabalho, em nosso ambiente de estudo e demais atividades, independente da religião que professamos?

Estamos convidados a participar ativamente na construção e manutenção de ambiente salutar, não só pelas atividades ecologicamente corretas às quais nos engajamos, seja cuidando do lixo, respeitando a água, mas também na emissão de pensamentos não poluentes, antes despoluidores da atmosfera espiritual negativa. Devemos ser agentes de mudança em nossa sociedade — mas de mudança para o bem, fazendo nosso melhor, debatendo o que requerer mudanças, mas jamais alimentando problemas com pensamentos e ações violentas. Nossos pensamentos e ações também são nossas obras. É Jesus quem nos convida:
Porque o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos; e então dará a cada um segundo as suas obras.” (Mateus 16:27)

Leia também, neste Blog, as postagens “Vigiai e Orai”, “Influência do Meio”, “Fluido Universal” e “Falsos Cristos, falsos profetas e seus seguidores”.


Bons estudos! Bons pensamentos!
Muita paz!
Carla e Hendrio

Continue seus estudos, ouvindo os programas “Missionários da Luz”, capítulos 28 e 29, na página da Rádio Rio de Janeiro: http://www.radioriodejaneiro.am.br/?page_id=48031

[1] KARDEC, Allan. “A Gênese”. Capítulo XIV, item 18, trecho.
[2] XAVIER, Francisco Cândido. “Missionários da Luz”. Pelo Espírito André Luiz. Capítulo 4, trecho.
[3] KARDEC, Allan. “A Gênese”. Capítulo XIV, item 21, trecho.
[4] XAVIER, Francisco Cândido. “Missionários da Luz”. Pelo Espírito André Luiz. Capítulo 5, trecho.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Bem-Aventurados os Aflitos — Parte 1

“Eu lhes disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo.” (João 16:33)

“Louva o céu azul que te imprime euforia ao pensamento, mas agradece, também, a nuvem que te garante a chuva, mensageira do pão.
Mesmo que não entendas, de pronto, os desígnios da Providência Divina, recebe a provação como sendo o melhor que merecemos hoje, em favor do amanhã, e, ainda que lágrimas dolorosas te lavem a alma toda, rende graças a Deus.” (Emmanuel) [1]

O Capítulo V do livro “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, intitulado “Bem-Aventurados os Aflitos”, é o mais extenso da terceira Obra Básica. A situação presente de nossa humanidade, ainda enfrentando diversas lições dolorosas a fim de aprender e superar o apego a valores mundanos, efetivamente requer entendimento dos porquês das visitas das aflições. Nosso Mestre Jesus, além de ter nos recomendado bom ânimo para, como ele, vencermos o mundo, também nos informou que quem crer nele fará as obras que ele realizou (João 14:12). A fim de atingirmos tal nível evolutivo, há muito a estudar. Estudemos, portanto, alguns tópicos abordados no Capítulo V de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”.


Pontos de Partida

Antes de abordarmos a Obra Básica em questão, consideremos algumas premissas para melhor entendermos os estudos de Kardec:

1) Deus, inteligência suprema, causa primária de todas as coisas (“O Livro dos Espíritos”, questão 01), é infinitamente justo e bom.O Criador não deseja que soframos; em Sua infinita justiça, Suas leis nos permitem aprender com as consequências de nossos atos, e, em Sua infinita bondade, propicia condições para repararmos nossos erros.
“(...) Deus é eterno, infinito, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom (...)”[2]
2) Não nos compete apontar os defeitos do nosso semelhante e atribuir, às suas aflições, as causas de seu sofrimento e as “penas” pelas quais deve passar. Todos temos muito a evoluir; devemos, sim, tratar de buscar nosso aperfeiçoamento.
“Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados” (Lucas 6:37)
3) Ao nos comunicarmos com nosso semelhante, especialmente se tivermos a oportunidade de levar algum aconselhamento sobre uma aflição, tratemos de levar mensagens úteis e benéficas, e não algo que diminua o ânimo de nossos irmãos em Deus e torne ainda mais pesada a situação vivenciada naquele instante.
“Linguagem sã e irrepreensível, para que o adversário se confunda, não tendo mal algum que dizer de nós.” (Carta de Paulo a Tito 02:08)

Pinga Fogo de 21/12/1971: Chico Xavier atende a um aflito

Missionários como Chico Xavier não devem ser tratados como ídolos e colocados num cômodo pedestal, pois eles vêm à Terra para nos ensinar pelo exemplo da caridade, o amor na prática. A melhor maneira de expressarmos nossa gratidão a tais Espíritos é estudar e dar continuidade ao Bem que praticaram.

Os dois programas Pinga Fogo de 1971 nos quais Chico Xavier fora entrevistado constituíram marcos no Movimento Espírita, tanto por  terem propiciado farto material — o qual ainda deve ser muito mais estudado e aprofundado — para melhor entendermos a Doutrina Espírita, quanto  por haver oferecido a oportunidade de ver, na prática, a postura de um autêntico seguidor dos postulados cristãos. Fica a sugestão de assistir a e estudar  essas duas entrevistas dos programas Pinga Fogo.

Na segunda entrevista, datada de 21 de dezembro de 1971, no item 40 do DVD do referido programa, intitulado “Um conselho”, um dos entrevistadores interrompe a sessão de perguntas e solicita a Chico Xavier levar uma palavra de ânimo a um artista famoso à época, o qual se afirmou desesperado devido à doença que tivera pouco tempo antes e pela enfermidade à qual sua esposa estava acometida. Sua postura em direção ao requerente nos permite verificar a aplicação prática das premissas acima; por exemplo:
  • Nenhum julgamento: não há insinuações sobre erros cometidos, sejam da encarnação atual ou de vivências pretéritas, os quais ele “tenha de pagar”. Por caridade divina, não lembramos nem dos detalhes de nossa vivência pessoal ao longo dos séculos passados; não há, portanto, o menor benefício em fazermos conjecturas sobre possíveis “pecados” pelos quais nosso semelhante esteja “pagando”. Além de não ser uma comunicação caridosa, tal postura contrariaria a recomendação de Jesus, anotada pelo apóstolo Lucas, citada acima. Lembremos sempre: A Doutrina Espírita ensina termos um passado, o qual pode ser inferido por nossas tendências [3], mas não serve para fazermos suposições lisonjeiras nem depreciativas, ambas tão infundadas quanto inúteis,sobre o passado nosso ou de qualquer pessoa;
  • O médium lembra que a dor tem uma função em nossas vidas, e, portanto, não é um “castigo”. Em essência, as aflições têm dois propósitos: sinalizar sobre um caminho a modificar e/ou trazer lições para aprender. Encarar as vivências menos felizes sob este prisma, em vez de ficarmos nos achando desafortunados merecedores de pena, já nos traz muito mais disposição para superar os desafios da vida;
  • Em sua infinita bondade, Deus sempre estende seu amparo a todos nós. As boas inspirações e energias da Espiritualidade Superior estão sempre à nossa disposição, competindo a nós, pela prece e pela prática do Bem, sintonizar e receber essas boas vibrações fundamentais tanto nos momentos agradáveis como nos em que a dor nos visita. Conforme anotado pelo Espírito André Luiz em uma palestra do instrutor Aniceto, o qual a transmitiu a nós por meio de Chico Xavier na obra “Os Mensageiros”:
“Ainda que nos demoremos nas lágrimas e nas aflições, jamais permanecemos ao desamparo.” [3]

Foto: Hendrio Belfort


Origem da palavra

Frequentemente, o conhecimento da origem dos termos em estudo ajuda muito a entender seu significado mais aprofundado. Isso acontece com a palavra aflição.

Aflição, do latim affligere, corresponde à união dos termos ad (sobre) e fligere (golpear), sendo este último relacionado com a palavra flagellus, a qual significa chicote. Não pensemos, porém, tal tipo de golpe  relacionado a flagelos físicos. O sacrifício agradável a nosso Criador é o das más tendências, do egoísmo e do orgulho, focando nas funções úteis dos momentos dificultosos de nossas vidas. Lembremo-nos da oportuna mensagem do Espírito que assinou como Um anjo guardião:
“Se quereis um cilício, aplicai-o às vossas almas e não aos vossos corpos; (...) fustigai o vosso orgulho, (...) enrijai-vos contra a dor da injúria e da calúnia (...), mais pungente do que a dor física.” [5]
É comum encontrarmos a palavra aguilhão na literatura espírita. O termo, sinônimo de espinho ou ferrão, mais uma vez lembra que a dor serve para informar sobre um caminho a corrigir, desafios a superar e/ou novas lições a aprender. Nas palavras do Codificador da Doutrina Espírita:
“A dor é o aguilhão que o impele para a frente, na senda do progresso.” [6]

Continua...

