sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A lei de talião

A expressão “lei de talião” advém do latim lex talionis, onde lex significa lei e talis significa tal, ou igual. É o estabelecimento da proporcionalidade da pena no mesmo grau percebido da ofensa. Suas primeiras referências históricas constam das leis 196, 197 e 200 do Código de Hamurabi (por volta de 1780 a.C.). Na Torá ou Lei de Moisés (estima-se ter sido escrita pelo profeta no século 13 a.C.), esta lei é expressa em trechos como Êxodo 21:23-25; Levítico 24:20 e Deuteronômio 19:21.

A lei de talião é conhecida pelas expressões “olho por olho, dente por dente”; “pagar na mesma moeda”; “aqui se faz, aqui se paga”, entre outras. Tal pena é frequentemente indicada para referir uma punição cruel. Porém, em nosso mundo íntimo, se não contivermos e modificarmos nossos instintos inferiores, podemos nos perceber acalentando essa ideia, se não pensamentos ainda piores.

Ao recebermos uma ofensa, podemos superá-la com o pensamento caridoso de que o ofensor é uma pessoa necessitada de esclarecimento e ajuda. Em vez disso, podemos desejar ofender na mesma proporção de ofensa por nós percebida, seguindo os preceitos de quase 3800 anos da lei de talião. E, pior, podemos desejar atos muito piores e desproporcionais. Veem-se, no quotidiano, brigas com lesões graves, originadas de acidentes leves de trânsito, onde tinham ocorrido apenas danos materiais. Meras divergências de opiniões ou interesses ainda geram de agressões a guerras, em pleno século 21 d.C. Notemos a gravidade da situação: tais atitudes nos situam moralmente na Antiguidade da História; eram ações apenas tidas como razoáveis há mais de quatro mil anos! Não podemos permanecer tão atrasados em questões morais — e é o fazemos quando afirmamos, orgulhosamente, que “não levamos ofensa para casa”, ou que “bateu, levou”.


Uma interpretação literal do Evangelho parece endossar a aplicação, por nós, da lei de talião. A Doutrina Espírita, buscando a essência moral dos ensinos de Jesus, alerta para erros como esse. À questão 764 de “O Livro dos Espíritos”, encontramos:

Disse Jesus: Quem matou com a espada, pela espada perecerá. Estas palavras não consagram a pena de talião e, assim, a morte dada ao assassino não constitui uma aplicação dessa pena?
‘Tomai cuidado! Muito vos tendes enganado a respeito dessas palavras, como acerca de outras. A pena de talião é a justiça de Deus. É Deus quem a aplica. Todos vós sofreis essa pena a cada instante, pois que sois punidos naquilo em que haveis pecado, nesta existência ou em outra. Aquele que foi causa do sofrimento para seus semelhantes virá a achar-se numa condição em que sofrerá o que tenha feito sofrer. Este o sentido das palavras de Jesus. Mas, não vos disse ele também: Perdoai aos vossos inimigos? E não vos ensinou a pedir a Deus que vos perdoe as ofensas como houverdes vós mesmos perdoado, isto é, na mesma proporção em que houverdes perdoado, compreendei-o bem?’” [1]

Ou seja: se prejudicamos a alguém e perseverarmos nesse erro, sem darmos ouvidos à nossa consciência, acabaremos tendo de enfrentar erro similar imposto a nós, a fim de despertarmos. Contudo, não é esse o único caminho: se nos melhorarmos e trabalharmos por nosso aperfeiçoamento moral, pelo bem de nosso semelhante e de nosso planeta, não nos será necessária a pena de talião.

Deus, o Criador de tudo e de todos, é infinitamente justo e bom, e criou leis morais também perfeitas, como a Lei de Destruição, que não passa de uma transformação para melhor, como lemos à questão 728 de “O Livro dos Espíritos”.

