quinta-feira, 4 de junho de 2009

Nascer de água

O pesquisador Carlos Torres Pastorino indica, em sua obra "Sabedoria do Evangelho", volume 2*, que o trecho "Se um homem não renascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus" (João, 3:5) , da conversa com o fariseu de nome grego Nicodemos ("vencedor do povo"), Doutor da Lei e chefe dos judeus, teve várias interpretações. Tem-se, então:

1. Interpretação literal: adotada pela igreja Católico-Romana. Jesus diz a Nicodemos que a criatura só pode obter o Reino de Deus (salvar-se) se renascer pela água (que é mesmo a água física do batismo) e pelo espírito (que é a infusão do Espírito Santo). Daí ser traduzido o versículo 8 por "o vento sopra onde quer", como um simples exemplo da liberdade do Espírito. O batismo é um rito de iniciação que se tornou um "sacramento". A palavra latina sacramentum é a tradução do grego µυστεριον (mysterion), e corresponde aos mistérios gregos que se aplicavam aos catecúmenos (profanos que haviam recebido a instrução oral e estavam prontos para ser "iniciados" nos mistérios). Nesse sentido era usada a palavra sacramento. No século 4º, Ambrósio introduziu no latim a palavra grega mysterium, com o sentido de "coisa oculta", segredo não revelável a estranhos. O sacramento do batismo é a junção da água e das palavras que dão o Espírito, e se define: "sinal sensível que exprime e produz a graça santificante, permanentemente instituído por Jesus Cristo" (Tanquerey, Theologia Dogmatica, vol. III, n. 248). E Agostinho (Tratado 80, in Johanne n.3) confirma: No batismo há palavra e água. Tira a palavra, que fica? água pura. Se a palavra é unida ao elemento, temos o sacramento. Que força teria a água de lavar o coração, se não fossem as palavras"? (Patrol. Lat., vol. 35, col. 1810).

Essa é a única interpretação lícita, segundo o Concílio de Trento (1545 a 1563), na sessão 7, cânon 2:

"Si quis dixerit aquam veram et naturalem non esse de necessitate baptismi, atque ideo verba illa Domini nostri Jesu Christi: nisi quis renatus fueri ex aqua et Spiritu Sancto" ad metaphoram aliquam detorserit, anathema sit".

"Se alguém disser que não há necessidade de água verdadeira e natural para o batismo, e igualmente que devem ser interpretadas como metáfora as palavras de nosso Senhor Jesus Cristo: 'se alguém não renascer da água e do Espírito Santo', seja anátema".

Há, pois, uma interpretação fixada como dogma.

2. Interpretação alegórica: Foi justamente a condenada pelo Concílio de Trento, cujo artigo se dirigia contra Calvino e Grotius. Essa interpretação ainda é seguida pela maioria dos evangélicos (protestantes).

A explicação da "água" corresponde ao rito do batismo. Mas o "espírito" tem novo significado: é o renascimento moral, a vida nova ou o novo teor de vida no caminho de Cristo. O sentido do renascimento espiritual, com a morte do "homem velho" e o nascimento do "homem novo" é muitas vezes ensinado nas Escrituras, desde o Antigo Testamento: "Lançai de vós todas as vossas transgressões, com que errastes, e fazei-vos um coração novo e um espírito novo" (Ez.18:31); "Também vos darei um coração novo e dentro de vós porei um espírito novo" (Ez.36:26); "Se alguém está em Cristo, é uma nova criação: passou o que era velho, eis que se fez novo" (2 Cor.5:17); "Não mintais uns aos outros, tendo-vos despido do homem velho com seus feitos e tendo-vos revestido do homem novo" (Col.3:9); e ainda 2 Cor.2:11-13 ou Ef. 4:20-24 e Rom.6:3-11.

A tradução adotada no versículo 8 é também "vento", defendendo-se a tradução com a frase do Eclesiastes (11:5): "Tu não sabes o caminho do vento". Entretanto, aí a palavra usada não é πνευµα (pneuma), mas ανεµος (anemos). Quanto ao verbo pnei, se é usado com sentido de "soprar" com referência ao vento, também pode significar "agir, exteriorizar-se, manifestar-se" em relação ao espírito. O latim traduz πνευµα (pneuma) por "spiritus" e πνει (pnei) por "spirare", dentro do sentido grego. Mas também em português usamos o mesmo radical, quer se trate do espírito (inspiração) quer se trate do vento (respiração), que se divide em inspiração e expiração; e quando o espírito se retira, dizemos que a pessoa "expirou".