Após estes pontos de partida para o estudo do Capítulo V de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, em  postagem futura, abordaremos o texto de Kardec.


Bons estudos!
Carla e Hendrio


Referências
[1] XAVIER, Francisco Cândido. “Palavras de Vida Eterna”. Pelo Espírito Emmanuel. 8.ed. Uberaba, MG: Comunhão Espírita Cristã, 1986. Capítulo “Agradeçamos sempre”.
[2] KARDEC, Allan. “O Livro dos Espíritos”.  questão 13, disponível para download em http://www.febnet.org.br/blog/geral/divulgacao/downloads-divulgacao/obras-basicas/
[3] KARDEC, Allan, “O Livro dos Espíritos”.  questão 393
[4] XAVIER, Francisco Cândido. “Os Mensageiros”. Pelo Espírito André Luiz. Capítulo 25.
[5] KARDEC, Allan. “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. cap. V item 26
[6] KARDEC, Allan. “A Gênese”. Capítulo III (“O bem e o mal”). Item 5.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Mensagem de Fim de Ano

Ao aproximarmo-nos de mais um findar de ano terreno, somos levados a refletir sobre nossas conquistas, nossos erros, em como aproveitamos os últimos 365 dias que estiveram à nossa disposição.
Algumas vezes, evitamos a reflexão. Outras vezes, deixamo-nos levar por sentimentos de menos valia, de tristeza e desânimo, pois nem tudo ocorreu conforme planejáramos...
André Luiz, pela psicografia de Waldo Vieira, orienta-nos, na mensagem intitulada "Escala do Tempo" [1]:

"Não te atribules. Entendimento espiritual pede paz à alma.

Ninguém usufrui duas situações ao mesmo tempo. Seja na alegria ou na provação, o homem desfruta a existência vivendo hora após hora, minuto por minuto.

O tempo é imperturbavelmente dosado. Concessão igual a todos. Em nada auxilia a aflição pelo que virá: no cerne do sentimento não há duas crises simultâneas. Para coisa alguma serve chorar pelo que aconteceu: não podemos retomar a oportunidade perdida. O passado ensina e o futuro promete em função do presente.

Ninguém confunda precipitação com diligência. Precipitação é pressa irrefletida. Diligência é zelo prestimoso. Não vale acelerar imprudentemente a execução disso ou daquilo: toda realização digna é obtida a pouco e pouco.

Por outro lado, igualmente não será lícito amolentarmo-nos. Importa combater negligência com atividade, sobrepor coragem ao desalento.

A pior circunstância traz consigo instruções preciosas tanto quanto o fruto mais corrompido carrega sementes de subido valor. Cabe-nos descobri-las e utilizá-las.

O melhor não se efetua em marcha atordoada. A própria natureza nos oferece o que pensar. Planta alguma é favorecida com primavera de dupla duração. O golpe de vento que fustiga o capim é o mesmo que estorcega o jequitibá.

As grandes edificações são erguidas em serviço regular e uniforme, com intervalos de sono reparador que refaçam as forças na mente e pausas de lazer que restaurem as energias do coração.

Toda ideia benéfica roga meditação para engrandecer-se. Todo temperamento é suscetível de ser dominado dentro das regras que nos orientam a educação.

Reflitamos na justiça das horas. Tempo é valor divino na experiência humana. Cada consciência plasma com ele o próprio destino.

O tempo que o Cristo despendeu na elevação era perfeitamente igual ao tempo que Barrabás gastou na criminalidade. A única diferença entre eles é que Jesus empregou o tempo engrandecendo o bem, e Barrabás usou o tempo gerando o mal. Entre a luz de um e a sombra do outro, o proveito do tempo se gradua por escala infinita. Melhorar-nos ou agravar-nos dentro dela é escolha nossa."

Assim, tenhamos paciência com as conquistas que ainda não se efetivaram, principalmente aquelas de natureza espiritual: não é do dia para a noite que nos tornaremos humildes, tolerantes e infatigáveis na prática do bem. A Natureza não dá saltos e não é isso que a Espiritualidade Superior espera de nós.

Que tenhamos persistência, esperança, coragem.
Que a cada dia nos tornemos um pouco mais tolerantes, um pouco menos queixosos, um pouco mais gratos a Deus!
Que possamos na alvorada do Natal, Luz de Deus sobre toda a Humanidade, recarregarmos as energias para uma nova temporada de atividades e descobertas, estudos e realizações, no campo material e espiritual.
Que a luz do Cristo dissipe qualquer tristeza ou desânimo.
O dia, o ano, a vida... apenas começa!
Recomecemos, de ânimo renovado, na tarefa de nos melhorarmos, melhorando o mundo a nossa volta!

Feliz Natal!
Feliz 2015!


Bons estudos!
Carla e Hendrio

Referência bibliográfica:
[1] XAVIER, FRANCISCO CÂNDIDO e VIEIRA, WALDO."Opinião Espírita". Pelos Espíritos Emmanuel e André Luiz. 7.ed. Uberaba, MG: Comunhão Espírita Cristã. 1990, capítulo 57.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Êxito

Com as edificantes palavras da mensagem do Espírito Emmanuel, desejamos a todos que simplifiquemos o caminho.



“Se vós estiverdes em mim e as minhas palavras estiverem em vós, pedireis tudo o que quiserdes, e vos será feito.” — Jesus.
(JOÃO, 15:7)

Muitos companheiros perdem recurso, oportunidade, tempo e força na preocupação desmedida em torno do êxito.

Sonhando realizações mirabolantes, acabam frustrados na mania de grandeza.

Dizem-se interessados na lavoura do bem, mas, para cultivá-la, esperam a execução de negócios imaginários, a aquisição de poder, a posse de ouro fácil ou a chegada de prêmios fortuitos... E, complicando a própria estrada, observam-se, de chofre, em presença da morte, quando menos contavam com semelhante visita.

Entretanto, o conquistador do maior êxito de todos os tempos não se ausentou do mundo como quem triunfara...

Não recebeu heranças amoedadas, não governou princípios políticos, não escreveu livros, não se enfileirou entre os maiorais de sua época...

Aprisionado como vulgar malfeitor, foi sentenciado à morte e passou como sendo vítima de pavoroso fracasso.

Contudo, as sementes de amor puro que colocou na alma do povo transformaram o mundo.

Repara Jesus e perceberás que o nosso problema não é de ganhar para fazer, mas de fazer para ganhar.

A colheita não precede a sementeira, tanto quanto o teto não se antepõe à base.

Sirvamos ao bem, simplificando o caminho, de vez que a vitória real é a vitória de todos, convictos de que não precisamos gastar as possibilidades da existência em expectativa e tensão, porquanto, se estivermos em Cristo, tudo quanto de que necessitamos será feito em nosso favor, no momento oportuno.



Foto: Hendrio Belfort


Feliz 2014! Bons estudos,
Carla e Hendrio


XAVIER, Francisco Cândido. “Palavras de Vida Eterna”. Pelo Espírito Emmanuel. 8.ed. Uberaba, MG: Comunhão Espírita Cristã, 1986. Mensagem 64 — “Êxito”.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O aconchego do Senhor

 "Aquele que vem a mim, de maneira nenhuma lançarei fora."
Jesus (João, 6:37)

A postura de Jesus primava pelo bom senso, em cada atitude, em cada palavra, em cada recomendação marcada por extrema lucidez.

Por mais que a alma se decida por usar sua liberdade para o gozo das fantasias dissolventes, um dia chega em que o cansaço a dobra.

Por mais que a criatura se dedique ao armazenamento das coisas perecíveis, que será compelida a deixar, junto com o casulo carnal esgotado, vem o momento da reflexão que lhe permite a mudança.

Por mais que a pessoa se rebele contra a vida, crendo que a culpa dos seus fracassos e torturas interiores está nas leis de Deus, advém o instante no qual eclode a claridade do bom senso, que a dor propicia, e tudo começa a se refazer.