Jesus propôs uma forma mais madura de buscar entender Deus. Na obra “A Gênese”, Allan Kardec, o Codificador da Doutrina Espírita, esclarece:

“A parte mais importante da revelação do Cristo, no sentido de fonte primária, de pedra angular de toda a sua doutrina é o ponto de vista inteiramente novo sob que considera ele a Divindade.
(...)
Já não é o Deus que faz da vingança uma virtude e ordena se retribua olho por olho, dente por dente; mas, o Deus de misericórdia, que diz: ‘Perdoai as ofensas, se quereis ser perdoados; fazei o bem em troca do mal; não façais o que não quereis vos façam.’” [2]


Somos, diariamente, convidados a destruir o ser humano da Antiguidade que ainda possa viver em nós, permitindo nascer um Espírito renovado, focado no bem da Humanidade, de forma coerente com a Lei de Amor enunciada por Jesus. Foi Ele quem apresentou a evolução da Lei de Moisés em tantos pontos, como o em foco:

“Tendes ouvido que foi dito: Olho por olho, e dente por dente.
Eu, porém, vos digo: Não resistais ao homem mau; mas a qualquer que te dá na face direita, volta-lhe também a outra;
(...)
Tendes ouvido que foi dito: Amarás o teu próximo e aborrecerás o teu inimigo.
Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem,
para que vos torneis filhos de vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e vir chuvas sobre justos e injustos.” (Mateus 05:38-45)

Allan Kardec, o Codificador da Doutrina Espírita, assim comenta a passagem evangélica acima:

“Ao orgulhoso este ensino parecerá uma covardia, porquanto ele não compreende que haja mais coragem em suportar um insulto do que em tomar uma vingança, e não compreende, porque sua visão não pode ultrapassar o presente. (...)
Levado o ensino às suas últimas consequências, importaria ele em condenar toda repressão, mesmo legal, e deixar livre o campo aos maus, isentando-os de todo e qualquer motivo de temor. Se se lhes não pusesse um freio às agressões, bem depressa todos os bons seriam suas vítimas. O próprio instinto de conservação, que é uma lei da Natureza, obsta a que alguém estenda o pescoço ao assassino. Enunciando, pois, aquela máxima, não pretendeu Jesus interdizer toda defesa, mas condenar a vingança. Dizendo que apresentemos a outra face àquele que nos haja batido numa, disse, sob outra forma, que não se deve pagar o mal com o mal; que o homem deve aceitar com humildade tudo o que seja de molde a lhe abater o orgulho; que maior glória lhe advém de ser ofendido do que de ofender, de suportar pacientemente uma injustiça do que de praticar alguma; que mais vale ser enganado do que enganador, arruinado do que arruinar os outros. É, ao mesmo tempo, a condenação do duelo, que não passa de uma manifestação de orgulho. Somente a fé na vida futura e na justiça de Deus, que jamais deixa impune o mal, pode dar ao homem forças para suportar com paciência os golpes que lhe sejam desferidos nos interesses e no amor-próprio. Daí vem o repetirmos incessantemente: Lançai para diante o olhar; quanto mais vos elevardes pelo pensamento, acima da vida material, tanto menos vos magoarão as coisas da Terra.” [3]

A Codificação Espírita existe, também, para nos fazer aprender com exemplos de êxito na transformação moral, bem como os relatos menos felizes e que nos alertam acerca de caminhos a evitar. O livro “O Céu e o Inferno”, em sua segunda parte, intitulada “Exemplos”, traz relatos que muito ilustram, de forma prática, os preceitos da Doutrina dos Espíritos. Vejamos o caso da mendiga Julienne-Marie, relatado nessa obra:

“Evocado a 10 de junho de 1864, na Sociedade de Paris, o Espírito Julienne ditou a mensagem seguinte:
‘Caro presidente: obrigada por quererdes admitir-me ao vosso centro. Previstes, sob o ponto de vista social, a superioridade das minhas antecedentes encarnações, pois, se voltei à Terra com a prova da pobreza, foi para punir-me do vão orgulho com o qual repelia os pobres, os miseráveis. Assim, passei pela pena de talião, fazendo-me a mais horrenda mendiga deste país; mas, ainda assim, como que para certificar-me da bondade de Deus, nem por todos fui repelida: e esse era todo o meu temor. Também foi sem queixumes que suportei a provação, pressentindo uma vida melhor, da qual não mais tornaria ao mundo do exílio e da calamidade. Que ventura a desse dia em que a nossa alma rejuvenescida pode franquear a vida espiritual para aí rever os seres amados! Sim, porque também amei e considero-me feliz pelo encontro dos que me precederam.
(...)
Agradecei ao Senhor o permitir que os bons Espíritos vos orientem, a fim de animardes o pobre nas suas mágoas, e deterdes o rico em seu orgulho. Capacitai-vos de quanto é vergonhosa a repulsa para com os infelizes, servindo-vos o meu exemplo, a fim de evitardes o retorno à Terra, em expiação de faltas (...)’” [4]

Notemos um aspecto crucial da atitude de Julienne, que foi o enfrentamento, sem revolta, das dificuldades. Entendendo toda prova ou expiação como lições a aprender, e efetivamente buscando tal aprendizado, evoluímos moralmente, amadurecemos espiritualmente. Resignação, com trabalho em prol de nosso aperfeiçoamento, nada tem a ver com conformismo inerte e improdutivo.