3. Interpretação físio-realista: Aceita pelos espiritistas, como ensino da realidade fisiológica do que ocorre com as criaturas. A tradução de "ανουεν" é "de novo", tal como a entendeu Nicodemos, que pergunta como pode "o homem, depois de velho, entrar pela segunda vez (δευτερον, deuteron) no ventre materno".

A essa indagação, longe de protestar que não era isso o que queria dizer, Jesus insiste e confirma suas palavras: "é o que te disse: indispensável se torna que o homem nasça de água (isto é, materialmente, com o corpo denso, dado que o nascimento físico é feito através da bolsa d’água do liquido amniótico) e de espírito (ou seja, que adquira nova personalidade no mundo terreno, em cada nova existência, a fim de progredir)." Se Nicodemos entendeu à letra as palavras de Jesus, o Mestre as confirma à letra e reforça seu ensino. Com efeito, o espírito, ao reentrar na vida física, pode ser considerado novo espírito que reinicia suas experiências esquecido de todo o passado.

Em grego não há artigo diante das palavras "água" e "espírito". Não é, portanto, nascer da água do batismo, nem do espírito, mas de água (por meio da água) e de espírito (pela reencarnação do espírito).

Daí a explicação que se segue: "o que nasce da carne (com artigo em grego) é carne", isto é, é o corpo físico, com toda a hereditariedade física herdada do corpo dos pais; e o que nasce do espírito é espírito", ou seja, o espírito que reencarna provém do espírito da última encarnação, com toda a hereditariedade pessoal que traz do passado". E Jesus prossegue: "por isso não te admires de eu te dizer: é-vos necessário nascer de novo". Observe-se a diferença de tratamento: "dizer-TE" no singular, e "é-VOS" no plural, porque o renascimento é para todos, não apenas para Nicodemos. E mais: "o espírito sopra (isto é, age, reencarna, se manifesta) onde quer, e não sabes donde veio (ou seja, sua última encarnação), nem para onde vai (qual será a próxima)."

As palavras de Jesus foram de molde a embaraçar Nicodemos, que indaga: "como pode ser isso"? E Jesus: "Tu que (entre nós dois) és o Mestre de Israel, te perturbas com estas coisas terrenas? Que te não acontecerá, então, se te falar das coisas celestiais (espirituais)"?

Logicamente Jesus não podia esperar que Nicodemos entendesse as outras interpretações mais profundas desse ensinamento (como dificilmente poderia ter querido ensinar o rito do batismo, que não havia ainda sido instituído nem ordenado por ele, a essa época, quando só havia o "batismo" de João).

Depois exemplifica: "como Moisés ergueu a serpente no deserto, assim o Filho do Homem será erguido da Terra".

Paulo interpreta assim esse ensinamento de Jesus: "Mas quando apareceu a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com os homens, não por obras de justiça que tivéssemos feito, mas segundo sua misericórdia nos salvou pelo lavatório da reencarnação, e pelo renascimento de um espírito santo" (Tit. 3:4-5). As palavras utilizadas são bastante claras e insofismáveis: lavatório (lavar com água; λουτρον (loutron) da reencarnação: παλιγγενεσια (paliggenesia) que é o termo técnico da reencarnação entre os gregos; pelo renascimento ("anaxinóseos") isto é, um novo nascimento). Paulo, pois, diz que Deus nos salvou não porque o tivéssemos merecido, mas por Sua misericórdia, servindo-se da palingenésia (isto é, da reencarnação) a qual é um "lavatório" (de água) e um "renascimento" do espírito.

Que o renascimento é feito através da água, já o diz o Gênesis (cfr.1:1-2; 1:6-7 e 2:4-7).




Nesse mesmo pensamento, se expressa o Codificador, na obra "O Evangelho Segundo o Espiritismo"**, capítulo IV, item 8: "segundo essa crença, a água se tornara o símbolo da natureza material, como o Espírito era o da natureza inteligente". Estas palavras: "se o homem não renasce da água e do Espírito, ou em água e em Espírito", significam, pois: "se o homem não renasce com seu corpo e sua alma."

Bons estudos!
Carla e Hendrio

*PASTORINO, Carlos Torres. "Sabedoria do Evangelho". Rio de Janeiro, RJ: Sabedoria, 1964. Volume 2. p. 2-6.
**KARDEC, Allan. "O Evangelho Segundo o Espiritismo". 2ª ed. de bolso. Rio de Janeiro: RJ, FEB: 1999.

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