Em qualquer situação que esteja, guarde a certeza de que você pertence ao grande rebanho do Bom Pastor, mesmo quando se ache na posição de ovelha desgarrada ou travestido de lobo devorador, mais carente, inseguro e amedrontado do que propriamente lobo rapace.

Ao considerar isso, não dê mais ouvido ao orgulho insensato, tampouco à acomodação paralisante. Venha ao encontro Dele e deixe-se aconchegar nos Seus braços de ternura, sempre abertos para os que O buscam.

Não acredite em castigos do Céu para os equívocos humanos. Para o Pai que ama perfeitamente, você será sempre um plano de amor a desenvolver-se, passo a passo, em plena vida cósmica. Erros e acertos, quedas e levantares fazem parte desse importante movimento evolutivo, em que todos nos encontramos, até superarmos as conjunturas inferiores.

Jamais creia que você é uma indefesa vítima de demônios cruéis. Para quem procura o Senhor, disposto a transformar as próprias sombras em estuante luminosidade, cada insinuação perturbadora ou cada tentação no caminho representa importante desafio a sua capacidade de lutar e lutar para vencer.

Nunca se admita esquecido pela Divindade, assemelhando-se à criança que se afirma não amada pelos genitores cada vez que esses não lhe atendem a vontade infantil.

O formidável fato da sua presença no mundo, tendo ensejo de viver como pode ou como gosta, de trabalhar onde pode ou quer, de viver nos lugares e com as pessoas que prefere ou precisa, num perfeito encaixe de causas e efeitos, próximos ou distantes, é a demonstração palpável do amor divino a envolvê-lo e sustentá-lo continuadamente.

Perante todo situação da vida em que você esteja necessitando de um braço ou de um abraço que agasalhe o seu coração, busque Jesus. É certo que Ele poderá chegar ao seu caminho através de um familiar atencioso ou de um amigo compreensivo. No entanto, se essas almas não surgirem na sua trilha, não se entristeça, nem desanime. Abra a janela e sorva o hálito do dia ou os aromas da noite; recolha-se, por um momento, em oração; comungue com as vibrações felizes do além, registrando os murmúrios da paz.

Tão logo lhe seja possível, vai você mesmo ao encontro de algum coração, seja uma criança ou um idoso; seja um afeto sadio ou algum enfermo; um familiar ou algum vizinho. Enfim, procure alguém com a sua vibração de alegria e agradecimento a Deus, e porque você a ninguém despreza e a todos envolve com o melhor que tem, já se acha envolvido pelo Sublime Amigo, com possibilidades de superar seus próprios dramas.

Sim, quando saímos ao encontro dos irmãos da nossa via evolutiva, dispostos a amá-los e a servi-los, mais próximos ficamos de Jesus, usufruindo da Sua aura de harmonia.

Jesus Cristo, dessa forma, é aquele Amigo que sempre espera a nossa decisão de buscá-Lo, de ir até Ele, abrindo mão de tudo o que nos agrilhoa no mundo a fim de nos aconchegarmos em Seus braços. Ele nunca nos indagará por que demoramos tanto. Esse dia da busca é também o dia da maturidade nossa e da aceitação do Senhor.
Francisco de Paula Vítor

TEIXEIRA, José Raul. “Quem é o Cristo?”. Pelo Espírito Francisco de Paula Vítor. Niterói, RJ: Fráter, 1997, cap. 16.

Desejando a todos os nossos leitores um Feliz Natal!
Fraternalmente,
Carla e Hendrio

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Espiritismo e Internet

A rede mundial de computadores encurta distâncias; dá acesso a uma gama inaudita de fontes para pesquisa, porém não substitui o estudo minucioso do conteúdo acessado, em todas as áreas do conhecimento, inclusive da Doutrina Espírita.


O que é

A Internet pode ser definida como um sistema global de redes interconectadas de computadores e vários outros tipos de equipamentos. É uma rede de redes, conectadas por tecnologias com ou sem fio, eletrônicas ou ópticas [1].

Os protocolos que deram origem aos atualmente utilizados iniciaram na década de 1960. Houve uma série de avanços nesses protocolos e na tecnologia durante os anos 1970 e 1980, e, com a sua expansão, a Internet exerceu grande impacto na cultura a partir dos anos 1990.

Estima-se que, em meados de 2012, havia, no mundo, mais de dois bilhões e quatrocentos milhões de usuários da Internet [2]. Destes, mais de oitenta e três milhões encontram-se no Brasil [3]. Notemos, por tais números, a responsabilidade com que se deve postar conteúdo na rede: o que escrevemos pode atingir — e efetivamente atinge — um contingente de várias dezenas a vários milhões de pessoas.


Visualização de caminhos de roteamento através de uma porção da Internet. Fonte: Wikipedia [1]. Créditos: The Opte Project [4].


Análise responsável

A facilidade e rapidez com que se encontram dados — embora não necessariamente informações — na Internet pode trazer efeitos indesejáveis, como a presunção de se poder saber tudo sobre tudo com apenas a digitação de uma palavra em um mecanismo de procura e um clique em qualquer um dos links dos resultados da busca, como se todos fossem absolutamente confiáveis.

A benfeitora Joanna de Ângelis, a esse respeito, pondera com sabedoria, em livro lançado trinta anos atrás, época na qual os computadores ainda não eram tão populares:

“Observando as pessoas, tens a impressão de que, nestes dias da Informática, todas se encontram esclarecidas e orientadas a respeito da vida. (...)
Ocorre que as informações que mais se transmitem, raramente são corretas. Elaboradas para atender a determinadas faixas, carregam condicionamentos psicológicos que devem atingir finalidades específicas. Servindo a interesses mui especiais não visam esclarecer nem libertar consciências. (...)” [5]

Muito do que se publica na Internet carece de revisão e, não raro, carece também de objetivos nobres, como seria o da instrução responsável da Doutrina Espírita. Não devemos acreditar cegamente nos dados aos quais temos acesso.


Dado e informação

Podemos entender dado como um conteúdo quantificável, compreensível e ao qual podemos ter acesso, mas não necessariamente analisado ainda, ao passo que informação é o dado processado, o qual permite a tomada de decisões e ações. Vejamos um exemplo:

  • Alguém pode nos dizer que agora são 15 horas. Não sabemos se a pessoa está com seu relógio marcando a hora certa, e esse número isolado não nos leva necessariamente a nenhuma conclusão;
  • Recebendo o dado sobre a hora; conferindo-o com uma fonte confiável e verificando, em nossa agenda, que nessa hora temos de nos dirigir a uma reunião na qual seremos úteis, o dado “15 horas” passou a ser confirmado e nos auxiliou em um plano de ação útil à nossa vida – o dado passou a ser uma informação.

De forma análoga:

  • Um texto que se diga espírita, ao qual tivemos acesso pela Internet ou qualquer outra fonte (visto em um livro ou panfleto; comentado na televisão ou por um amigo etc.), enquanto ainda não tiver estudadas consistência doutrinária, fonte e mérito, é apenas um dado;
  • Caso esse mesmo texto esteja em pleno acordo com os preceitos espíritas; traga esclarecimentos complementares ao entendimento de um ou mais temas e nos ajude a sermos pessoas mais esclarecidas e felizes, esse texto passou a ser uma iluminada informação.


O uso da Internet

A Internet complementa a interação pessoal; jamais a substitui.

Foi publicado, pela Federação Espírita Brasileira (FEB), o “Plano de Trabalho Para o Movimento Espírita Brasileiro (2013-2017)” [6], contendo diretrizes, os objetivos e as sugestões de projetos para promover e realizar o estudo, a divulgação e a prática da Doutrina Espírita. Na terceira de suas oito diretrizes, denominada “A Comunicação Social Espírita”, a FEB sugere, entre outras ações e projetos:

“Ampliação e fortalecimento da divulgação da Doutrina Espírita pela Mídia (Televisão, Internet, Rádio, Cinema, Jornal, Revista, Outdoor etc. Vide Manual de Comunicação Social Espírita. FEB. 2011).”

Verificamos, portanto, que a Federação Espírita Brasileira não apresenta oposição ao uso da Internet para a divulgação doutrinária responsável. Sendo assim, o que devemos publicar ou repassar, seja em um Blog, um site próprio, por e-mail ou por todos os meios de divulgação, da conversa ao livro?