Importante termos em mente que nem toda situação dificultosa pela qual passemos significa a aplicação da lei de talião. Nem tudo que sofremos é decorrente de erros de vidas passadas. Pensar assim reforçaria sentimentos de culpa e/ou de autocomiseração, e ambos não levam a progresso nenhum. Em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, encontramos preciosas orientações a esse respeito:

“As tribulações podem ser impostas a Espíritos endurecidos, ou extremamente ignorantes, para levá-los a fazer uma escolha com conhecimento de causa. Os Espíritos penitentes, porém, desejosos de reparar o mal que hajam feito e de proceder melhor, esses as escolhem livremente.
Tal o caso de um que, havendo desempenhado mal sua tarefa, pede lha deixem recomeçar, para não perder o fruto de seu trabalho. As tribulações, portanto, são, ao mesmo tempo, expiações do passado, que recebe nelas o merecido castigo, e provas com relação ao futuro, que elas preparam. Rendamos graças a Deus, que, em sua bondade, faculta ao homem reparar seus erros e não o condena irrevogavelmente por uma primeira falta.
Não há crer, no entanto, que todo sofrimento suportado neste mundo denote a existência de uma determinada falta. Muitas vezes são simples provas buscadas pelo Espírito para concluir a sua depuração e ativar o seu progresso. Assim, a expiação serve sempre de prova, mas nem sempre a prova é uma expiação.” [5]

Examinemos nosso proceder diário, e veremos que poderíamos evitar muitos dissabores se agíssemos melhor para com nosso semelhante. Muito do que se pode pensar ser a pena de talião por vidas passadas, na realidade, são consequências de atos muito recentes:

“Remontando-se à origem dos males terrestres, reconhecer-se-á que muitos são consequência natural do caráter e do proceder dos que os suportam.
Quantos homens caem por sua própria culpa! Quantos são vítimas de sua imprevidência, de seu orgulho e de sua ambição!
Quantos se arruínam por falta de ordem, de perseverança, pelo mau proceder, ou por não terem sabido limitar seus desejos!
Quantas uniões desgraçadas, porque resultaram de um cálculo de interesse ou de vaidade e nas quais o coração não tomou parte alguma!
Quantas dissensões e funestas disputas se teriam evitado com um pouco de moderação e menos suscetibilidade!
Quantas doenças e enfermidades decorrem da intemperança e dos excessos de todo gênero!” [6]

Ao líder pacifista Mohandas Karamchand Gandhi é atribuída a frase: “olho por olho torna o mundo inteiro cego”. Perdoar e superar erros, tanto nossos como alheios, não é mero discurso bonito, mas uma necessidade urgente para nossa própria evolução. Não vivamos remoendo erros do passado: só temos um tempo para nos melhorar — e esse tempo é agora.


Leia também, neste blog, as postagens “O amor cobre uma multidão de pecados”, “Expiação, Prova e Missão”, “O Bem e o Mal”, “Vigiai e Orai”, “Inteligência e Instinto” e “Considerações sobre a pluralidade das existências”.


Bons estudos!
Carla e Hendrio


Referências:
[1] KARDEC, Allan. “O Livro dos Espíritos”. 66ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Questão 764.
[2] KARDEC, Allan. “A Gênese”. 34.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1991. Capítulo I, item 23.
[3] KARDEC, Allan. “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. 97.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Capítulo XII (“Amai os vossos inimigos”), item 8.
[4] KARDEC, Allan. “O Céu e o Inferno”. 37.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1991. Segunda parte, Capítulo VIII.
[5] KARDEC, Allan. “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. 97.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1987. Capítulo V, itens 8 a 9.
[6] Ibidem, item 4.




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