Kardec nos dá o exemplo

Nunca podemos abrir mão da análise da consistência doutrinária, mérito, fonte e autorização para divulgação, antes de divulgar, por qualquer meio, todo e qualquer texto.

Na postagem intitulada “Examinai Tudo. Retende o Bem.”, neste Blog, pudemos verificar que Allan Kardec, o Codificador da Doutrina Espírita, demonstrou, na Revista Espírita de maio de 1863, ter encontrado mérito fora do comum para publicar apenas 100 de 3.600 textos que havia recebido. Essa postura é condizente com o ensino do Espírito Erasto, conforme lemos em “O Livro dos Médiuns”:

“Melhor é repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea.” [7]

Publicando ou simplesmente comentando um texto, podemos vir a influenciar um número inimaginável de pessoas. Por dever de caridade com o próximo e com nossa milenar e imortal consciência, devemos nos esforçar para exercermos uma influência benéfica.

Estudemos, pesquisemos as fontes das mensagens e avaliemos o seu mérito, analisando-as preferencialmente em um grupo de estudos, antes de levá-las adiante, pela Internet ou qualquer meio de comunicação. Não sigamos linhas de pensamento como as abaixo:

  • “Repasso porque recebi” — no momento em que repassamos algum conteúdo, seja ele um texto, uma fofoca etc., tornamo-nos corresponsáveis pelo mesmo e pelas consequências que ele gerar.
  • “Não tenho tempo para conferir as mensagens; se alguém encontrar um problema, que alerte.” — a responsabilidade pela verificação da veracidade do que enviamos não é “dos outros”: é inteiramente nossa. Sobre a frequentemente alegada falta de tempo, Kardec recomenda, no livro “O Que É o Espiritismo”: “(...) quando nos falta o tempo para fazer conscienciosamente uma coisa, é melhor não fazê-la; é preferível produzir um só trabalho bom a fazer dez maus.” [8]
  • “O texto dizia que era do Chico Xavier e tinha umas fotos tão bonitas...” — imagens e músicas bonitas em uma apresentação são forma, e a forma não pode ser mais importante do que o conteúdo. Ademais, há centenas de textos atribuídos a pessoas de renome, como Chico Xavier, e que jamais foram escritas pelas mesmas. A conferência da fonte é imprescindível.

A divulgação responsável de todo conhecimento, incluindo a Doutrina Espírita, demanda estudo e dedicação. A facilidade de um clique de mouse para repassar um e-mail não nos deve induzir ao repasse de mensagens que possam levar muitas pessoas a entendimentos distorcidos e que as façam males que repercutirão em nossa consciência e em nosso planejamento dos próximos anos ou séculos.


Estudar não é ofender

Ao não aceitarmos de pronto uma mensagem, seja comentada verbalmente, seja em um e-mail, corremos o risco de ofender o remetente se nos propusermos a analisá-la primeiramente? Kardec nos orienta:

“(...) os Espíritos verdadeiramente superiores nos recomendam de contínuo que submetamos todas as comunicações ao crivo da razão e da mais rigorosa lógica.” [9]

O Codificador nos instrui, portanto, que Espíritos realmente evoluídos não apenas não se ofendem, como nos recomendam analisar as mensagens antes de as assimilarmos.


Orientações milenares

Os primeiros trabalhadores do Cristianismo já traziam, há dois milênios, orientações sobre a responsabilidade com o que se retransmite a partir dos dados a que temos acesso.

O Evangelista João recomendava, em sua primeira carta:

“Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai os espíritos, se vêm eles de Deus; porque muitos falsos profetas têm aparecido no mundo.” (1ª carta de João, 04:01)

A passagem acima ressalta como a interação saudável com o Plano Espiritual nada possuía de anormal ou místico (vide Números, 11:26-29; Marcos, 9:38-40 etc., passagens abordadas em nossa postagem “Mediunidade na Bíblia”, em nosso Blog). As palavras de João também demonstram que o contato irresponsável com a Espiritualidade era tão repreensível àquela época quanto o era por Moisés (vide Deuteronômio, 18:9-14; Levítico, 19:31 etc., também abordados em nossa postagem “Mediunidade na Bíblia”) e o é pela Doutrina Espírita (estudemos “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, por exemplo, no capítulo 21, item 7; capítulo 26, itens 8 e 9 etc.).

Estendamos o entendimento desse trecho da primeira epístola de João, considerando que não podemos acreditar cegamente em nenhum Espírito, inclusive nos encarnados. Todos os dados que recebemos devem passar por um estudo criterioso, antes de os podermos repassar de forma responsável.

Consideremos, também, o significado da palavra profeta, utilizada por João Evangelista. Em seu sentido original, profeta significa, simplesmente, porta-voz (vide postagem “Falsos Cristos, falsos profetas e seus seguidores”, neste Blog). Um falso profeta é, assim, quem afirma um conjunto de valores, mas efetivamente segue outro. Sejamos, portanto, porta-vozes de mensagens positivas e coerentes com o nosso credo.

Paulo de Tarso, um dos maiores divulgadores da mensagem do Cristo, também traz preciosas orientações:

“Não extingais o Espírito, não desprezeis as profecias; mas examinai tudo, retende o bem; abstende-vos de toda a forma do mal.” (Primeira Carta de Paulo aos Tessalonicenses, 05:19-22)

O apóstolo dos gentios, em poucas palavras, nos recomenda não vivermos apenas em função dos valores materialistas; não ignorarmos os porta-vozes de mensagens elevadas; estudar — e não aceitar irracionalmente — o que nos chegar de dados e assimilarmos o que estiver de acordo com a Lei Divina, abrindo mão de tudo que faça mal a nós e aos nossos semelhantes.


Comunicação cristã

Independente de termos uma semana ou 70 anos de estudo espírita, tudo o que nós dissermos, escrevermos ou encaminharmos certamente influenciará pessoas, sejam elas de nosso círculo de amizades, sejam elas desconhecidas e residentes a milhares de quilômetros.

Uma comunicação cristã traz o foco no diálogo fraterno, contendo mensagens de cunho positivo, focando no caminho a seguir, e não no caminho a temer. Noticiemos, de forma responsável, o Movimento Espírita; há eventos que nada têm de espíritas, ainda que o digam sê-lo. Colaboremos na divulgação e estudo responsáveis da Doutrina Espírita — todos podemos fazê-lo.

Muita gente diz estar “há poucos anos” frequentando Casa Espírita e, por isso, não sabe ou pode fazer nada ainda, já que ainda não recebeu orientação sobre sua vocação. André Luiz traz conclusão diferente a esse respeito:

“Não viva pedindo orientação espiritual, indefinidamente. Se você já possui duas semanas de conhecimento cristão, sabe, à saciedade, o que fazer.” [10]

O texto que enviarmos pode ser recebido como uma referência pelo destinatário, pois ele pode saber que frequentamos um Centro Espírita — mesmo que há apenas uma semana — e, portanto, devemos saber o que estamos falando. Sempre somos responsáveis pelo que falamos, escrevemos ou encaminhamos.


Situações que merecem atenção

Circulam, pela Internet, dezenas de mensagens apócrifas (que não são do autor a que se atribui) e de textos que se dizem espíritas, mas que não se sustentam pelos preceitos das obras de Allan Kardec. Esses textos e padrões de mensagens se repetem ao longo dos anos; por isso, é importante reconhecê-los. Vejamos alguns exemplos:

  • Mensagens, alegadamente de autores famosos, prevendo catástrofes e/ou aproximação de planetas de vibração negativa e alegando confirmação por entidades científicas. Nosso mundo não está involuindo! A Terra também recebe grande influência de mundos mais evoluídos. A Lei do Progresso impele pessoas e mundos sempre no sentido da sua melhoria; basta comparar a situação da Terra em relação a 1.000 anos atrás. Por isso, Espíritos evoluídos não trazem mensagens deprimentes, difundindo valores como a piora de nosso planeta, pois isso não procede;
  • A respeito dos presságios relatados acima, leem-se vários destes com detalhes de datas, notoriamente sobre eventos como cataclismos, referindo Espíritos de renome como os autores das previsões. Esse tipo de mensagem não é avalizada pelo estudo doutrinário. Allan Kardec ressalta, em “O Livro dos Médiuns”: “A previsão de qualquer acontecimento para uma época determinada é indício de mistificação.” [11]
  • Perfis falsos em redes sociais. Por exemplo: na rede social Facebook, encontram-se “perfis” do conferencista e médium Raul Teixeira. Em seu site (http://www.raulteixeira.com.br/), o próprio Raul, em julho de 2011, esclareceu não ter nada no Facebook. É muito fácil criar um perfil com qualquer nome em uma rede social. Tenhamos atenção para com quem seguimos; o uso de uma identidade falsa, em si, já levanta suspeitas sobre o que será veiculado de mensagens;
  • Textos modificados, com omissões e inclusões de textos em relação ao original. Muitos textos espíritas encontrados na Internet foram digitados por voluntários dedicados, mas que nem sempre contam com uma equipe na qual alguns digitam e outros conferem os textos com os livros originais. Seja por simples engano, seja com interesses escusos, muitos textos encontrados na Internet são diferentes dos originais. Recomendamos não utilizá-los sem antes conferirmos dois aspectos: se estão idênticos aos livros e se não há restrição à sua reprodução;
  • Ataques pessoais a vultos do Espiritismo, frequentemente sem nenhuma base além de suspeitas e boatos. Não devemos ver as pessoas, inclusive os grandes trabalhadores do Movimento Espírita, como santas ou intocáveis; tampouco, porém, devemos dar atenção ao primeiro boato infundado do polemista do momento. Desserviços assim não ocorrem apenas no meio espírita: foram lançados até livros e filmes acusando Madre Teresa de oportunismo e corrupção!


Não alimentemos polêmicas

Polemistas profissionais desejam tomar tempo e energia dedicáveis ao Bem. São pessoas que ainda consomem todo seu tempo e raciocínio a encontrar defeitos nos trabalhos alheios, sem sobrar tempo e energia para buscar fazer algo em prol do bem.

Novamente seguindo o conselho de Paulo de Tarso na Primeira Epístola aos Tessalonicenses, ouçamos as críticas e assimilemos aquelas que sejam construtivas e nos apontem oportunidades de melhoria, sem trazermos para nosso mundo íntimo o lodo das palavras ácidas e inúteis.

Kardec afirma, em “Obras Póstumas”, que a Doutrina Espírita,

“Querendo ser aceita livremente, por convicção e não por constrangimento, proclamando a liberdade de consciência um direito natural imprescritível, diz: Se tenho razão, todos acabarão por pensar como eu; se estou em erro, acabarei por pensar como os outros. Em virtude destes princípios, não atirando pedras a ninguém, ela nenhum pretexto dará para represálias e deixará aos dissidentes toda a responsabilidade de suas palavras e de seus atos.” [12]

Não desperdicemos tempo e energia em debates com seguidores de outras religiões, e mesmo com ateus, para descobrir “quem está com a razão”. Quando perseguimos a resposta a essa inútil pergunta, estamos em busca de quem é o melhor ou o maior, tema muito bem esclarecido por Jesus e relatado pelo evangelista Lucas. Estêvão, um dos cristãos da primeira hora, em debate com Saulo de Tarso antes de sua conversão ao Cristianismo, também traz importante conselho sobre os debates improdutivos, conforme Emmanuel nos relata no livro “Paulo e Estêvão”:

“Jesus teve a preocupação de recomendar a seus discípulos que fugissem do fermento das discussões e das discórdias. Eis por que não será lícito perdermos tempo em contendas inúteis, quando o trabalho do Cristo reclama o nosso esforço.” [13]


Concluindo...

Não fazemos ideia do alcance daquilo que dizemos ou de nossa influência sobre as pessoas. Façamos com que seja uma influência positiva.

Revisemos previamente, em relação ao original, os textos que pretendemos divulgar — seja por e-mail, em uma rede social, Blog, verbalmente, por escrito etc.

Ao encaminhar e-mails, utilizemos cópia oculta para não expor os endereços dos destinatários; não enviemos anexos grandes e procuremos seguir as demais regras de boa convivência da Netiqueta.

Não repassemos trechos de livros, imagens, áudios etc. que informem ter sua reprodução proibida.

Estudemos a Doutrina Espírita em grupo. Ainda não sabemos tudo; podemos deixar passar algum ponto errôneo que outro colega de estudos não deixará.

Há centenas de bons livros para lermos. Em vez de procurar o que ler de texto espírita apenas pela Internet, consultemos a biblioteca do Centro Espírita mais próximo de nossa residência ou local de trabalho.

Joanna de Ângelis recomenda, na mesma mensagem citada anteriormente:

“Aplica bem o tempo de que disponhas, quando a serviço da Mensagem.
Não desperdices oportunidade.
Elucida alguém, quando não o possas fazer a muitos.
O importante é a contribuição, modesta que seja, à obra da libertação espiritual.” [5]

Finalizamos com o sábio aconselhamento de Emmanuel, em mensagem frequentemente encontrada pela Internet com seu texto alterado do original:

“(...) trabalha para que a Doutrina Espírita lhes estenda socorro oportuno. Para isso, estudemos Allan Kardec, ao clarão da mensagem de Jesus-Cristo, e, seja no exemplo ou na atitude, na ação ou na palavra, recordemos que o Espiritismo nos solicita uma espécie permanente de caridade — a caridade da sua própria divulgação.” [14]


Leia também, neste Blog, as postagens “Os opositores da Doutrina Espírita”, “‘Pequenos’ Erros”, “Examinai Tudo. Retende o Bem.”, “Falsos Cristos, falsos profetas e seus seguidores”, “Mediunidade na Bíblia” e “Lei do Progresso”.


Bons estudos!
Carla e Hendrio


Referências:
[1] Wikipedia. Termo pesquisado: Internet. Disponível em http://en.wikipedia.org/wiki/Internet. Acesso em 05 de janeiro de 2013.
[2] Internet Users in the World; 2012-Q2. Disponível em http://www.internetworldstats.com/stats.htm. Acesso em 05 de janeiro de 2013.
[3] Internet Stats and Telecom Market Report for Brazil. Disponível em http://www.internetworldstats.com/sa/br.htm. Acesso em 05 de janeiro de 2013.
[4] The Opte Project. Disponível em http://www.opte.org/. Acesso em 05 de janeiro de 2013.
[5] FRANCO, Divaldo P. “Otimismo”. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 2.ed. Salvador, BA: Livraria Espírita Alvorada, 1983. Capítulo 38 (“Pregando sempre”).
[6] Federação Espírita Brasileira. “Plano de Trabalho Para o Movimento Espírita Brasileiro (2013-2017)”. Disponível em http://www.febnet.org.br/wp-content/uploads/2012/11/Plano-de-Trabalho.pdf. Acesso em 13 de janeiro de 2013.
[7] KARDEC, Allan. “O Livro dos Médiuns”. 55.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Segunda parte, capítulo XX, item 230.
[8] KARDEC, Allan. “O Que É o Espiritismo”. 26.ed. São Paulo, SP: LAKE, 2001. Capítulo I. Primeiro diálogo — O crítico.
[9] KARDEC, Allan. “O Livro dos Médiuns”. 55.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Segunda parte, capítulo X, item 136.
[10] XAVIER, Francisco C. “Agenda Cristã”. Pelo Espírito André Luiz.  2.ed. de bolso. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1998. Capítulo 18 — “Lembranças úteis”.
[11] KARDEC, Allan. “O Livro dos Médiuns”. 55. ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Segunda parte, capítulo XXIV (“Da identidade dos Espíritos”), número 267, item 8.
[12] KARDEC, Allan. “Obras Póstumas”. 25.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1990. Segunda parte. “Constituição do Espiritismo”, § II — “Dos cismas”.
[13] XAVIER, Francisco C. “Paulo e Estêvão”. Pelo Espírito Emmanuel. 20.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1993. Capítulo V — “A pregação de Estêvão”.
[14] XAVIER, Francisco C. e VIEIRA, Waldo. “Estude e Viva”. Pelos Espíritos Emmanuel e André Luiz. 6.ed. Rio de Janeiro, FJ: FEB, 1986. Capítulo 40 — “Socorro oportuno”.


segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Ao encontro da paz

Ano novo é tempo de renovação de planos e esperanças. E o que desejamos para 2013? Algumas boas sugestões foram dadas por Dias da Cruz, na mensagem intitulada “Ao encontro da paz”, do livro Seareiros de Volta [1], que reproduzimos a seguir:

“Não te escravizes às farpas magnéticas do nervosismo!
Comum ouvir-se a declaração: ─ Quando leio o Evangelho não consigo concentrar-me na leitura!
No entanto, Cristo é o leme nas tempestades emocionais, o ponto de segurança em toda crise da alma.
Para espíritos enfermos não vale tão-só a necessária assistência ao corpo.
Indubitavelmente, a terapêutica tem lugar certo na indicação exata.
Respeita, pois, os notáveis avanços da medicina moderna em todas as nuanças de suas conquistas científicas; contudo, valoriza a farmácia espiritual que te enriquece as mãos.
Não dispenses o auxílio medicamentoso no momento devido, mas não permitas que xaropes e comprimidos te subjuguem a existência.
Antes prevenir que remediar.
Não cultives sintomas de perturbações ou doenças.
Deixa que a oração te regenere todas as forças.
Recorre ao passe curativo que asserena e restaura.
Sedativos aliviam, mas não reajustam. A prece, em razão disso, será sempre calmante eficaz.
Diversões auxiliam, mas não curam; entretanto, a reunião de estudos espíritas é valiosa psicoterapia aplicada em conjunto.
O copo dágua fluida, gratuito e simples, é mais prático de ser usado que a injeção intravenosa.
O culto do Evangelho no lar substitui, muitas vezes, com vantagem, a mais laboriosa sessão de psicanálise.
Perdão e esquecimento de todo mal avantajam-se indiscutivelmente ao relaxe por barbitúricos.
Intimação à própria vontade, para entregar-se ao bem, em muitos casos supera o choque insulínico quanto ao efeito benéfico.
Serviço desinteressado ao semelhante é a melhor terapia ocupacional.
Disciplina no prato, frequentemente, ainda é a receita ideal para perder peso.
Estudo edificante costuma remover a necessidade das internações de repouso.
Em muitas ocasiões, trabalho maciço é pronto-socorro à extinção da insônia.
No labirinto de temores difusos, evita o bloqueio dos próprios pensamentos. Abre o coração à fraternidade.
Comunica-te com alguém e ora convictamente. A fé raciocinada é o primeiro recurso no rumo de toda restauração, mas, quase sempre, é procurada em último lugar.
Ainda assim, controlar a mente, sustentando-se em atitude rígida, não basta por si só; carecemos de pensar no bem, fazendo o bem, para manter a própria harmonia.
É interessante lembrar que Jesus nunca esteve enfermo. Isso nos induz a verificar que ninguém jamais adoece por raciocinar, sentir e agir com o Evangelho, em espírito e verdade.”

Foto: Hendrio Belfort


Renovemos pensamentos, aspirações e atitudes!
Renovemos a nós mesmos!
Pequenas mudanças podem gerar grandes transformações.
Feliz 2013!
Bons estudos!

Carla e Hendrio

[1] VIEIRA, Waldo. “Seareiros de Volta”. Por Diversos Espíritos. 4ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. P. 86-87.

domingo, 14 de outubro de 2012

Homem de Bem

Jesus é a fonte de nossa inspiração, nosso modelo e guia, fato reforçado pela Espiritualidade Superior à questão 625 de “O Livro dos Espíritos” [1]. O Evangelho contém as orientações de Jesus para nossa evolução moral.

Estudemos o tema Homem de Bem com as palavras de Jesus registradas por Mateus em seu capítulo 5, começando pelo entendimento que o Mestre traz sobre Deus.


Um Novo Entendimento sobre Deus

Lemos, nestas anotações do evangelista, que Jesus, vendo as multidões, subiu a um monte e transmitiu sublimes ensinamentos. Ele disse os versos do poema das bem-aventuranças; orientou sermos o sal da terra, a luz do mundo; afirmou não ter vindo destruir a lei ou os profetas, mas demonstrar seu cumprimento, e finalizou dizendo:

“Sede vós, pois, perfeitos, como perfeito é o vosso Pai que está nos céus.” (Mateus 05:48)

Jesus afirmou não ter vindo destruir a lei divina, cujas orientações conhecidas pelo povo judeu Ele cita diversas vezes (exemplos: João 10:34; Lucas 10:26 etc. Por isso Ele reforça a citação da lei moisaica constante do livro Deuteronômio, em seu capítulo 18, versículo 13:

“Perfeito serás, como o Senhor teu Deus.”

Jesus compartilha conosco um novo entendimento sobre Deus. Já não é o Deus terrível, vingativo, ciumento apresentado por Moisés. É um Deus misericordioso, justo e bom, o qual perdoa a quem se arrepende e dá a cada um segundo as suas obras. É o Pai comum do gênero humano; é o Deus que quer ser amado, não temido. Allan Kardec desenvolveu um paralelo entre a ideia de Deus da época de Moisés e aquela que Jesus nos trouxe; esse importante entendimento encontra-se no livro “A Gênese”, quinta obra da Codificação Espírita, em seu capítulo I — “Caráter da Revelação Espírita” —, itens 21 a 25. [2]

A Doutrina Espírita vem ampliar nosso entendimento sobre Deus, partindo das ideias já trazidas por Jesus, nos esclarecendo, na primeira questão de “O Livro dos Espíritos”, que Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas [3]. Deus é infinito em Suas perfeições, e podemos ter uma ideia de algumas dessas perfeições: Deus é eterno, imutável, único, onipotente, soberanamente justo e bom.


“Sermos perfeitos como nosso Pai”

Dentro de nossas possibilidades, podemos entender Deus como o máximo de todas as virtudes imagináveis. Não há bondade nem amor maiores do que os expressos por Deus à Criação.

Todos somos filhos de Deus. Não há como chegarmos à perfeição absoluta de Deus, senão seríamos Deus também; contudo, podemos atingir um grau de perfeição relativa.

Desta forma, quando Jesus nos disse “Sede perfeitos como perfeito é vosso Pai”, Ele nos apresentou um modelo de perfeição que deveríamos nos esforçar para alcançar.

À questão 115 de “O Livro dos Espíritos”, a Espiritualidade Superior nos esclarece que:

“Deus criou todos os Espíritos simples e ignorantes, isto é, sem saber. A cada um deu determinada missão, com o fim de esclarecê-los e de os fazer chegar progressivamente à perfeição, pelo conhecimento da verdade, para aproximá-los de si.” [4]

As orientações acima ilustram a justiça perfeita de Deus, dando a todos nós o mesmo início. Ninguém é criado com privilégios. Através das provas que vivenciamos, tanto no plano espiritual como no plano de matéria densa, vamos aprendendo e desenvolvendo em nós as virtudes latentes que nos aproximam de Deus. Cada um, no entanto, segue o ritmo de sua escolha. Alguns aceleram seu aprendizado, outros temporariamente o adiam. À mesma questão acima, lemos, ainda:

“Nesta perfeição é que eles encontram a pura e eterna felicidade. Passando pelas provas que Deus lhes impõe é que os Espíritos adquirem aquele conhecimento.” [4]

O motivo de buscarmos nos aperfeiçoar é porque, atingindo essa perfeição, encontramos a felicidade. Se desejamos ser felizes, devemos direcionar nossos esforços para evoluirmos moral e intelectualmente.


A Escala Espírita

Allan Kardec perguntou aos Espíritos Superiores, na questão de nº 114, se os Espíritos são bons ou maus por natureza, ou são eles mesmos que se melhoram, recebendo a seguinte orientação:

“São os próprios Espíritos que se melhoram e, melhorando-se, passam de uma ordem inferior para outra mais elevada.” [5]

Concluímos, assim, ser nossa a responsabilidade por passar de uma ordem espiritual para outra, ou seja, progredirmos. Além disso, estamos encarnados neste mundo para colaborar com o progresso de nossos semelhantes e do próprio mundo.

Nos itens 100 a 113 de “O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec propõe uma Escala Espírita, na qual os Espíritos estão classificados em três ordens: Espíritos imperfeitos, bons Espíritos e Espíritos puros, sendo que as duas primeiras ordens possuem subdivisões [6].

Como já comentamos em outro estudo neste Blog (postagem “A Influência de ‘Maus
Espíritos), esta escala não serve para rotular ninguém. Utilizemo-la para avaliar nossas próprias conquistas morais e intelectuais e para ver o quanto ainda temos a evoluir.

Para evoluir plenamente, o Espírito também possui lições a vivenciar em mundos de matéria densa, necessitando, portanto, reencarnar. Não é possível aprendermos tudo em apenas uma existência corpórea. Assim, a viagem evolutiva do Espírito se faz em sucessivas reencarnações, na qual, em cada uma, ele evolui em um ou mais aspectos. Também nos desenvolvemos e aprendemos enquanto estamos na erraticidade, ou seja, no Plano Espiritual, no intervalo entre as encarnações, conforme definido à questão 224 de “O Livro dos Espíritos” [7]. Partimos de Deus, simples e sem conhecimentos, e vamos retornar a Deus, aperfeiçoados, como Espíritos Puros, colaborando na Criação, como Jesus nos orientou (João 14:12).

Foto: Carla Engel

 
Perfeição e Imperfeição

Apresentamos, acima, a visão macro da jornada evolutiva a realizarmos. Esta jornada se realiza passo a passo, no dia-a-dia. Devemos perseguir a meta final, chegar à perfeição, como Jesus nos falou. Para tanto, é importante saber como chegar lá: estudemos em que patamar nos encontramos, o que pretendemos melhorar nesta encarnação e o caminho a utilizar para chegarmos a essas metas.

Podemos considerar dois extremos: o que caracteriza a imperfeição e o que caracteriza a perfeição. Iniciemos com a imperfeição.

Encontramos importantes orientações a respeito disso à questão 895 de “O Livro dos Espíritos”, na qual os Espíritos Superiores respondem que o sinal mais característico da imperfeição é o interesse pessoal [8]. Dizem eles ainda que o desinteresse é coisa tão rara na Terra que, quando se patenteia — ou seja, quando se observam ações desprovidas de interesse próprio —, todos o admiram, como se fora um fenômeno.

Vejamos, agora, o que caracteriza a perfeição. Allan Kardec questionou os Espíritos Superiores sobre o tema, à questão 918 de “O Livro dos Espíritos”, obtendo a resposta a seguir:
Por que indícios se pode reconhecer em um homem o progresso real que lhe elevará o Espírito na hierarquia espírita?
‘O Espírito prova a sua elevação, quando todos os atos de sua vida corporal representam a prática da lei de Deus e quando antecipadamente compreende a vida espiritual.’” [9]

Analisemos a primeira parte da resposta: a prática da lei de Deus, ou seja, a Lei Natural, a qual indica o que o homem deve fazer ou deixar de fazer. Afastando-se dela, o homem torna-se infeliz. A prática da lei de Deus representa fazer aos outros aquilo que nós gostaríamos que eles nos fizessem.

Todos podem conhecer a Lei Divina, pois ela está escrita em nossa consciência [10], porém nem todos ainda a compreendem e aplicam. Essa compreensão e prática vão se ampliando à medida da nossa evolução moral e intelectual.

À questão acima referida, ao definirem os indícios pelos quais se reconhece a elevação de uma pessoa, os Espíritos não afirmaram ser quando todos os conhecimentos de sua vida corporal representam a prática da lei de Deus, e sim quando todos os atos de sua vida corporal representam a prática das Leis Divinas.

Ainda analisando a resposta à questão 918 de “O Livro dos Espíritos”, o Espírito prova a sua elevação quando antecipadamente compreende a vida espiritual. Tal condição se verifica quando devotamos aos bens materiais o seu valor real, não os supervalorizando como se estes fossem as últimas ou únicas coisas da Terra ou o que há de mais importante no mundo. Significa sermos um pouco mais pacientes, compreensivos, tolerantes, porque entendemos que tudo o que vivenciamos aqui passa, é uma fase, um aprendizado.

Quando voltarmos à vida espiritual, ou seja, deixarmos aqui nosso corpo físico pela desencarnação, forçosamente retomaremos o contato com este plano da vida. O Espírito André Luiz relata ter vivenciado esta retomada sem preparação para tal no livro “Nosso Lar”. A recomendação dos Espíritos, contudo, é a de dispormos de uma compreensão antecipada da vida espiritual, antes de para lá retornarmos, visando a melhor aproveitar o estágio de aprendizado no mundo de matéria densa.


Caminho Evolutivo: Justiça, Amor e Caridade

Para sabermos o que já conquistamos e o que ainda temos a evoluir em termos morais e intelectuais, é necessário desenvolver, praticar e constantemente aprimorar o autoconhecimento, processo de análise íntima de nós para conosco, realizada de forma particular, honesta, sem condescendência nem crítica destrutiva. Na questão de nº 919-a, em O Livro dos Espíritos, Santo Agostinho nos dá o seu método de análise pessoal. [11]

Reconhecidas oportunidades de melhoria em nosso ser, o caminho para atingi-las só pode ser a prática do bem, pois aprendemos, na Doutrina Espírita, que, fora da Caridade não há salvação, conforme podemos estudar no capítulo XV de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” [12].

Assim como precisamos conhecer detalhes do caminho para chegarmos um destino, a fim de mais rapidamente atingi-lo, não basta nos limitarmos a desejar chegar à perfeição, sem conhecimento das características dessa perfeição. Ao estudar os Caracteres do Homem de Bem, à questão 918 de “O Livro dos Espíritos” [9], Allan Kardec enumerou algumas dessas características — ou seja, alguns dos nossos objetivos, caso desejemos nos tornar mulheres e homens de bem.

Em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, Kardec retoma esse assunto no capítulo XVII — “Sede Perfeitos” —, no qual é analisada passagem evangélica de Mateus 05, capítulo 05, versículo 48, citada acima. No item 3 do capítulo “Sede Perfeitos”, sob o título de “O Homem de Bem”, o Codificador amplia o rol de características constante de “O Livro dos Espíritos”:
“O verdadeiro homem de bem é o que cumpre a lei de justiça, de amor e de caridade, na sua maior pureza.” [13]

O dicionário nos orienta que cumprir significa executar com exatidão, obedecer. Assim, o homem de bem é o que executa com exatidão, obedece, pratica a Lei de Justiça, Amor e Caridade, na sua maior pureza.

A Codificação Espírita também analisa o que vem a ser a Lei de Justiça, Amor e Caridade. Kardec dedica o capítulo 11 da 3ª parte de “O Livro dos Espíritos” para estudar essa Lei. [14]

Justiça, conforme o ensino dos Espíritos Superiores à questão 875 de “O Livro dos Espíritos”, consiste em cada um respeitar os direitos dos demais. Kardec então pergunta o que determina tais direitos, e os Espíritos explicam que tais direitos são determinados tanto pela lei humana quanto pela lei divina ou lei natural [15].

A lei humana é mutável, transitória, pois estamos em evolução, e o que achávamos certo em determinada época é compreendido de forma distinta nos dias atuais. Por isso nossas leis devem sofrem melhorias, refletindo o nosso grau de adiantamento. As Leis Divinas, porém, são imutáveis pois Deus é infinitamente perfeito e sábio. As Leis de Deus estão escritas em nossa consciência. É por isso que, mesmo não havendo uma lei que diga que devemos nos entender com nossos familiares, nossa consciência nos indica claramente que esse tipo de comportamento é o adequado. Observamos, mais uma vez, a necessidade de ouvirmos nosso íntimo, de agirmos com mais cuidado e não apenas reagirmos, para que nossos atos sejam de acordo com o que nossa consciência nos indica como mais correto.

Tendo analisado a questão da Justiça, ponderemos brevemente agora sobre o Amor e a Caridade.

Kardec indagou aos Espíritos Superiores sobre o verdadeiro sentido da palavra caridade, conforme a entendia Jesus, tendo recebido a orientação de que caridade é:
“Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas.” [16]

Kardec, em seu comentário à resposta acima, nos diz que:
“O amor e a caridade são o complemento da lei de justiça, pois amar o próximo é fazer-lhe todo o bem que nos seja possível e que desejáramos nos fosse feito.” [16]

Assim, o homem de bem cumpre integralmente a Lei de Justiça, Amor e Caridade, respeitando os demais e fazendo a eles tudo o que gostaria que os outros lhe fizessem.

O desenvolvimento do texto do comentário de Kardec à questão 918 de “O Livro dos Espíritos” é a explicação de como o homem de bem dá cumprimento à Lei de Justiça, Amor e Caridade em sua vida.     O processo inicia pelo contato consigo mesmo, a autoanálise, interrogando à própria consciência sobre os atos que praticou. É interrogada a consciência, pois ali está escrita a Lei Divina.


Maturidade e Cuidado

Percebe-se também que o homem de bem é sincero, conhece a si mesmo, não precisa tentar esconder de si mesmo atos que tenha praticado, pois periodicamente ele analisa, interroga, observa a si próprio. Isso demonstra maturidade espiritual em progresso. Quando somos crianças, precisamos de alguém para nos dizer quando nos alimentar, tomar banho etc. Quando atingimos a maturidade, entendemos o porquê dessas atividades e nós mesmos nos suprimos, ou seja, cuidamos bem de nós.

O homem de bem cuida da alma e observa seus atos. Ele indaga se não transgrediu a Lei de Justiça, Amor e Caridade; multiplica perguntas para responder a esta primeira. Não fez o mal a ninguém? Neste âmbito, sua análise é aprofundada, porque não se está abordando apenas aquele mal segundo a justiça humana, o que consideramos crimes e/ou o que todos podem ter visto: é o mal em termos de desejar o mal — pode não ser crime para as leis humanas, mas é um mal para as Leis Divinas —; pensar algo negativo; sentir uma alegria mórbida quando sucede algo negativo à pessoa com quem não se simpatiza, ou simplesmente ser indiferente ao sofrimento alheio...

Qual o bem que podemos fazer? Há a caridade material, representada por bens materiais, dinheiro, comida etc., e há a caridade moral, que nada custa e todos podem praticar: saber calar; saber ser surdo a uma palavra zombeteira; relevar o desprezo dos outros e mais atitudes listadas em mensagem mediúnica assinada por Irmã Rosália [17]; ter paciência; sorrir; fazer uma prece; desejar o bem. Nas palavras do Codificador,
“Todo aquele que sinceramente deseja ser útil a seus irmãos, mil ocasiões encontrará de realizar o seu desejo.” [18]

Kardec indica, na listagem dos caracteres do homem de bem, que este último interroga à consciência “(...) se ninguém tem motivos para dele se queixar” [9]. Importa nos questionarmos se o que pensamos ter feito de melhor, de fato o era. Era o de que nosso próximo realmente necessitava? Será que, em determinado momento, demonstramos impaciência; falamos algo que não devia...?

Allan Kardec também cita que o homem de bem se questiona, “enfim, se fez aos outros o que desejara que lhe fizessem.” [9] Aqui, o homem de bem se coloca no lugar do outro, não se limitando a reagir às situações com foco exclusivo em seus valores e situação. São algumas das indagações o homem de bem faz a si mesmo, analisando seu dia.

Na sua interação com os outros, o homem de bem,
“Possuído do sentimento de caridade e de amor ao próximo, faz o bem pelo bem, sem contar com qualquer retribuição, e sacrifica seus interesses à justiça.” [9]

Fazendo o bem pela alegria de fazer o bem, o homem de bem sabiamente não sofre de ingratidão, porque não espera realmente nada em troca. Se alguém não for grato ao bem que ele lhe fez, será apenas uma questão para a consciência do ingrato. O homem de bem não espera retribuição porque sabe que o que está fazendo é o certo, sendo a paz de consciência a melhor retribuição que ele tem.

O homem de bem sacrifica seus interesses pessoais à justiça, não buscando o “jeitinho”, levar vantagem; ele busca apenas o que é justo. Um ser devotado ao bem, nas palavras de Kardec,
“É bondoso, humanitário e benevolente para com todos, porque vê irmãos em todos os homens, sem distinção de raças, nem de crenças.” [9]

O ser no qual desejamos nos tornar, o homem de bem, tanto compreende a Paternidade Divina, que vê, em todos os homens, seus irmãos, sejam eles aqueles que torcem pelo time adversário; aqueles de outro país e, inclusive, aquele vizinho que, por vezes, é um teste à sua paciência...


Constante Evolução

Vejamos mais algumas características do homem de bem:
“Estuda suas próprias imperfeições e trabalha incessantemente em combatê-las. Todos os esforços emprega para dizer, no dia seguinte, que alguma coisa traz em si de melhor do que na véspera.” [13]

Verifiquemos, pela característica acima, que o homem de bem não é um ser plenamente evoluído. Ainda temos imperfeições, as quais precisamos corrigir através do nosso esforço. Como sua avaliação é contínua, o homem de bem sabe se melhorou alguma coisa em relação ao dia anterior, porque presta atenção às suas ações e se avalia periódica e honestamente.

O comprometimento com o progresso do Espírito é atitude muito importante, pois vem contrapor a ideia de que, se a pessoa nasce de um jeito, não é possível melhorá-la. Quem precisa querer modificar-se é a própria pessoa. É possível, sim, mudarmos, evoluirmos. Há pessoas que tinham um mau hábito, como o do fumo; que tomaram a resolução de mudar, e efetivamente largaram esse vício. Algumas vezes, pessoas há que passam por doenças sérias e mudam completamente seu estilo de vida. É possível mudarmos, se assim desejarmos e trabalharmos com determinação em prol dessa mudança.

Reforçando a ideia de podermos nos melhorar se desejarmos e agirmos, Allan Kardec questionou aos Espíritos Superiores, e registrou sua pergunta com o número 909, em “O Livro dos Espíritos”, se poderia o homem, com os seus esforços, vencer as suas más inclinações. E os Espíritos Superiores responderam que sim, e, frequentemente, com esforços muito insignificantes. O que lhe falta, dizem eles, é a vontade. [19]


Transição da Terra e Transição de Sua Humanidade

Estamos em meio a um processo de transição planetária [20]. Nosso planeta, de mundo de provas e expiações, está passando para uma outra categoria, a de mundo de regeneração. Assim, tanto os Espíritos quanto os planetas evoluem. E o que o homem de bem tem a ver com a transição planetária?

Lemos, na 5ª obra da Codificação, “A Gênese”, em seu capítulo XVIII (“São chegados os tempos”), item 27 (“A geração nova”), que:
“Para que na Terra sejam felizes os homens, preciso é que somente a povoem Espíritos bons, encarnados e desencarnados, que somente ao bem se dediquem.” [21]

Assim, é razoável pensar que a geração nova, a qual vem habitar a Terra, seja constituída de homens de bem, os quais, como vimos, não são ainda Espíritos perfeitos, pois ainda têm imperfeições a vencer, mas já estão inclinados à prática do bem. Kardec, no mesmo capítulo supracitado de “A Gênese”, fala sobre a geração nova:
“Não se comporá exclusivamente de Espíritos eminentemente superiores, mas dos que, já tendo progredido, se acham predispostos a assimilar todas as ideias progressistas e aptos a secundar o movimento de regeneração.”  [22]


Conclusão

Fica para nós o convite renovado de Jesus, o Mestre que nos conclama a sermos perfeitos como perfeito é nosso Pai, e nos esforçarmos em nossa melhoria, certos de que, em nos melhorando, estamos contribuindo efetivamente para a chegada desse mundo de paz e amor que tanto desejamos.
 
 
Bons estudos!
Carla e Hendrio


Referências:
[1] KARDEC, Allan. “O Livro dos Espíritos”. 66.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Questão 625.
[2] KARDEC, Allan. “A Gênese”. 34.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1991. Capítulo I (“Caráter da Revelação Espírita”), itens 21 a 25.
[3] KARDEC, Allan. “O Livro dos Espíritos”. 66.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Questão 1.
[4] Ibidem. Questão 115.
[5] Ibidem. Questão 114.
[6] Ibidem. Questões 100 a 113.
[7] Ibidem. Questão 224.
[8] Ibidem. Questão 895.
[9] Ibidem. Questão 918.
[10] Ibidem. Questão 621.
[11] Ibidem. Questão 919-a.
[12] KARDEC, Allan. “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. 97.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Capítulo XV.
[13] Ibidem. Capítulo XVII, item 3.
[14] KARDEC, Allan. “O Livro dos Espíritos”. 66.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Terceira parte, Capítulo XI.
[15] Ibidem. Questão 875-a.
[16] Ibidem. Questão 886.
[17] KARDEC, Allan. “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. 97.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Capítulo XIII, item 9.
[18] Ibidem. Capítulo XIII, item 6.
[19] KARDEC, Allan. “O Livro dos Espíritos”. 66.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Questão 909.
[20] KARDEC, Allan. “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. 97.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Capítulo III, item 19.
[21] KARDEC, Allan. “A Gênese”. 34.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1991. Capítulo XVIII, item 27.
[22] Ibidem. Item 28.